Onde/aonde/donde

Erros de mujique


      Ferreira Fernandes que me desculpe, mas quando li a sua crónica de ontem lembrei-me de um livro escandalosamente mal revisto de que aqui falei: O Mapa Secreto (Livro 3 de As Crónicas de Spiderwick, de Tony DiTerlizzi e Holly Black, tradução de Isabel Gomes e revisão de Isabel Nunes. Editorial Presença, Lisboa, 3.ª ed., 2008). Dois exemplos do que pretendo abordar: «— Para aonde vamos? — perguntou Jared» (p. 67). «Para aonde vamos agora? — perguntou Jared. Estavam a subir novamente para o cimo da primeira colina, o que era bom sinal, mas estavam a caminhar num ângulo tal que Jared achava que não podiam estar minimamente perto do ponto de encontro indicado no mapa» (p. 68). E agora Ferreira Fernandes: «Jorge Luis Borges, em Evaristo Carriego, faz Moshe e Daniel encontrarem-se no meio da estepe russa: “A onde vais, Daniel?”, diz um. “A Sebastopol”, responde o outro. “Mentes, Daniel. Dizes que vais a Sebastopol para que eu pense que vais a Nijni-Novogorod, quando tu vais mesmo para Sebastopol» («O bolero ‘Quizás, Quizás, Quizás’...», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 6.07.2010, p. 52). Erro ou gralha? O jornalista costuma ser mais cuidadoso.

[Post 3850]

Léxico: «micropaís»

British Overseas Territory

      Em inglês percebem logo... É a terceira vez que aqui falo de Gibraltar. Desta vez, um jornalista assegurava que «a proposta de alteração no apuramento para o Europeu, curiosamente, partiu do representante de Gibraltar, nação que, naturalmente, pouco ou nada tem a ganhar com a alteração, face à escassa representatividade do basquetebol daquele minúsculo país». Eu não deixei que tais disparates vissem a luz do dia, e não compreendo como é que, actualmente, ainda há quem esteja, e um jornalista!, a tal ponto desinformado. Gibraltar não é uma nação nem um país, nem mesmo um micropaís: é um território britânico ultramarino.
      A propósito: quase todos os dicionários registam microestado mas nenhum regista micropaís. Vamos lá colmatar estas lacunas, meus senhores.
[Texto 3849]

Sobre «ranger»

Ranger os dentes


      «Com a base situada no antigo Convento de Santa Cruz, em Lamego, o Centro de Tropas de Operações Especiais (CTOE) comemora hoje 50 anos de disciplina e rigor sem nunca mudar o lema dos Rangers: ‘Vontade e valor’» («Disciplina e rigor definem Rangers», Ricardo Coelho, Correio da Manhã, 6.09.2010, p. 13).
      Neste caso, o jornalista não tem a culpa de nada. No final da década de 1950, Salazar e as chefias militares viram que era necessário organizar forças militares para operações de tipo não convencional, ou seja, contraguerrilha, nos «territórios ultramarinos». Assim, em 1962, o Estado-Maior do Exército enviou o capitão Rodolfo Bacelar Begonha a frequentar um curso nos EUA. Quando regressou a Portugal, este capitão recebeu a missão de organizar um curso semelhante no Centro de Instrução de Operações Especiais (CIOE), actual Centro de Tropas de Operações Especiais (CTOE). Tão semelhante, na verdade, que nem o nome foi diferente: curso de «Instrutores e Monitores de Operações Especiais (tipo ranger)».
      O vocábulo, sabemos, é um americanismo, designa o soldado especializado em ataques de surpresa, membro de um comando. Porquê «ranger»? Porque é «a soldier specially trained in close-range fighting and in raiding tactics». Já aqui vimos como se deve evitar, nas traduções, o americanismo «marine». Infelizmente, nem todos os tradutores reflectem nestas questões.

[Post 3848]

Tradução: «runner»

É igual


      Os runners dos trenós são quê: patins ou esquis? O Dicionário Houaiss assegura que estes pequenos carros sem rodas são providos de esquis. Outros, contudo, afirmam que se trata de patins. Tudo é o mesmo. Patim, esqui e trenó são todas elas palavras que nos vieram do francês: patin, ski e traîneau. Vejam a definição do TLFI: «Véhicule bas sans roues, muni de patins recourbés à l’avant et utilisé comme moyen de transport sur la neige et la glace.» A parte da frente dos patins é curvada e estes podem ser feitos de madeira, alumínio ou plástico, com bases amovíveis, e são habitualmente encerados para deslizarem melhor.

