Léxico: «tucumã | tucumã-do-amazonas | tucumã-do-pará»

Voltando ao x-caboquinho


      No verbete de «tucumã», Porto Editora, esqueceste-te da 2.ª acepção, a relativa ao fruto. Como, porém, a própria definição não está actualizada, como pude confirmar sobretudo na monografia técnica da Embrapa/MMA de 2022 dedicada precisamente às duas espécies a que pertence o tucumã, é preferível refazê-la assim ➠ tucumã 1. BOTÂNICA designação comum a palmeiras sul-americanas do género Astrocaryum, especialmente Astrocaryum aculeatum e Astrocaryum vulgare, de grande porte e caule geralmente espinhoso, que produzem frutos comestíveis e oleaginosos; tucumã-do-amazonas; tucumã-do-pará; 2. fruto dessas palmeiras, de forma globosa a elipsóide, com polpa carnosa, fibrosa e oleaginosa, geralmente amarelo-alaranjada, consumida ao natural ou usada na preparação de diversos alimentos. 
      Isso mesmo, temos de dicionarizar igualmente ➠ tucumã-do-amazonas BOTÂNICA (Astrocaryum aculeatum) palmeira sul-americana da família das Arecáceas, nativa da Amazónia, de grande porte e caule espinhoso, que produz frutos comestíveis de polpa amarelo-alaranjada, fibrosa e oleaginosa; tucumã-açu | tucumã-do-pará BOTÂNICA (Astrocaryum vulgare) palmeira sul-americana da família das Arecáceas, nativa da região amazónica, de caule espinhoso e frequentemente cespitoso, que produz frutos comestíveis de polpa amarelo-alaranjada e oleaginosa.

[Texto 23 562]

Léxico: «subnomenclatura»

Parte estava bem


      Apareceu-me aqui um «subnome», mas era confusão do autor, logo sanada. O que efectivamente existe (vejo-o em teses de doutoramento, em decisões do Superior Tribunal de Justiça brasileiro e textos técnicos e jornalísticos, além de o encontrar no nosso VOP) e o dicionário da Porto Editora não regista é o vocábulo ➠ subnomenclatura nome feminino nomenclatura secundária ou subordinada, estabelecida no interior de outra mais abrangente; conjunto de denominações correspondente a uma subdivisão de determinada nomenclatura.

[Texto 23 561]

Léxico: «quebra-torto | arroz carreteiro»

Continuamos por lá


      «O pantaneiro começa seu dia com o quebra-torto, prato à base de arroz carreteiro com ovos» («Por que chamamos a 1ª refeição de café da manhã?», David Lucena, Folha de S. Paulo, 18.09.2026, p. C11).
      Então, aqui vai ➠ quebra-torto 1. Brasil regionalismo refeição matinal substancial, tradicional da região do Pantanal, geralmente composta por arroz, carne, ovos, farofa ou outros alimentos energéticos; 2. prato de arroz com carne, geralmente acompanhado de ovos ou outros alimentos, tradicionalmente servido nessa refeição; arroz carreteiro. 
       Pois, já vi que temos aqui um problema, que também é uma oportunidade: temos de dicionarizar igualmente ➠ arroz carreteiro Brasil CULINÁRIA prato tradicional do Rio Grande do Sul, preparado com arroz e charque picado, cozidos conjuntamente com temperos, havendo variantes com outros tipos de carne; o m. q. arroz de carreteiro.

[Texto 23 560]

Léxico: «x-caboquinho»

Regresso ao Brasil


      «No Amazonas, é típico o consumo do x-caboquinho, sanduíche feito com pão francês recheado com lascas de tucumã —fruto de uma palmeira amazônica—, banana e queijo coalho» («Por que chamamos a 1ª refeição de café da manhã?», David Lucena, Folha de S. Paulo, 18.09.2026, p. C11). 
      Há décadas que o pobre x-acto esperava companhia à altura, e encontrou-a agora neste brasílico ➠ x-caboquinho Brasil CULINÁRIA sanduíche típica do Estado do Amazonas, especialmente de Manaus, feita com pão francês recheado com lascas de tucumã, queijo de coalho e, geralmente, banana-pacovã frita. (Quanto à etimologia, vem de x-, elemento usado no português do Brasil na designação de diferentes tipos de sanduíche, do inglês cheese, «queijo», + caboquinho, diminutivo regional de caboclo.)

[Texto 23 559]

Léxico: «sati»

Estamos a alienar a nossa História


      No episódio de sábado do programa Visita Guiada, em nova temporada, Paula Moura Pinheiro esteve em Goa. Entre outros convidados, esteve a falar com o fundador e director do Goa Chitra Museum, Victor Hugo Gomes, que afirmou que o «sati was abolished by the Portuguese here in Goa in 1526, three hundred years before Rajaram Mohan Roy could do it in the rest of India». Ora, estranhamente, só encontramos «sati» em dicionários bilingues da Porto Editora. Assim, proponho ➠ sati nome masculino 1. antiga prática hindu que consistia na imolação, voluntária ou forçada, de uma viúva, geralmente pelo fogo, na pira funerária do marido ou juntamente com os restos mortais deste; 2. nome feminino mulher que se submetia a essa prática. (Quanto à etimologia, vem do sânscrito satī, «mulher boa, virtuosa; esposa fiel», feminino de sat-, «bom, verdadeiro, virtuoso»; o termo, que originariamente designava a mulher, passou posteriormente a designar também a prática.)

