Léxico: «medianímico»

Poucas vezes a vemos

      «Antes mesmo de saber que tinha faculdades medianímicas, já ela comunicava com o espírito de Max» (O Falecido Matias Pascal, Luigi Pirandello. Tradução de José Marinho. Lisboa: Inquérito, s/d [mas de 1945], 2.ª ed., p. 162).
      Esta pouco aparece, o que se compreende, pois não se refere a nada propriamente do nosso dia-a-dia. Medianímico: relativo a médium; que tem a qualidade ou a faculdade de médium.

[Texto 1713]

Léxico: «percevejo»

Não é o insecto hemíptero

      «Na porta do quarto andar havia duas placas: Paleari, de um lado, Papiano, do outro; por baixo desta última, um cartão de visita, prêso com dois percevejos de cobre dizendo: Silvia Caporale» (O Falecido Matias Pascal, Luigi Pirandello. Tradução de José Marinho. Lisboa: Inquérito, s/d [mas de 1945], 2.ª ed., p. 105).
      É raro, mas já tenho visto: o vernáculo percevejo em vez do galicismo pionés. No original, está «due bullette di rame». Rame, «cobre» em italiano, partilha com o nosso «arame» o mesmo étimo latino, aeramen.
[Texto 1712]

Tradução: «dress code»

Vá lá

      «Este ano, Royal Ascot, que se realiza no condado de Berkshire desde 1711, começou na segunda-feira, mas com mais decoro do que em edições passadas. Isto porque a organização decidiu reformular o código de vestuário» («Ascot. Desfile de extravagância», Diário de Notícias, 21.06.2012, p. 2).
      Não terem usado a locução inglesa dress code — que há já quem julgue intraduzível, arreigada, etc. — já foi, por si só, extraordinário. E é claro que há outras formas de dizer o mesmo que não passam pela tradução do inglês. É só querermos.
[Texto 1711]

Tradução: «croupier»

É outra forma

      «A bola, por fim, caía, e o banqueiro, na mesma voz morta, repetia a fórmula usual e anunciava o número e a côr» (O Falecido Matias Pascal, Luigi Pirandello. Tradução de José Marinho. Lisboa: Inquérito, s/d [mas de 1945], 2.ª ed., p. 62).
      Será o proprietário de um banco? Não: é aquele que, no jogo, maneja as cartas. Croupier, crupiê. Nunca José Marinho usa outra palavra que não seja «banqueiro».
[Texto 1710]

Tradução: «rosolio»

Mais genérico

      «Bebi o rossolis de que Malagna e a mãe beberam também» (O Falecido Matias Pascal, Luigi Pirandello. Tradução de José Marinho. Lisboa: Inquérito, s/d [mas de 1945], 2.ª ed., p. 35).
      Ah, sim, sim, conheço bem, rossolis, «le liqueur fabriquée en Italie et Turquie principalement, à base d’eau-de-vie, de sucre, d’aromates et d’une macération de pétales de roses, de fleurs d’oranger (ou parfois de jus de fruits)», diz o Trésor. Em português, é rosólio. De qualquer maneira, no original lê-se rosolio, que é qualquer licor, e não somente rosólio.
[Texto 1709]

Género de «entorse»

Ainda um dia

      «Ora sabemos que Sousa Coutinho, depois do gesto incendiário a que terá sido levado por uma questão pessoal com aqueles (e que ele mesmo descreve num poema em latim), se deslocou a Madrid, para se acolher à protecção real de Filipe III, a quem dedicou em 1600 as obras coligidas de Jaime Falcão. E ali terá permanecido dois anos. Garrett não hesitou em ajustar a História às suas conveniências dramáticas, justificando teoricamente esse entorse» («A morte de Simão», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 20.06.2012, p. 54).
      Ainda um dia, hão-de ver, a pedido de tanta e tão importante gente, a palavra «entorse» muda de género.
      Mas entretanto: «Ele, de métodos drásticos, curava definitivamente uma chaga, uma entorse, um inocente furúnculo, de serrote em punho» (Fogo na Noite Escura, Fernando Namora. Lisboa: Publicações Europa-América, 1988, p. 205).
[Texto 1708]

Álbuns e canções

É pedir muito

      «Ontem [Bono Vox] conheceu mais uma das lutadoras por quem nutre tanta admiração: Aung San Suu Kyi, líder da oposição birmanesa e Nobel da Paz, a quem há mais de uma década dedicou a música Walk On (do álbum intitulado All That You Can’t Leave Behind)» («Bono fica “deslumbrado” com a birmanesa a quem dedicou ‘Walk On’», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 19.06.2012, p. 19).
      Se compararmos um álbum com um livro, uma canção será então um capítulo, pelo que, até para evitar confusões, devia ser grafada entre aspas: música «Walk On» do álbum All That You Can’t Leave Behind. Mas há tempo e flexibilidade para mudar alguma coisa nos jornais?
[Texto 1707]

«Entre ‘x’ e ‘y’»

Demasiado frequente

      «Morsi convocou uma conferência de imprensa durante a madrugada de ontem para dizer que foi eleito com 52,5% dos votos, para logo depois ouvir um desmentido de Chafiq, que diz ter reunido entre 51 a 52% dos votos» («Irmão muçulmano reclama presidência egípcia», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 19.06.2012, p. 18).
      Ficamos entre as dez e as onze com estes erros. Parece que só não é simples para os jornalistas. Bem, e para alguns tradutores.

[Texto 1706]

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