Léxico: «desforradeira»

Mais uma lacuna


      Qualquer bombeirito conhece a palavra «desforradeira», pois designa um instrumento de trabalho no combate aos incêndios. E o leitor também há-de ter uma ideia. Está a ver aquelas hastes compridas terminadas em forma de gancho achatado? São as desforradeiras, que servem para abrir espaços nos tectos de construções de madeira. E desforrar não é retirar o forro, o revestimento, o tecto? Então, está explicado, só não se explica a ausência deste vocábulo de todos os dicionários.

[Post 3794]

Como se escreve nos jornais

Opiniões


      No início do blogue, afirmei que nunca iria ocupar-me de gralhas, o que mantenho. Com milhares de erros e questões linguísticas problemáticas, não me parece que tenha jamais de descer tanto. O intróito serve para prevenir que, embora alguém repute como gralha o que a seguir transcrevo, não o considero tal.
      «Vera Jardim, um militante histórico e um dos melhores ministros da Justiça que o País esteve, passa por ter uma “provecta idade” e, por isso, fazer opções “estranhas”» («O velho e o novo PS», Eduardo Dâmaso, Correio da Manhã, 17.08.2010, p. 2). Reparem que é o editorial, assinado pelo director adjunto.
      Já conhecíamos o verbo *tar da oralidade, mas num texto jornalístico não é menos que imperdoável. Os «meios aéreos» (que não defendi, e muito menos a estulta quantificação que lemos e ouvimos todos os dias), comparados com isto, não são nada que mereça perdermos a cabeça. Confundir teve (pretérito perfeito do indicativo do verbo ter) com esteve (pretérito perfeito do indicativo do verbo estar) é que me parece gravíssimo. E pergunto-me, naturalmente, se também neste jornal os revisores são prevenidos para não bulirem muito com os textos das chefias e colunistas. Nada de explícito, formal, apenas um aviso sussurrado por um colega mais velho — e sem espinha dorsal.

[Post 3793]

Topónimos

Semianalfabetos


      «A zona mais atingida pela intempérie foi o noroeste do Paquistão, habitual palco de combates entre forças do exército e a guerrilha talibã. Mas também as regiões de Punjab e Sind, no Sul, foram muito afectadas» («Um quarto do Paquistão foi atingido pelas cheias», Pedro Correia, Diário de Notícias, 16.08.2010, p. 23). «A Organização das Nações Unidas (ONU) alertou ontem para o risco de seis milhões de pessoas no Paquistão poderem vir a ser contaminadas com doenças potencialmente fatais na sequência das cheias que deixaram completamente submersas as planícies do rio Indo na populosa província do Punjab e nas regiões vizinhas de Sindh e Baluchistão — que ontem estavam ameaçadas por mais chuvas e inundações» («Seis milhões em risco de contrair doenças contagiosas no Paquistão», Rita Siza, Público, 17.08.2010, p. 11).
      No caso, a diferença não é muito grande: Sind ou Sindh. Contudo, em boa parte da má imprensa pôde ler-se, ao longo da semana, «rio Indus» — bem conhecido dos leitores anglo-saxónicos.

[Post 3792]

«Meios aéreos»

Imagem tirada daqui

Mais lambras


      «Em plena época de incêndios», escreve-me um leitor, «gostaria de o ver tratar no seu blogue de uma questão que me levanta as mais sérias dúvidas: a dos famigerados “meios aéreos”. Todos os dias se lê e ouve dizer coisas do tipo: “O incêndio foi combatido por x bombeiros e y meios aéreos” e isto causa-me erisipela. Será só a mim?»
      Não é, pelo menos se essa inflamação for causada pela quantificação dos «meios aéreos». A locução não terá, tenho quase a certeza, nascido da cabeça dos Portugueses: foi importada de França, não já pelo paquete do Havre, mas por moyens aériens. Claro que antes dos aéreos tínhamos somente os moyens de combat, locução referente à guerra. Com o advento da aviação, esses meios passaram a ser também aéreos e não meramente terrestres e navais. A determinada altura, os termos passaram a ser usados, pela similitude, para o combate aos incêndios — e não chamamos aos bombeiros «soldados da paz»? Por um princípio de economia, passámos a referir-nos elipticamente aos «meios aéreos».

