Grande Manchester, grandes erros, enormes descuidos

Não devia ser assim


      «O primeiro-ministro Keith Starmer demitiu-se e vem aí um ‘D. Sebastião’, sob o nome de Andy Burnam (o ‘rei do Norte’, por ter presidido à Grande Manchester, uma espécie de Grande Porto)» («A crise da esquerda europeia», Carlos Fiolhais, Correio da Manhã, 30.06.2026, p. 2). É verdade que não passa de clichés e banalidades — além de nem sequer ter acertado no nome do protagonista, que é Andy Burnham —, mas soube ver que era Grande Manchester que devia escrever, o que Ana Sá Lopes, jornalista, que também cai noutros erros, não viu: «O seu abandono do lugar de deputado em 2017 para ser mayor de Greater Manchester ajudou à transformação — mal comparado, é um bocado a transformação de André Ventura num militante semi-obscuro [sic] do PSD em líder da direita populista do Chega. Aqui não há um novo partido, mas Burnham quer dar a ideia de que sim» («A importância de um par de pestanas e uma T-shirt preta», Ana Sá Lopes, Público, 29.06.2026, p. 39).

[Texto 23 216]

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P. S.: Diga-se também que Ana Sá Lopes escrever, nesta mesma crónica, três vezes «azul escura» e «semi-obscuro» não é confusão com coisa nenhuma, já que com o Acordo Ortográfico de 1990 nada disto mudou. São erros ou descuidos ou convicções perdoáveis num cidadão que conduz táxis ou que é talhante num supermercado, não num jornalista.


Léxico: «trapologia»

Também o prometes


       Enquanto a Porto Editora insiste em manter os expressos que vão do local de partida ao de chegada sem fazer paragens, o que nem as transportadoras conseguem fazer, continuemos aqui o nosso labor. No canal Conta Lá, vi, no sábado passado, uma pequena reportagem sobre ➠ trapologia ARTESANATO arte ou ofício artesanal que consiste no aproveitamento e na transformação de trapos, retalhos e sobras de tecido, por meio de diversas técnicas de costura e composição, para confeccionar manualmente peças utilitárias ou decorativas.

[Texto 23 215]

Léxico: «tirada»

Não pode ser!


      «Starmer disse, há um ano, durante a apresentação de uma nova lei mais dura contra a imigração, que o Reino Unido arriscava transformar-se numa “terra de estranhos”. Viria a “lamentar profundamente” a tirada retórica anti-imigrante, mas a frase apenas correspondia ao ar dos tempos, que inviabiliza totalmente a reversão do “Brexit” — mesmo que Starmer até se tenha empenhado numa política de aproximação à UE» («“Brixit” e Andy, futuro primeiro-ministro», Ana Sá Lopes, Público, 23.06.2026, p. 3).
      Dá-se o caso de o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não acolher esta acepção, tão comum — a mais comum! — de «tirada». Acontece, não é? Assim, aqui vai ➠ tirada frase, observação ou afirmação de efeito, geralmente proferida com intenção retórica, humorística, polémica ou provocatória.

[Texto 23 214]

Léxico: «suvenir»

Não vejo porque há-de ficar de fora


      Já vi que o prometes, Porto Editora. Ora, vamos lá ver, é assim um aportuguesamento muito ousado ou nunca tentado? Está no VOLP da Academia Brasileira de Letras. «Dono deu ao filho nome do ditador espanhol, que está nas mesas, paredes e em estatuetas vendidas como suvenir» («Bar de chinês fascista idolatra Franco em Madri», Ivan Finotti, Folha de S. Paulo, 25.12.2022, p. A12).

[Texto 23 213]

Léxico: «estudo de caso»

Um entre muitos


      «Bengo quer resgatar a mística da produção do café no país, depois do Uíge, Cuanza-Sul e Cuanza-Norte, com o objectivo de diversificar a economia ainda dependente do sector do Petróleo, afirmou, em Caxito, o chefe do Departamento Provincial do Instituto Nacional do Café (INCA)» («Cafeicultores trabalham para resgatar a hegemonia», Adilson Sebastião, Jornal de Angola, 23.06.2026, p. 26). 
      Um jornalista angolano, a escrever num jornal angolano, opta por Cuanza. Jornalistas portugueses, quem sabe se saudosistas do império e ávidos de exótico, preferem escrever Kuanza. Temos aqui um estudo de caso.

