Léxico: «agueiro»

No mar


      «O aumento de agueiros é confirmado pela pescadora Lina Carvalho, de 53 anos, para quem o maior problema da Caparica é, porém, a falta de nadadores-salvadores» («“Novo” mar da Caparica assusta cada vez mais», Sandra Brazinha, Jornal de Notícias, 6.08.2010, p. 17).
      Há anos que o vocábulo é usado nos jornais, e a acepção ainda não foi dicionarizada. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, regista quatro acepções: «1. sulco ou rego por onde corre a água das estradas e dos caminhos; 2. cano em que se reúnem as águas dos telhados; 3. cada um dos orifícios, nos muros das propriedades rústicas, pelos quais entram as águas aproveitáveis na cultura; 4. sulco por onde passa a água da rega (nas hortas e nos prados)». Talvez esteja na hora.
      No Correio da Manhã, continuam a grafar, estranhamente, nadador-salvador sem hífen. Talvez também esteja na hora de alguém avisar pelo menos os revisores. «Marta é nadadora salvadora na praia da Saúde, na Costa de Caparica, Almada» («“Vi o Edilson a afundar-se”», Miguel Curado, Correio da Manhã, 6.08.2010, p. 14).

[Post 3770]

«Glaciar»/«glacial»

Não percebo


      Há muitas pessoas que confundem o substantivo «glaciar» com o adjectivo «glacial», erro de que já aqui falei. Que se pode fazer? Eu costumo dizer-lhes que estão enganadas. A mais conspícua das últimas foi o subdirector-geral da Saúde, José Robalo: «É do conhecimento geral que o nosso planeta, ao longo do tempo, sofreu alterações climáticas significativas por causas consideradas naturais, como os fenómenos vulcânicos e as eras glaciares» («Alterações climáticas — impacte na saúde», José Robalo, Diário de Notícias, 5.08.2010, p. 51).

[Post 3769]

Selecção vocabular

Nós não


      Habituámo-nos a ver os presidentes da República a agraciar personalidades e instituições, como antes o faziam os reis. Na última crónica de Pedro Lomba no Público — uma crónica nada original sobre a dificuldade de escrever uma crónica, aquela crónica —, ficámos a saber que aquele cronista faz o mesmo quando sai à rua: «Outro tema possível: estes amigos dos nossos amigos são o quê, pertencem a que categoria? Não são nossos amigos, mas também não são simples conhecidos, daqueles a quem agraciamos na rua por polidez» («A angústia do guarda-redes antes do penalty», Pedro Lomba, Público, 5.08.2010, p. 36).
      Não vejo, em todos os dicionários que consultei, acepção que se aproxime daquela que o texto pretende significar. E, de resto, vejo que andamos a ler o mesmo: Economia Portuguesa, as Últimas Décadas, de Luciano Amaral, um ensaio publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, justificadamente citado nos últimos tempos. E custa menos que uma revista: 3,15 euros.

[Post 3768]

Léxico: «lenticular»

Imagem daqui

A língua na estrada


      «O prólogo, assim como qualquer contra-relógio, requer condições técnicas diferentes. A bicicleta normal de estrada dá lugar a uma bicicleta especial, carinhosamente tratada por “cabra” na gíria do pelotão — o nome herdou-o do formato do guiador, que se assemelha a “cornos de cabra” —, com umas rodas especiais (a dianteira com raios espessos e soldados, a traseira com lenticulares), que podem custar entre 500 e 800 euros (a bicicleta oscila entre os 7000 e os 8000), e com uma aerodinâmica especial» («Um prólogo entre “cabras” aerodinâmicas», Ana Marques Gonçalves, Público, 5.08.2010, p. 31).
      Não sabia que à roda traseira igual à da bicicleta da imagem se dava o nome de lenticular. O termo vem do latim lenticulāris,e, «de lentilha». Em forma de lente; lentiforme ou relativo a lentícula, registam todos os dicionários.