[Texto 23 558]

Definição: «giro»

Não tem graça, mas é giro


      «Aprestava-se a regressar às suas cogitações quando Matthew apareceu à porta, a anunciar que o Pequeno Andy, o carteiro, estava lá em baixo, no armazém. Tinha acabado mesmo agora a ronda e precisava de falar com Lily sobre um assunto pessoal» (Silverview, John le Carré. Tradução de Maria de Fátima Carmo e revisão de Clara Joana Vitorino. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2023, 3.ª ed., pp. 251-52). 
      Desde quando é que os carteiros fazem rondas? Isso é no original: «... having just finished his round». Fazem giros. A propósito: a 3.ª acepção de «giro» no dicionário da Porto Editora abarca o sentido postal, mas de maneira excessivamente genérica: «itinerário definido em conformidade com as exigências de determinada actividade (de vigilância, de distribuição e recolha de artigos ou mercadorias, etc.)» Devíamos separar o sentido profissional geral do sentido postal, que é suficientemente estabelecido para merecer explicitação. Assim: 3. itinerário ou percurso estabelecido para o exercício regular de determinada actividade, nomeadamente de vigilância, distribuição ou recolha; 4. percurso estabelecido para a distribuição de correspondência e outros envios postais, efectuado regularmente por um carteiro ou outro distribuidor; área abrangida por esse percurso.

[Texto 23 557]

Definição: «laguna»

Vamos pôr isso à prova


       «Corpo de brasileira é encontrado em laguna de Veneza após acidente» (Michele Oliveira, Folha de S. Paulo, 16.09.2026, p. A47). Vejamos o que diz a Porto Editora de «laguna»: «1. GEOGRAFIA bacia litoral de águas paradas, separada do mar apenas por uma restinga de areia e com o qual mantém comunicação intermitente; 2. canal entre bancos de areia ou ilhotas, na foz de um rio; 3. pequena lagoa; 4. ria». Então vejamos, tomando a Laguna de Veneza como exemplo, a primeira acepção, a mais importante. A definição apresenta vários problemas: 1.º, não se trata necessariamente de uma bacia de águas paradas: as águas de uma laguna podem estar sujeitas a correntes, circulação e marés — em Veneza, o regime de marés determina uma importante circulação da água; 2.º, uma laguna não está necessariamente separada do mar apenas por uma restinga de areia: pode sê-lo por diferentes tipos de barreira litoral, incluindo cordões arenosos, restingas ou ilhas-barreira — a Laguna de Veneza é separada do Adriático por ilhas-barreira; 3.º, a comunicação com o mar não é necessariamente intermitente: pode ser permanente ou intermitente, havendo mesmo lagunas que se encontram totalmente fechadas ao mar — a Laguna de Veneza comunica permanentemente com o Adriático por três aberturas, Lido, Malamocco e Chioggia; 4.º, omite-se uma característica importante das lagunas: são geralmente pouco profundas — a Laguna de Veneza apresenta vastas áreas com profundidades da ordem de 1 a 1,5 metros. 
      Tudo visto, proponho ➠ laguna 1. GEOGRAFIA massa de água costeira, geralmente pouco profunda, separada do mar por uma barreira litoral, geralmente arenosa, podendo comunicar com ele por uma ou mais aberturas; 2. GEOGRAFIA canal pouco profundo entre bancos de areia ou ilhotas, na foz de um rio; ria; 3. GEOGRAFIA massa de água salgada situada no interior de um recife de coral.

[Texto 23 556]

Outra confusão

Mais uma


      «[A arqueóloga] Conceição Lopes destaca outro pormenor que diz já ser fruto da importância que o fórum romano assumiu: “Os moços são naturais de Beja.” Outra jovem, que será arqueóloga num futuro próximo, extrai pacientemente todas as ervas e arbustos, por mais pequenos que sejam, do piso que resta de um tanque de água que tinha 4,5 metros de largura e 90 centímetros de profundidade, construído em cimento romano (opus caementicium) no final do século I a.C. e que contorna o templo romano, um edifício com 30 metros de comprimento e 19,40m de largura. A estrutura é em tudo semelhante aos que existem em Évora, da província espanhola de Ecija (Sevilha) e de Barcino (Barcelona)» («Escavações regressaram ao Fórum Romano de Beja após interregno de nove anos», Carlos Dias, Público, 5.08.2026, p. 15). 
      Está errado: o opus caementicium é o betão romano. O jornalista não sabe a diferença entre cimento e betão. Devia ter investigado e/ou perguntado. Agora, mais gente desaprendeu. O opus caementicium era o material compósito constituído por uma argamassa ligante (cal, água e areia ou pozolana) e por agregados, fragmentos de pedra, tijolo ou cerâmica. Portanto, corresponde funcional e estruturalmente a um betão. O cimento é apenas um ligante; não inclui os agregados. Não são apenas os jornalistas, também demasiados tradutores confundem cimento com betão, como confundem fita isoladora com fita-cola, telhado com tecto, azulejo com mosaico, ombreira com padieira, relva com erva e um largo e triste etc.

[Texto 23 555]

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