Como se escreve nos jornais

Às três pancadas

      «Não pode andar devido a uma recente fractura do fémur e angustia-se constantemente com as muitas dívidas contraídas ao longo dos anos, que nem consegue administrar, porque um tribunal da cidade italiana de Velltri lhe adjudicou um tutor ao vê-la só, sem filhos e nenhum familiar que pudesse tratar dos seus muitos encargos» («Anita Ekberg. Sozinha e com dívidas», «P2»/Público, 24.12.2011, p. 13).
      É assim que foi publicado, por exemplo, no El País, e o jornalista (se foi jornalista) português limitou-se a copiar: «ya que un tribunal de la ciudad italiana de Velltri le adjudicó un tutor al verla sola, sin hijos ni ningún familiar que pueda hacerse cargo de sus necesidades». Se se desse ao trabalho, concluiria que não existe nenhuma cidade com aquele nome, mas sim Velletri, que dista 40 km de Roma. Se tivesse lido a imprensa italiana, veria que o tutor («amministratore di sostegno») foi «nominato dal Tribunale di Velletri», e não adjudicado. (Sim, e o resto da tradução também tem muito que se lhe diga.)

[Texto 880]

«Estacar/estancar»

Aqui não há erro. (Uf!)

      «Um rato selvagem saltou da relva para a pista, onde estancou por um breve momento, encandeado pelos faróis do jipe» (Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow, Alain de Botton. Tradução de Manuel Cabral e revisão de Tiago Albuquerque Marques. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 110).
      Nesta acepção, estacar e estancar são sinónimos, ao contrário do que se possa pensar. No entanto, não é habitual ver-se, e eu, para evitar equívocos (mas os leitores têm de aprender, sim), não o usaria. Já encadear e encandear não são sinónimos, e é erro que vejo com alguma frequência. Não se confundam cadeias com candeias.
[Texto 879]

«Nigga bitch»

N—A B—H

      «A cantora Rihanna anda zangada. Há dias, escreveu no Twitter que, em Portugal, tinha sido alvo de racismo e agora indignou-se porque a publicação de moda Jackie qualificou o seu estilo de vestir como nigga bitch. Rihanna acusou a redactora-chefe de ser responsável por uma publicação que não defende os direitos humanos, comportando-se de forma desrespeitosa. Esta demitiu-se, dizendo que bitch, na Holanda, se utiliza sem problemas para descrever uma pessoa irritante» («Rihanna em nova polémica», «P2»/Público, 23.12.2011, p. 19).
      E depois? Se lhe chamou nigga bitch, para que é para aqui chamado o particular matiz que bitch tem na Holanda? Irritante, esta Eva Hoeke. Bitch.
[Texto 878]

O «Público» errou

Dados mais finos

      «Na edição do PÚBLICO de dia 8 escrevia-se em título que “Um quinto da população portuguesa não tem qualquer nível de ensino”. Embora o número fornecido pelo INE esteja correcto, devia ter-se referido que neste valor o INE incluiu as crianças sem idade para poderem ter qualquer nível de escolaridade, o que significa que, retirada esta população, o indicador será bastante mais baixo. No entanto, não há neste momento no Censos 2011 dados mais finos que permitam conhecer esta realidade com rigor, algo que só acontecerá com a divulgação dos dados definitivos, em 2012. Pela omissão daquela informação, as nossas desculpas» («O Público errou», Público, 23.12.2011, p. 32).
      Oito dias depois de o provedor do jornal ter referido, citando a carta de um leitor, o caso é que vêm fazer a correcção. Quando se erra e se sabe que se errou, a correcção só perde na demora. No sobe e desce, fica bem lá em baixo.
[Texto 876]

Falsos amigos

Ao lado

      «A 1 de Janeiro, o castelo de Windsor estará convertido num palácio ecológico, sendo capaz de gerar a sua própria electricidade. Ou seja, a rainha Isabel II continua determinada em ter uma monarquia verde. Antes já havia mandado instalar uma planta hidroeléctrica em Balmoral, Escócia» («Isabel II é uma rainha verde», «P2»/Público, 23.12.2011, p. 19). 
      Sim, a rainha «has installed a small hydro-electric plant at Balmoral which is selling electricity to the national grid». Senhor jornalista: em espanhol é que planta também é a «fábrica central de energía, instalación industrial». Mas nós estamos em Portugal, não é?
[Texto 877]

Acordo Ortográfico

Isso é dAO

      «Todos os anos, a revista Science escolhe o avanço do ano. Em 2011, a escolha tem um carácter quase mais político do que científico: os ensaios clínicos que demonstraram claramente que os medicamentos antirretrovirais previnem a transmissão do HIV entre casais heterossexuais, quando um dos elementos não tem sida» («Prova de que medicamentos para HIV previnem transmissão da sida é avanço do ano», Clara Barata, Público, 23.12.2011, p. 21).
      Assim, em doses homeopáticas, os leitores do Público não vão rejeitar as novas regras ortográficas. Então não é anti-retroviral que devia ter escrito, cara Clara Barata? Quais são as ordens?
[Texto 875]

Como se escreve nos jornais

É o que vem à cabeça

      «Este tipo de condição acontece uma vez em cada 100.000 gravidezes, mas a sobrevivência é de 50%. Este é o segundo caso de siameses ligados pelo corpo num ano no Brasil, os primeiros morreram no nascimento. Nos EUA, um dos casos mais célebres é o das gémeas Abigail e Brittany Hensel, nascidas em 1990. Segundo a BBC News, ambas têm tido uma vida normal dentro do possível e até tiraram a carta de carro quando fizeram 16 anos» («Gémeos partilham maioria do corpo», Público, 23.12.2011, p. 21).

[Texto 874]

Léxico: «amarelo-choque»

Para nada

      «A associação ambientalista Quercus alertou ontem que a EDP está a pintar partes do paredão da barragem de Bemposta (Mogadouro) de “amarelo-choque”, sem autorização do Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB)» («EDP pinta barragem à revelia do ICNB», Público, 22.12.2011, p. 21).
      Ainda não foi acolhido, como o rosa-choque, nos dicionários, mas essa não é razão para ter o preservativo das aspas.
[Texto 873]

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