Como se escreve nos jornais

Mil descuidos

      «D. Carlos I – que foi assassinado na Praça do Comércio a 1 de fevereiro de 1908, tal como o príncipe D. Luís Filipe – era um amante das prospeções marítimas na Arrábida, chegando aqui a passar longas temporadas, mesmo contra a oposição da Corte, que estava instalada em Cascais» («Aposentos reais abandonados e a saque em forte de Setúbal», Roberto Dores, Diário de Notícias, 8.10.2012, p. 20).
      Nada de especial, talvez, mas demonstra, mais uma vez, como não há qualquer espécie de revisão neste jornal.
[Texto 2179]

Segundo o AOLP90

Já não é assim

      «O grupo parlamentar de Os Verdes questionou o Governo sobre a eventual destruição de dunas em Tróia para criar um novo acesso à praia, revelou ontem o partido. José Luís Ferreira disse ter alguns dados sobre conversações “para tornar a zona urbanizada da Soltróia num condomínio de acesso e uso privado”» («Verdes questionam Governo sobre Tróia», Diário de Notícias, 8.10.2012, p. 12).
      Com a adopção do Acordo Ortográfico de 1990, o topónimo Tróia (e o nome comum «tróia», nome de um antigo jogo que simulava um combate) perde o acento agudo, passando a Troia.
[Texto 2178]

Citem-na, pois

O que vale a Wikipédia

      «Para encontrar dados que antes requeriam horas, hoje está-se à distância de um clique e da Wikipédia. Tempos novos, que precisam de novas cautelas, mas de saberes globais e levezinhos. Ontem, o Times prestou com ironia uma homenagem a essa sabedoria instantânea. Em editorial, o diário londrino escreveu sobre o casamento de Jimmy Wales, o fundador da Wikipédia. O casamento foi ontem, com uma antiga colaboradora de Tony Blair, Kate Garvey. Eles conheceram-se em Davos e Wales terá pedido a um subordinado: “Arranja-me o telefone dela, e não vás à Wikipédia, tem de ser um dado exacto.” Noutra página, o Times volta ao casamento. Entre os 23 milhões de artigos da enciclopédia livre na Net (publicados em 285 línguas), o jornal desencantou o texto dedicado ao próprio Jimmy Wales. Na edição inglesa, o patrão da Wikipédia é dado como indo casar-se “no próximo verão.” Casou-se ontem, em pleno outono. E com outro clique eu fui à edição portuguesa e li que “Wales vive em Sampetersburgo (Florida) com sua esposa Christine e sua filha, Kira”... O Times diz que nas suas memórias o antigo primeiro-ministro Blair elogia muito a noiva de ontem. Quando da zanga pública entre Blair e Gordon Brown, Kate Garvey deu-lhe o melhor dos conselhos: que frente aos jornalistas ele comprasse dois sorvetes e oferecesse um a Gordon. Com um só casamento, ontem o Times expôs-nos o enxoval de meias mentiras com que somos diariamente servidos» («Saberes globais e levezinhos», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 7.10.2012, p. 48).
[Texto 2177]

Voz da coruja

Mais específico

      O autor pôs uma coruja a cantarolar. E até podia tê-la posto a trautear o hino, mas a voz da coruja é outra: a coruja chirria.
[Texto 2176]

Léxico: «cagarrão»

Nunca a viram

      «De ladrão não passas para toda a gente... e qualguer [sic] coisa que haja por aqui, já sabes: metem-te no cagarrão» (A Barca dos Sete Lemes, Alves Redol. Lisboa: Publicações Europa-América, 1986, p. 250).
      Se apenas consultarmos o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, não ficaremos a saber que cagarrão significa prisão.
[Texto 2175]

Cuidados editoriais

Ligatura

      É raríssimo ver semelhante cuidado: nas provas, logo no primeiro título corrente, uma indicação para o paginador: «Ligatura. MUDAR TODOS.» Sim, o traço, na escrita, que une uma letra a outra, em certos caracteres. No caso, entre o f e o i. Fim.
[Texto 2174]

Léxico: «acolar e encolar»

Pobres dicionários

      «Acolar. — Usa-se nas Beiras, com o mesmo sentido de encolar. Acolar uma criança é pegar nela ao colo, ou trazê-la ao colo. Alguns dicionários, justamente considerados modernos e copiosos, não trazem a forma acolar» (Glossário de Incertezas, Novidades, Curiosidades da Lingua Portuguesa e também de Atrocidades da Nossa Escrita Actual, Agostinho de Campos. Lisboa: Livraria Bertrand, [1938], 2.ª ed., p. 32). É o caso do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que só regista «encolar» nesta acepção. E na versão digital nem sequer têm a desculpa da falta de espaço.
[Texto 2173]

Sinónimos, essa riqueza

É usá-los

      Podemos escrever solho, ou soalho, ou assoalho. São os três sinónimos. Podemos escrever cuspe ou cuspo. Como podemos escrever vergasta ou verdasca. Gole ou golo. São milhares. A grande riqueza de sinónimos é um tesouro da nossa língua que não podemos desperdiçar.
[Texto 2172]

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