Anúncios que anunciam

Nada de novo

      Há coisas que, graças aos céus, nunca mudam: «Anúncios negativos de Obama anunciam uma campanha eleitoral dura», Kathleen Gomes, na página 20 da edição de hoje do Público.
[Texto 1573]

Tradução: «biznaga»

Nada disso

      «Vestida de forma mais informal, Letizia foi o centro das atenções na visita a um centro educacional de jovens, onde juntamente com o marido recebeu uma “biznaga”, tradicional flor daquela região do país [Andaluzia]» («Aniversário de casados foi passado a viajar», Ana Lúcia Sousa, Diário de Notícias, 23.05.2012, p. 53).
      «De forma mais informal»... A biznaga não é uma flor tradicional daquela região: é um «ramillete de jazmines en forma de bola». Nós é que temos uma planta espontânea chamada bisnaga, bisnaga-das-searas ou paliteira, da família das Umbelíferas.
[Texto 1572]

«Sobressaliente» é outra coisa

Em português é sempre mais seguro

      «Pessoa simples e modesta, mas um músico de craveira excecional, Noel Flores era natural de Pangim (Goa), onde nasceu em 5 de maio de 1935. Iniciou a sua carreira como pianista, tendo estudado primeiro em Madrid, onde frequentou, com uma bolsa de estudo, o Conservatório, cujo curso concluiu com a nota máxima: sobressaliente» («Pianista e professor de piano que Portugal mal conhecia», Palma Caetano, Diário de Notícias, 23.05.2012, p. 43).
      É sinónimo de «sobresselente», que, como substantivo, significa aquilo que sobressai, sobeja ou excede. Palma Caetano (José A. Palma Caetano?) queria escrever, vá-se lá saber porquê, sobresaliente, o vocábulo castelhano, usado na classificação escolar, que significa excelente, muito bom. Sim, vá-se lá saber porquê, pois umas linhas à frente escreve que Noel Flores, «no curso de Piano da Academia de Música de Viena foi, no exame final, aprovado com distinção». Então, porque não escreveu aqui a nota em alemão?
[Texto 1571]

AOLP90: toda a verdade

Maquilhado

      «Nuno Pacheco explica detalhadamente as incongruências a que a língua foi sujeita», prometeu — em vão — o locutor logo no início do programa de ontem de Nativos Digitais, dedicado ao Acordo Ortográfico. Apareceu também escrito que «nas rádios a questão não se coloca de uma forma tão vincada porque o acordo tem repercussões sobretudo ao nível da escrita». Sou ouvinte assíduo de rádio, e nomeadamente da Antena 1, e, até agora, não reparei em nenhuma repercussão do Acordo Ortográfico. O director adjunto do Público aduziu o exemplo de «maquiagem», que, «em português de Portugal, quer dizer “abarbatar-se com umas quantias”». Não quer nada, isso é disparate. Temos, como têm os Brasileiros, o verbo maquiar, que significa desfalcar, subtrair, de que não se formou o substantivo «maquiagem». Tão disparate como afirmar que são «milhares, milhares» as palavras diferentes entre o inglês e o inglês americano.
      Já para José Mário Costa (fosse eu jornalista, e escreveria que é o «bonzo do Acordo Ortográfico»), se antes, «nós, mesmo os mais ligados à língua, não éramos capazes de escrever sem um prontuário a dizer como é que era», agora «o hífen passou a ter regras claras», até porque basta ir ao Vocabulário Ortográfico, «disponível graciosamente», e «qualquer dúvida é imediatamente resolvida». Então não.

[Texto 1570]

Tradução: «firewall»

Para não haver tresmalhos

      Prof. Silva Lopes, economista e antigo ministro das Finanças e antigo governador do Banco de Portugal, em entrevista à Antena 1: «A Europa tem todo o interesse que faça aquilo a que se chama uma firewall, portanto, uma cerca de protecção para os países... Quer dizer, actualmente a Grécia está dentro dessa cerca. Se a Grécia ficar fora da cerca, é preciso que Portugal fique dentro e que a Europa apoie, quer dizer, com a tal firewall, a tal cerca — consiste em apoios do Banco Central Europeu e outros, mas principalmente do Banco Central Europeu —, se a Europa fizer isso e se Portugal ficar dentro, enfim, lá vamos aguentando.» Tínhamos visto esta questão aqui recentemente.
[Texto 1569]

«Sarna/escabiose»

Pior que a sarna?

      «Dois casos distintos de surtos de escabiose – mais conhecida por sarna – numa CERCI de Oeiras e num hospital açoriano, abrangendo 18 pessoas, estão a gerar apreensão entre funcionários e utentes. [...] Um caso, denunciado ontem de forma anónima ao DN, prende-se com a CERCI de Oeiras, instituição de apoio ao [sic] deficientes que, nos últimos três anos, tem sido frequentemente atingida por esta doença de pele contagiosa, causada pelo ácaro Sarcoptes scabiei» («Surtos de sarna em CERCI de Oeiras e hospital», Pedro Sousa Tavares e Paulo Faustino, Diário de Notícias, 22.05.2012, p. 13).
      É para «sarna» que remete o verbete «escabiose» no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Deve ser uma sensação terrível, e não é por acaso que há várias frases feitas e provérbios sobre a doença. Só lhe falta sarna para se coçar é o que ouço mais vezes.
[Texto 1568]

Rife

Outras paragens

      «Considerada como a surpresa da campanha, a franco-marroquina Najat Vallaud-Belkacem assumiu o Ministério dos Direitos das Mulheres. Esta jovem de 34 anos nasceu no Rife marroquino, mas mudou-se com a família para França quando tinha apenas quatro anos» («Do Magrebe à Coreia do Sul, as origens dos ministros de Hollande», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 22.05.2012, p. 25).
      Prefiro, naturalmente, a grafia Rife. Que é também a usada no verbete «rifenho», no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «do Rife, região montanhosa de Marrocos setentrional».
[Texto 1567]

Plural metafónico

Eu seja surdo se

      «O alerta foi dado por funcionários da obra. Preparavam-se para mais um dia de trabalho num dos troços da futura Auto-Estrada n.º 4, em Mouçós-Vila Real, quando encontraram o tractor tombado numa via paralela», disse a repórter Eduarda Freitas (ou terá sido Ana Felício?) no Jornal da Tarde. E manteve o timbre da vogal tónica, isto é, sem metafonia. Ora, tanto quanto sei, «troços» tem plural metafónico e não é vocábulo alvo de indefinição. Como em tijolos, tortos, tremoços, trocos...
[Texto 1566]

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