[Post 3791]

Nomes pátrios, étnicos ou gentílicos

Mais uma sapatada


      Que nome têm os naturais e os residentes em Caxemira? Não são muitos os dicionários a registá-lo, mas os que o fazem dizem que são os Caxemirenses. Alguma imprensa portuguesa, porém, prefere copiar a forma inglesa: «O homem falhou o alvo e o líder caxemire [Omar Abdullah] prosseguiu o seu discurso após uma breve pausa» («Líder da Caxemira alvo de sapato», P. V, Diário de Notícias, 16.08.2010, p. 23).

[Post 3790]

«Estar a ser presente a tribunal»

Do Cáucaso


      Ser presente a tribunal, esse rebarbativo dizer do jargão jurídico, já é suficientemente mau, mas os jornalistas têm artes de o piorar. Ora vejam: «O alegado violador de 30 anos estava ontem a ser presente a primeiro interrogatório judicial, no Tribunal Judicial da Amadora, para saber a medida de coacção a que ficará submetido» («Violador em série foragido foi detido pela PJ», Rute Coelho, Diário de Notícias, 14.08.2010, p. 20). E quanto às vítimas, pode dizer-se alguma coisa? Só com um anglicismo: «Das três vítimas registadas pela PJ só uma é de etnia africana, as outras são caucasianas» (idem, ibidem).

[Post 3789]

«Acima»/«a cima»

É pena


      «As lambras estendiam-se ladeira a baixo na direcção do autotanque de Alcobaça, acabado de capotar» («O lume que trouxe o diabo no corpo», Rita Carvalho, Diário de Notícias, 14.08.2010, p. 2). A jornalista também gostou da palavra «lambra», e, com o entusiasmo, errou: escreve-se «ladeira abaixo». Mais à frente, porém, lemos isto: «“Se eu estivesse aqui, olhe que morria. E se não fosse o meu filho a levar-me no carro, estrada acima, como é que eu fugia?”, pergunta Esmeralda, apoiando o peso do corpo entravado no pau de madeira, habituado a servir de bengala há já muitos anos» (idem, ibidem, p. 5). Lembrem-se do poema de Fernando Venâncio: «Escada acima,/Escada abaixo,/Rua afora,/Mar adentro.» Se o corpo estivesse apenas «entravado no pau», teria gostado muito. Para quê «pau de madeira»? Pau não é (lanço mão da definição do Dicionário Houaiss) «qualquer madeira, ou pedaço dela (acha, bastão, lasca, vara, viga, etc.)? A imagem da entrevistada sugere isso mesmo: inclinada para a frente e apoiada no pau, o corpo está travado — entravado. Perigosamente próximo de entrevado. Ou será que, sou agora assaltado pela dúvida, a jornalista queria escrever «entrevado»?

[Post 3788]

Revisão

Uma lição portuguesa


      O trivial: faltas de concordância, erros de pontuação e de ortografia, frases ilegíveis e falta de cultura. Um escreve sobre «um encontro que oporará dois crónicos candidatos», outro confunde «conjuntura» com «conjectura», aqueloutro escreve «beneficiência», estoutro assevera que a capital de Cabo Verde é a «Cidade da Praia», e por aí fora. «“Já se tornou um hábito”! Um hábito, dois hábitos, três hábitos...», murmura o revisor antibrasileiro. Contudo, o que o faz mesmo entrar em delírio é a palavra «soalheiro». Tratava-se de uma ficha de jogo, com o número de espectadores, a hora a que começou, faltas e outras informações de igual jaez e relevância. Naval-FC Porto. «Fim de tarde soalheiro», escreveu o inocente jornalista. Nisto, o revisor lança um grito triunfal e agarra no dicionário e quer ver, à viva força, no verbete «ensolarado», com que queria substituir aquele «soalheiro», algo como «diz-se do tempo em que há sol», mas, desobediente, o dicionário só lhe diz «que está ao sol; soalheiro». Já a matéria não nos obedece. Deve ser porque as ondas de calor interferem com as ondas telepáticas, refractando-as e dispersando-as no éter.

[Post 3787]

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