[Texto 23 212]

Definição: «voto em branco»

Vamos explicar de outra forma


    «Pelas apurações extraoficiais, Abelardo de la Espriella, o candidato da direita radical, foi eleito presidente da Colômbia. As pesquisas já indicavam que Espriella levava vantagem sobre seu rival no segundo turno, o esquerdista Iván Cepeda. O que surpreendeu foi o resultado apertado. Se os números da contagem prévia se confirmarem, o que normalmente acontece, Espriella venceu por uma diferença de apenas um ponto percentual (49,66% a 48,7%). Na Colômbia, os votos em branco são válidos, daí que o vencedor não precisa atingir 50%» («Por una cabeza», Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo, 23.06.2026, p. A3). 
      Voto em branco que a Porto Editora define assim: «voto em que o boletim de votação não foi objecto de qualquer marca». Ou seja, se o boletim tiver um vinco, uma mancha de tinta acidental, um carimbo da mesa ou qualquer outro sinal que não corresponda a uma manifestação de vontade do eleitor, já não é um voto em branco, é isso? Pois, estou a ver que não é isso que pretendem dizer. Assim, proponho ➠ voto em branco voto em que o eleitor deposita na urna o boletim sem assinalar nenhuma das opções nele constantes.

[Texto 23 211]

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P. S.: Reparem como o voto em branco não tem o mesmo significado em todos os países. Embora normalmente corresponda a um boletim sem nenhuma opção assinalada, os seus efeitos variam: nuns sistemas conta apenas para fins estatísticos; noutros, pode assumir o valor de uma rejeição formal das candidaturas apresentadas e produzir consequências eleitorais específicas.


Definição: «guardanapo»

O triângulo já vem


      Vim agora ali de um supermercado, onde encontrei, na secção de pastelaria, guardanapos. Define assim este bolo a Porto Editora: «CULINÁRIA bolo quadrado baixo, de forma a poder ser dobrado em triângulo, recheado de creme pasteleiro e polvilhado de açúcar». A definição, tal como está redigida, sugere fortemente que o bolo é originalmente quadrado e que a forma triangular é o resultado de uma operação posterior («de forma a poder ser dobrado em triângulo»). Sabemos que não é assim, pelo que temos de corrigir a definição, além de acrescentar que é um bolo fofo. Talvez demasiado fofo. Quanto a ser baixo, também não concordo. Assim, proponho ➠ guardanapo CULINÁRIA bolo fofo obtido pela dobra de uma placa de massa sobre si mesma, formando um triângulo, recheado de creme pasteleiro e polvilhado de açúcar.

[Texto 23 210]

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P. S.: Tenho notícia de que este guardanapo é conhecido na ilha Terceira, Açores, pelos nomes lenço e lencinho; os Terceirenses reservam o nome guardanapo para um bolo muito semelhante, mas feito de massa folhada e recheado com marmelada.


Léxico: «fundo soberano»

Agora é que é


      «O primeiro-ministro anunciou a constituição de um fundo soberano para juntar e investir em empresas e sectores estratégicos, concentrando aquelas que estão dispersas actualmente por diversas entidades e integrando outras que sejam “estratégicas” e dêem retorno» («Fundo soberano avança quando Estado está a sair de empresas», Diogo Cavaleiro e Luís Villalobos, Público, 23.06.2026, p. 22). 
      Agora é que temos de explicar o que é um fundo soberano, não no futuro. Assim, proponho ➠ fundo soberano ECONOMIA fundo de investimento pertencente a um Estado, constituído por receitas públicas provenientes, nomeadamente, da exploração de recursos naturais, de excedentes orçamentais ou de privatizações, destinado a preservar e valorizar a riqueza pública mediante a aplicação de capitais em activos financeiros ou participações empresariais.

[Texto 23 209]

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