[Post 3847]

Léxico: «bat box»


Anatomia morcegal. Tirada daqui

Morcegos estrangeiros


      Andava a passear de bicicleta com a minha filha na ciclovia do Bairro da Quinta do Bom Nome, ao lusco-fusco, e nisto, vi um morcego a esvoaçar vertiginosamente. E depois outro. E depois outro. Três morcegos minúsculos. De que precisava eu ali? Um jornalista saberia: uma bat box! «A identificação das espécies existentes é feita através de uma “bat box” (em português, caixa de morcegos), que detecta ultra-sons emitidos pelos animais, permitindo assim aos especialistas perceber de que se [sic] espécie se trata» («Visita nocturna a gruta de morcegos em Alte», Jornal de Notícias, 30.08.2010, p. 38). A minha filha queria apanhar um. Era bom, era. Também eu, sobretudo para ver o patágio (do latim científico patagium, «franja»), a membrana que liga os membros anteriores e posteriores. Voltando às bat boxes: pelo que vejo, também é o nome que se dá aos abrigos artificiais que se proporciona a estes mamíferos voadores. E quanto à etimologia do vocábulo «morcego»? No radical identificamos logo o latim mūs,mūris, «rato», sob a forma popular «mor», mais «cego». E não dizemos cego como um morcego? Alguns jornalistas portugueses dirão as blind as a bat...

[Post 3846]

Sobre o verbo «sacar»

How to Draw a Pistol


      Passam de duzentas as vezes que Cervantes usou o verbo sacar no D. Quixote. Não sei, nem isso agora importa, como os traduziu José Bento. Importa isto: em espanhol, sacar não significa exactamente o mesmo que em português. Num texto que estou agora a ler, que é tradução do inglês, vejo e horrorizo-me com o abuso e impropriedade do verbo sacar. Há sempre alguém a sacar uma máquina fotográfica da mochila, a sacar de um cofre que estava num armário, a sacar de um livro do interior daquele cofre, a sacar um casaco de uma caixa, a sacar um aviso de um quadro, a sacar do telemóvel guardado no porta-luvas... Para não ficar completamente desmoralizado, alguém saca, e eu faria o mesmo, e logo se veria contra quem, de uma pistola.

[Post 3845]

Fauna e flora, nomes comuns

Ratos e cardos


      Num sonho, apareceu a Carlos Magno um anjo que lhe disse para atirar um dardo. O dardo atingiu uma planta, um cardo. O anjo disse então ao imperador que os soldados, que estavam então a ser dizimados pela peste, que fossem tratados com aquela planta seriam curados. Esse cardo, muito comum nos Alpes, foi então chamado carlina, em homenagem a Carlos Magno. (Sim, sim, o Dicionário Houaiss, desta vez em todas as versões, não regista esta acepção, apenas a que diz respeito à construção de pontes.) Vulgarmente, também é conhecido por cardo-acaule. Em inglês, porque é, na verdade, de tradução que trata esta entrada, diz-se silver thistle, e o tradutor ficou-se por «cardo». A pergunta é: não é deliberadamente empobrecedor optar por não especificar? Optamos, conscientemente, por diminuir a riqueza, ao nosso alcance, do original? Já antes, um bank vole (Clethrionomys glareolus) tinha sido vertido simplesmente como «rato». Devemos contentar-nos com a família, omitindo a espécie e a subespécie? Será a literatura alérgica à exactidão, à precisão?

[Post 3844]

Neologismos

Esforço vão?


      Sobretudo em certo tipo de textos, mais técnicos, a necessidade de neologismos é constante. Será mesmo necessidade? Lembram-se do caso daquela orientadora que exigia que dois vocábulos, igualação e igualização, estivessem dicionarizados (não que fossem usados habitualmente, reparem), sob pena de não os admitir na dissertação? Lembrei-me dela agora que estou aqui a ler que, depois de feito, um questionário é «anonimizado». O que pressupõe um verbo que, na realidade, não existe: anonimizar. Existe, isso sim, anonimar, cujo particípio é anonimado. Contudo, a terminação –izar, com carácter causativo, está correcta. Umas linhas à frente, afirma-se que «o procedimento seguido permitia assegurar não apenas a confidencialidade das respostas mas também a anonimização dos questionários». Bem, na formação de substantivos derivados de verbos (anonimizar), o pospositivo é muito usado e também está correcto, mas de tudo se colige o uso ad hoc. Há formas, mesmo que perifrásticas, de dizer o mesmo sem recorrer a neologismos, que podem sempre causar estranheza e resistências.

[Post 3843]

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