Acordo Ortográfico

Mais desortografias


      Os meus leitores não dormem: às 4.42, avisavam-me de que no sítio do Expresso estava — num título! — esta preciosidade: «Maré negra: México e Washington vão avaliar juntos o impato ambiental». O Gabinete de Copydesk do Expresso tem a máquina de tirar consoantes desafinada. Entretanto, o sítio foi «atualizado» às 6.22 e os olhos de lince míope do revisor não viram nada. Com bojardas destas, mais do que de um Gabinete de Copydesk, estão a precisar de um Gabinete de Crise. É como diz o meu leitor: divirta-se, que isto é só o começo. É o que estou a fazer.

[Post 3802]

«To order»

Bela encomenda


      O jornalista Jorge Fiel está de férias nos Estados Unidos, motivo mais do que suficiente para confundir um pouco as línguas: «Nos States, o simples acto de encomendar um vulgar cheeseburger fora das cadeias globais pode ser o passaporte para uma aventura em que caímos na contingência de optar entre o cheddar, jack, swiss, blue ou american cheese» («Os militantes dos Assuntos Pendentes», Jorge Fiel, Diário de Notícias, 19.08.2010, p. 7). Antes, já se tinha baralhado nas línguas: «Ao terceiro dia, não resisti à tentação de aplicar um chuto de colesterol directo na veia e, de castigo, fui submetido a um interrogatório pelo Cliff, que não se ficou quando lhe encomendei ovos com bacon
      Logo que chegar a Lisboa, recomeça a pedir em vez de encomendar. Pelo menos é o meu desejo, mas já sei que há tradutores que fazem isto a vida inteira, decerto por não terem tempo de ler depois de revistos os livros que traduzem.

[Post 3801]

Regência verbal

Caem e recaem


      «Se a paixão recai por modalidades náuticas, como vela ou canoagem, então existe um investimento que pode incluir material e inscrição num clube para a prática destes desportos» («Praticar desporto no meio da natureza», Catarina Vasques Rito, Diário de Notícias, 19.08.2010, p. 44).
      Não sei em que país vivem estes jornalistas que trocam ou não apanham no ar as regências verbais e nominais. Diz-se recair em ou recair sobre.

[Post 3800]

Verbo

Arrojos estivais


      «Uma baleia-anã, em avançado estado de decomposição, arrojou ontem à tarde na praia de Faro. De acordo com o biólogo marinho Élio Vicente, o animal morreu há pelo menos seis dias e não será possível saber o que aconteceu» («Baleia-anã morta há seis dias deu à costa na praia de Faro», Miguel Ferreira, Diário de Notícias, 19.08.2010, p. 13).
       Que baleia-anã intransitiva é esta? Há-de ter sido mais o mar que arrojou a baleia à costa. É pena o mesmo mar não ter arrojado gramáticas para a praia em dia que o jornalista lá estivesse.

[Post 3799]

Léxico: «condition»

Claudica


      A rapariga «developed a particular way of walking to accommodate her condition». Andava com o auxílio de uma muleta. A história está no princípio, pelo que não sei porque está assim. O tradutor assegura que ela «desenvolvera uma forma particular de andar para acomodar a sua condição». Ainda recentemente aqui falámos deste «condition» e de como deve traduzir-se. E aquele «accommodate»... Hum... Vamos ajustar isto. Que acham os meus leitores?

[Post 3798]

Léxico: «chocalheiro»

Um trabalho sério


      «Aos 75 anos, António Ferreira da Costa é o último dos chocalheiros dos Açores. As folhas de chapa de latão custam-lhe 25 euros no mercado e dão para fazer 15 chocalhos, que vende a 20 euros (vacas) e a dez (cabras). Cada chocalho demora duas horas a fazer» («Último chocalheiro vive em Angra do Heroísmo», Correio da Manhã, 17.08.2010, p. 21).
      Bem, talvez já não valha a pena os dicionários da língua portuguesa registarem a acepção. Este atraso é atávico. Fiquem apenas com os intriguistas, os mexeriqueiros.

[Post 3797]

Sobre «resignação»

Não me resigno


      «“Quando um bispo chega aos 75 anos, segundo o direito canónico, deve pedir a resignação. A partir daí inicia-se um processo de substituição organizado pela Nunciatura Apostólica”, explica Manuel Morujão, porta-voz da Conferência Episcopal» («Oito bispos diocesanos vão apresentar a sua resignação», Público, 16.08.2010, p. 6).
      Bem, o certo é que a versão em português do Código de Direito Canónico não usa o termo «resignação», mas «renúncia». Recordo ao Sr. P. Manuel Morujão o Cânone 401 § 1: «O Bispo diocesano, que tiver completado setenta e cinco anos de idade, é solicitado a apresentar a renúncia do ofício ao Sumo Pontífice, que, ponderando todas as circunstâncias, tomará providências.» Se estivermos a falar em inglês, então sim, dizemos que o bispo «is requested to present his resignation». No caso, vale mais recordar a versão latina do código, o Codex iuris canonici, que diz que o bispo «rogatur ut renuntiationem». É um refrigério ler em latim, tanto mais que a versão portuguesa está mal pontuada.

[Post 3796]

Sobre «conceção»/«concepção»

Desortografias


      «Leio, por exemplo, na pág. 20 do último número do J/L, Jornal de Letras, Artes e Ideias, de 11 a 24.8.10, que “para a autora é essa uma das principais linhas da sua conceção de poema (…)”. A culpa da “conceção” não é evidentemente do autor do texto, mas da redacção do jornal. O J/L pertence ao grupo Impresa e este resolveu adoptar as pseudo regras dessa enormidade que dá pelo nome de Acordo Ortográfico» (‘Silly season’ e ‘silly country’», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 18.08.2010, p. 50).
      E por falar de desortografia, muito se descuidou o colunista ao escrever «pseudo regras». Estilhaçaram-se os telhados de vidro. Continuemos: «Se isto já envolve o recurso ao mais aberrante dos instrumentos utilizáveis, no caso de “conceção” as coisas vão ainda mais longe e entram patentemente no domínio da “desortografia”. É que os dicionários brasileiros não registam “conceção”. Registam, normalissimamente, “concepção”. Não há qualquer dúvida. Consultei o Michaelis e o Aurélio. Nada. Ainda admiti que os volumes em suporte de papel estivessem desactualizados. Fui à Internet consultar as versões on line. Nada…» (idem, ibidem). Aqui, francamente, não percebo. Se na norma brasileira da língua portuguesa se articula o p de «concepção», como queria que o não grafassem? Peguemos num exemplo ao contrário. Acaso os dicionários brasileiros grafam o c de «facto»?
      Não sou defensor deste acordo ortográfico que entrou agora em vigor, mas sim da coerência e da sensatez. Já aqui falei do caso de «espetadores», vocábulo com que Vasco Graça Moura exemplifica, dizendo-o «alvoroçadamente cunhado pelo Expresso», o descalabro ortográfico, donde colijo que também é adepto de uma ortografia ao gosto e medida de cada um. Ora, tal é inadmissível.
      Para terminar, não percebo porque é que se há-de grafar a abreviatura de «Jornal de Letras, Artes e Ideias» com barra, J/L. Tão incorrecto como escrever C/M para «Correio da Manhã», D/N para «Diário de Notícias», J/N para «Jornal de Notícias», etc.

[Post 3795]

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