Revisão

Uma lição africana


      Mário Pinto de Andrade estava então radicado em Cabo Verde. Tinha mandado rever o texto de um discurso e, quando o revisor lhe entregou as provas, viu, satisfeito, que todas as desconcordâncias, todas as faltas de ortografia, todos os problemas de pontuação estavam resolvidos. Em boa hora (para ele, e má para o revisor), porém, aprofunda a análise e vê que o sapateiro, perdão, o revisor, se tinha atrevido a «corrigir-lhe» uma tirada marxista (ou será proudhoniana?). O intelectual africano tinha escrito «exploitation de l’homme par l’homme», mas o revisor quis que fosse «exploration de l’homme par l’homme». Não morreu então, mas explodiu, apopléctico, perguntando se o revisor já se atrevia a corrigi-lo e se não sabia que exploration se usa em relação à extracção de minério. Uns rapapés, umas humílimas escusas do revisor — e uma lição para a vida.

[Post 3786]

Léxico: «lambra»

Era bom, era


      «O lume parecia que trazia o demónio. E botando línguas de 100 metros, daqui de cima, foi lançar-se lá em baixo. Se visse essas lambras... eram de deitar as mãos ao céu.» Parece uma personagem vicentina ou cervantina a falar. Se os nossos professores universitários e deputados escrevessem e falassem assim, estávamos bem. E quem se exprime assim? É uma moradora da aldeia de Bustarenga: «Carminda Guimarães descreve em tom exaltado, mas sem tirar o sorriso do rosto, os minutos de aflição que reduziram a escombros as duas casas onde guardavam as coisas da terra» («O lume que trouxe o diabo no corpo», Rita Carvalho, Diário de Notícias, 14.08.2010, p. 6). Não procurem a palavra mais saborosa do discurso no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, pois este dicionário não a regista. É com o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa que ficamos a saber que lambra é «fome» em Trás-os-Montes e «labareda» na Beira. Confere, pois a aldeia de Bustarenga fica no concelho beirão de S. Pedro do Sul, na serra da Gralheira.

[Post 3785]

Grafia dos topónimos

Realmente


      «O reencontro de uma família de emigrantes portugueses que vivem em Espanha e França ficou marcado pela tragédia quando o automóvel em que seguiam avós e três netos saiu da estrada, a cinco quilómetros de Alconchel, na Estremadura espanhola, provocando a morte a um rapaz de oito anos» («Rapaz de oito anos morre em acidente a caminho de França», Luís Maneta, Diário de Notícias, 12.08.2010, p. 19).
      Sim, Estremadura, pelo menos para nós. Aliás, em Cervantes e em autores coevos, a grafia é esta. Vejo de novo a tradução do D. Quixote de José Bento (O Engenhoso D. Quixote de la Mancha, Miguel de Cervantes. Tradução e notas de José Bento e revisão de Helder Guégués. Lisboa: Relógio D’Água), e não leio Ciudad Real, mas Cidade Real, não leio Valladolid, mas Valhadolide. Mais, até topónimos como Miguelturra são transformados — Miguel Turra. E são, lembro aos leitores distraídos, topónimos reais, que não utopias ficcionais.

[Post 3784]

Redacção

Ensino a distância


      Imaginem que um jornalista escreveu isto: «A saída do avançado do Santos para a Europa deverá estar para breve, sendo que o Chelsea é o principal interessado na aquisição do atacante de 18 anos, que se estreou há poucos dias pela canarinha — e logo com um golo, frente aos Estados Unidos.» O revisor antibrasileiro, lembram-se?, espuma quando lê semelhante construção. Sendo que é... Ele que é... Que pobreza.

[Post 3783]

«Estado social»

Livrai-nos destes também


      «Muita da esquerda continua irresponsavelmente pregada a dogmas. Ouvimos vozes estafadas vestirem a ferrugenta armadura de guerreiros de esquerda e assumirem o papel de guardiões do Estado-social ou Estado-providência» («Estado com coração», Luís Campos Ferreira, Correio da Manhã, 12.08.2010, p. 2).
      É, certamente, uma convicção do autor, pois escreve *Estado-social sete vezes. O professor universitário e deputado há-de pensar que, lá porque se escreve Estado-providência, se tem de escrever *Estado-social. E onde está a analogia, pode saber-se? «Social» nem é, por acaso, adjectivo, não?
      A meio do texto, o deputado também assevera que «fomentamos a cultura do não trabalho e da subsídio-dependência», mas já aqui vimos que se deverá escrever subsidiodependência. Imagino que os revisores estivessem manietados e o autor mandasse castigar aquele que se atrevesse a melhorar-lhe o texto...

[Post 3782]

«De vento em popa»

Imagem tirada daqui


Livrai-nos deles


      A jornalista escreveu que «Beckham mostrou, no entanto, que a relação vai de vento em poupa». Bem, se fosse a cabeça de Rihanna, com o penteado da foto, transformada em carranca de embarcação (atenção: o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa e o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não registam a acepção), então sim, seria de vento em poupa. Tanta ignorância...
      Diz-se que uma embarcação navega de vento em popa quando os ventos lhe são favoráveis. Em sentido figurado, diz-se do que conta com circunstâncias a seu favor, do que decorre com prosperidade.

[Post 3781]

Tradução

HERALDO.es


      A edição de ontem do Diário de Notícias tinha pelo menos mais um espanholismo. Nas páginas 6 e 7, mencionava-se a fortuna conhecida de algumas personagens que ficaram na História. Se, por um lado, fiquei satisfeito por ver que a minha fortuna se aproxima muito, se não a ultrapassa, do património deixado por Lewis Carroll, deixando muito para trás o pobre Karl Marx, por outro, não gostei de ler, também numa má tradução do espanhol, que o explorador polar anglo-irlandês Ernest Shackleton (1874–1922), «após más inversões», «perdeu parte da sua fortuna». Mal traduzido daqui — e sem indicação da fonte. Oh, vergonha! Este jornal costumava ser mais sério.

[Post 3780]

«Selecção aleatória»

Sem rumo nem ordem


      «O homem também desenvolveu novas espécies vegetais como o triticale (pelo cruzamento, há mais de 540 anos, de trigo e centeio, obtendo uma planta mais rústica que o trigo mas mais performante que o centeio) ou as nectarinas, pelo cruzamento entre o pêssego e a ameixa. Fê-lo pelo método tradicional de selecção, introduzindo genes ao azar. Nos organismos geneticamente modificados (OGM), por seu lado, apenas se transfere o gene pretendido, por processo controlado» («Biotecnologia na Agricultura», Gabriela Cruz, Diário de Notícias, 12.08.2010, p. 51).
      Se pensam que vou implicar com aquele performante, não se enganam muito — e afirmo mesmo que é uma vergonha que se usem estas palavras. Mas, na verdade, atraiu muito mais a minha atenção a locução ao azar, que não passa da má tradução da locução espanhola al azar.
      «Método tradicional de selecção» — por vezes, também numa má tradução, dita selecção randómica, vergonhosa e desnecessariamente decalcado do inglês random selection. Em espanhol é, já terão adivinhado, selección al azar.

[Post 3779]

Arquivo do blogue