[Post 3767]

Ortografia: «papanicolau»

Inconsistências estivais


      «No primeiro telefonema, além do susto de saberem que têm um cancro, as vítimas são desarmadas pelo conhecimento que as falsas médicas demonstram ter de pormenores da sua história clínica, como a existência prévia de um nódulo, um quisto, a utilização de um dispositivo intra-uterino ou a realização de um teste “papanicolau”. Não se conhece relação entre as abordadas, mas o JN sabe que várias são dadoras de sangue» («Falsas médicas usam IPO do Porto em tara sexual», Inês Schreck, Jornal de Notícias, 6.08.2010, p. 2).
      Pois é, mas alguns dicionários, como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, já regista o nome comum papanicolau, a designação para o exame citológico vaginal de um esfregaço colhido no colo do útero, para rastrear a existência de cancro ou outras doenças. A jornalista Inês Schreck, porém, achou que era necessário usar as aspas. Mas isso foi na página 2, já que na página 3 decidiu experimentar outra via: «“Suposta doutora disse o meu nome completo, conhecia o número dos meus dois telemóveis, sabia que vivia em Vizela e que tinha feito um Papanicolau há pouco tempo”, contou ao JN» («Obedeceu e filmou o corpo com o telemóvel», Inês Schreck, Jornal de Notícias, 6.08.2010, p. 3).

[Post 3766]

Ortografia: «Margem Sul»

Na margem errada

     
      O Ignoto escreveu «margem Sul». Veja lá que não é assim. Que no Diário de Notícias também tinham essa dúvida, afirmou em defesa (?) o revisor antibrasileiro. Esqueceu-se apenas de dizer como a resolviam. Contudo, agora, lembrei, escrevem «Margem Sul». Às vezes, e mal, também «Margem Sul do Tejo». É um topónimo, logo deverá grafar-se Margem Sul. No Abrupto, de Pacheco Pereira, encontrei este texto: «Dia na Margem Sul, assim mesmo, com maiúsculas. Porque não é a margem sul do Tejo, mas a Margem Sul da história social e política portuguesa, uma combinação sem paralelo do único projecto industrial português do século XX com dimensão europeia, de uma cultura operária que não existe em mais lado nenhum, de uma população que forjou a sua identidade contra o salazarismo tendo sido primeiro anarquista e sindicalista e depois comunista.»

[Post 3765]

Brasileirismo: «vidrado»

Escrita envidraçada


      «Sobre o perfil do turista russo vidrado neste tipo de cruzeiros, [Tatyana] Petrova garantiu que se trata de “um cliente exigente, viajado, de cultura média/alta e com poder de compra”» («Já há russos nos navios-hotel da Douro Azul», Rui Neves, Jornal de Negócios, 4.08.2010, p. 9).
      Alguns dicionários registam este brasileirismo, de uso informal. Só o conhecia da oralidade, mas, à semelhança do verbo «virar» na acepção de «tornar-se», parece estar a ganhar terreno. Uso informal por uso informal, preferia usar «doido por; maluco por». Com os olhos vidrados fico eu ao ver a falta de vocabulário dos jornalistas de hoje em dia.

[Post 3764]

Hífen

Ideias pouco firmes

      Poucos aspectos na escrita são menos estáveis e arbitrários como o uso da maiúscula. Veja-se este caso. «Todos os meios operacionais disponíveis foram mobilizados e, no hospital militar de Penteli, na área metropolitana de Atenas, os doentes foram transferidos por precaução, tendo as autoridades anunciado que vários navios da guarda-costeira estavam prontos a participar em operações de evacuação» («Mar de chamas ameaça Atenas», Paulo Madeira, Correio da Manhã, 24.08.2009, p. 28). «Chegam hoje a Lisboa os nove luso-espanhóis, três adultos e seis crianças, que foram resgatados na tarde de anteontem pela guarda costeira turca, depois de o iate em que viajavam ter pegado fogo e afundado, no mar Mediterrâneo» («Portugueses salvos de iate em chamas», Helder Almeida, Correio da Manhã, 30.07.2010, p. 18). «A tripulação de um helicóptero da Guarda Costeira britânica chamada a investigar um barco à deriva junto à costa de Gales deparou com uma cena, no mínimo, inusitada: 10 homens todos nus, de garrafas de álcool na mão e em evidente estado de embriaguez, a tentar pescar qualquer coisa» («Barco à deriva com homens nus», Correio da Manhã, 4.08.2010, p. 32).
      É certo e sabido: se se trata da britânica ou da norte-americana, os jornalistas (e isto passa-se também noutros jornais) acham que lhes quadra inequivocamente a maiúscula; se se trata de outros países, já pensam que não merece mais que a minúscula. Ideias pouco firmes, falta de critério, é o que é. E temos aqui, já viram, outra inconsistência: ora «guarda-costeira» ora «guarda costeira». Ora, já aqui vimos que se deve reservar a palavra composta para designar o elemento que integra essas forças: guarda-fiscal, guarda-florestal, guarda-marinha, guarda-nocturno, guarda-republicano, guarda-vermelho, etc.

[Post 3763]

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