Léxico: «retiro»

Nada espiritual


      Como também se falou nos famosos retiros de Lisboa, os da pândega, não os espirituais. Que, é claro, não estão nos dicionários, ou eu não estaria aqui a perder tempo. Assim, proponho retiro HISTÓRIA taberna, casa de pasto ou estabelecimento popular de recreio, geralmente situado nos arredores da cidade, frequentado sobretudo entre os séculos XIX e XX por grupos que procuravam convívio, vinho, petiscos e diversão em ambiente semi-rural, como os célebres Quebra-Bilhas ou Perna de Pau.

[Texto 22 998]

Léxico: «mosca»

Incomodam sempre


      No último episódio de Histórias de Lisboa, o podcast do jornal Expresso, o jornalista Miguel Franco de Andrade conversou com a historiadora Maria Alexandre Lousada sobre o que se bebia e comia em tabernas, casas de pasto e cafés da Lisboa dos últimos trezentos anos. A determinada altura, falaram numa figura bem conhecida de finais do século XVIII mosca HISTÓRIA designação popular e pejorativa dada, no tempo de Pina Manique (1733-1805), aos indivíduos que colaboravam com a Intendência-Geral da Polícia como informadores ou agentes de vigilância, frequentando à paisana locais considerados suspeitos e denunciando actividades tidas por criminosas, imorais ou politicamente subversivas.

[Texto 22 997]

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P. S.: Atenção, Porto Editora, a acepção de «rusgata» relativa à música não é um regionalismo; logo, esta indicação só poderá estar junto da 1.ª acepção.


Léxico: «pedregulhal»

Mandámo-lo para o Brasil


      «Que lhe importava que tivesse de passar a usar volta em vez de andar enforcado, como dizia, num colarinho de goma? Do património não lhe restava um pataco furado; o jornalismo era chão ingrato de pedregulhal; e as letras, de que ainda não lavrara a primeira jeira rendosa, representavam uma incógnita» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, pp. 81-82).

[Texto 22 996]

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P. S.: Antes da 1 da tarde, na Antena 1, um jornalista, ao falar da transferência de jogadores para outros países e outras matérias assim elevadas, usou um suposto prosónimo: «País dos Olhos Pequenos». Francamente... Se tivessem de pagar uma multa avultada por cada disparate, havia meses em que teriam de ir bater à porta da Refood.


Léxico: «fórmula de Blackstone»

Devia ser mais conhecida


      Num livro que estou a rever, e não é a primeira vez que a vejo, aparece a fórmula de Blackstone DIREITO princípio jurídico segundo o qual é preferível absolver vários culpados a condenar injustamente um inocente; exprime a ideia de que a protecção dos inocentes deve prevalecer sobre a punição a todo o custo, sendo frequentemente resumido pela máxima inglesa «It is better that ten guilty persons escape than that one innocent suffer» («É preferível que dez culpados escapem a que um inocente sofra») e associado às garantias fundamentais do direito penal moderno.

[Texto 22 995]

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P. S.: O nome deriva de William Blackstone (1723-1780), que formulou esta ideia na sua obra Commentaries on the Laws of England, publicada entre 1765 e 1769.


Léxico: «contacto»

Já vamos atrasados


      «La agencia europea ofreció ayer una rueda de prensa para informar de las últimas novedades sobre un brote cuyo principal desafío no es solo tratar clínicamente los casos de gravedad, hasta el momento, dos personas permanecen ingresadas en la UCI, sino también controlar nuevos contagios. Con un periodo de incubación que puede alargarse hasta los 42 días, la gestión de los contactos se convierte en una carrera de fondo» («Europa descarta mutación, pero anuncia un rastreo agresivo de contactos», Antonio Villarreal, ABC, 14.05.2026, p. 57). 

      Não é apenas agora, devia estar nos dicionários desde 2020, pelo menos. Assim, proponho contacto EPIDEMIOLOGIA pessoa que, no âmbito da vigilância de uma doença transmissível, é identificada como tendo estado exposta a um caso confirmado, provável ou suspeito, ou a material biológico infectante, durante o período de transmissibilidade e em condições susceptíveis de permitir a transmissão do agente infeccioso, podendo ficar sujeita a avaliação de risco, vigilância, testagem, quimioprofilaxia, vacinação, quarentena ou isolamento preventivo.

[Texto 22 994]

Léxico: «cantarina»

Se também existe


      «Quanto a honorários, a pingar certo e pontual, não contasse. Servia-lhe o bilhete para os teatros, para o Lírico? Agora estavam lá umas cantarinas francesas que traziam o Porto doido» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 12).

[Texto 22 993]

Léxico: «arraia-xingu | coral-de-fogo»

Reais, não inventados


      «Mais de uma centena de espécies passaram a integrar a lista brasileira de peixes e invertebrados aquáticos ameaça-dos de extinção. Entre elas estão as de animais endêmicos, como a arraia-xingu (Potamotrygon leopoldi), que só existe no rio que a batiza, e o coral-de-fogo (Millepora braziliensis), que habita o litoral do Nordeste, e também muito populares, como o tambaqui (Colossoma macropomum), comum na culinária amazônica» («Arraia-xingu e tambaqui integram lista de espécies ameaçadas de extinção», Jéssica Maes, Folha de S. Paulo, 11.05.2026, p. A39).

[Texto 22 992]

Léxico: «prisão-escola | prisão-hospital | prisão-oficina»

Do limbo das promessas


      «O EP de Odemira nasceu em 1995, com um infantário, para responder à demanda da população feminina do sul. O antigo sanatório-prisão da Guarda passou a EP feminino em 1998 para receber, sobretudo, mulheres originárias dos distritos da Guarda, de Castelo Branco, de Portalegre e de Viseu. As reclusas foram em 2017 transferidas dali para a extensão do Mondego, que antes servira de centro educativo» («Reclusas do Sul ficam concentradas em Tires e famílias pagam o preço», Ana Cristina Pereira, Público, 11.05.2026, 7h00). 

      O composto «sanatório-prisão» não figura actualmente no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, apesar de remeter para uma série histórica bem documentada na organização penitenciária portuguesa do século XX. Em documentação oficial do Estado Novo, surgem designações como «prisão-escola», «prisão-hospital», «prisão-sanatório», «prisão-asilo» e «prisão-oficina». Curiosamente, a jornalista emprega a forma «sanatório-prisão», e não a designação histórica oficial «prisão-sanatório», usada sistematicamente na classificação penitenciária da época. A inversão dos elementos parece reflectir uma reorganização espontânea da percepção lexical: em vez de uma prisão com funções sanatoriais, o composto passa hoje a sugerir antes um sanatório adaptado à função prisional. Ainda assim, a Porto Editora prepara — promete: «brevemente disponível» — o acolhimento das formas históricas «prisão-escola», «prisão-hospital» e «prisão-oficina», o que reforça a legitimidade lexical e documental de «prisão-sanatório» e «prisão-asilo», igualmente atestadas na terminologia penitenciária portuguesa.

[Texto 22 991]

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