Definição: «Arcádia»

Há aí confusão


      «La boscosa Arcadia, situada en medio del Peloponeso, entre parajes montañosos poblados por las ninfas, Pan o Hermes, allí, por donde, según la mitología, corrieron el jabalí de Calidón y la simpar Atalanta, doncella y guerrera (su fuga es también emblema filosófico latino de esta era), pasó a ser algo más que un lugar físico, convirtiéndose en estado de ánimo, como una suerte de concreción en la geografía mítica del ideario de la edad de oro. Hoy día podemos viajar por sus paisajes cambiantes, desde las suaves colinas que conducen hasta Megalópolis, su antigua capital, hasta llegar a la ciudad de Trípoli, a través de la moderna autopista que conduce desde Atenas al corazón del Peloponeso. En la antigüedad fue una región con fama de aislamiento y cuyo dialecto era uno de los más conservadores» («“Et in Arcadia ego”: un viaje filosófico», David Hernández de la Fuente, La Razón, 5.10.2026, p. 41). 
      Em arcádia, a Porto Editora diz que é «[com maiúscula] planalto da Grécia que em poesia se tornou o símbolo da simplicidade pastoril». Se eu disser que Arcádia é uma marca portuguesa de chocolates ainda está mais certo. Não senhor, a Arcádia não é um planalto, mas uma região. O próprio David Hernández de la Fuente, professor de Filologia Clássica na Universidade Complutense de Madrid, o diz logo no início do texto, mas nós vamos mais longe, muito mais longe, e propomos a seguinte definição de ➠ Arcádia região histórica e montanhosa do centro da península do Peloponeso, na Grécia, que, idealizada pela tradição literária e artística como cenário de uma vida pastoril simples, serena e feliz, em harmonia com a Natureza, se tornou símbolo de um mundo idílico.

[Texto 23 644]

Léxico: «conjectura»

Não é uma opinião


      E vejo agora — depois de ter aqui publicado o texto sobre a conjectura jacobiana — que nenhuma das três acepções de «conjectura» no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora cobre adequadamente o sentido técnico da matemática. A segunda aproxima-se dele, mas uma conjectura matemática não é uma mera opinião: é um enunciado formal susceptível de demonstração ou refutação. Assim, proponho ➠ conjectura 3. MATEMÁTICA enunciado matemático que se considera verdadeiro, mas que ainda não se demonstrou nem refutou.

[Texto 23 643]

Erros de sempre e para sempre

Até deu mais trabalho


      «“Penso que se tivéssemos tido mais testes, provavelmente teríamos percebido isto a tempo e não teríamos esta situação”, lamentou Tombazis [director de Monolugares da FIA], para quem a FIA respondeu rapidamente. “Assim que o problema ocorreu, o nosso pessoal percebeu muito rapidamente o que estava a acontecer e teve de trabalhar sobre grande pressão de tempo para uma atualização ao software, que foi enviada às equipas, e as equipas tiveram de instalar nos seus carros”» («O seu F1 não acelera? Faça “Control-Alt-Delete” e o “bug” desaparece: a confusão do GP do Bahrain explicada», João Pedro Quesado, Rádio Renascença, 4.10.2026, 17h15). 
      Deve ter acontecido o mesmo com o jornalista: pressionado, bugou, saiu-lhe a preposição errada. Falta de tempo não foi, que até gastou mais tempo a digitar mais dois caracteres. Desculpas.

[Texto 23 642]

Definição: «bijutaria | bijuteria»

O preço não interessa


      «Enquanto as semijoias recebem um banho de metal nobre, como ouro, prata ou ródio, as bijuterias são feitas, em geral, com metais mais baratos e podem ter apenas um revestimento superficial» («Saiba como limpar bijuterias e semijoias», Carolina Muniz, Folha de S. Paulo, 5.10.2026, p. A44). 
      O desequilíbrio nas definições no dicionário da Porto Editora é tão grande, que se tem de fazer alguma coisa. Quanto a «semijóia», parece-me bem. O pior é a definição de «bijutaria/bijuteria»: «1. objecto de adorno feito em liga de metal (a imitar ouro ou prata); 2. jóia de pouco valor». A segunda acepção não me parece fazer sentido: uma jóia barata continua a poder ser uma jóia; uma bijuteria cara continua a ser bijuteria. O preço não constitui uma característica definidora. 
      Assim, proponho ➠ bijutaria/bijuteria nome feminino 1. objecto de adorno pessoal produzido com materiais não preciosos, geralmente metais ou ligas metálicas, podendo ser ornamentado com pedras sintéticas ou outros elementos decorativos; 2. conjunto desses objectos.

[Texto 23 641]

Definição: «saborizar»

Ficaria de fora, a ser assim


      «O “algo diferente” é saborizar. O lançamento mais recente foi o Jack Daniel’s Blackberry. É o Old No. 7 tradicional misturado com licor de amora. Há outras marcas com mel e maçã, por exemplo. O Brasil é o terceiro maior mercado mundial para uísque saborizado, tentativa de aumentar a gama de consumidores, tornando a bebida mais suave» («Jack Daniel’s aposta em saborizar uísque para expandir mercado no Brasil», Alex Sabino, Folha de S. Paulo, 4.10.2026, p. B12). 
      Ora, a Porto Editora diz que «saborizar» é «acrescentar um ou mais ingredientes para conferir um determinado sabor a (alimento líquido ou sólido)». Não se aplicaria, pois, ao uísque. Na realidade, é mais assim ➠ saborizar Brasil verbo transitivo adicionar ingredientes ou substâncias a (alimento ou bebida) para lhe conferir um sabor particular ou adicional.

[Texto 23 640]

Definição: «extra»

Assente que está a poeira


      «O TST também reconheceu o direito, com efeito vinculante a ser seguido pelos tribunais inferiores, de que o não pagamento de horas extras e a não concessão de descanso dentro da jornada de forma contumaz constituem motivo para rescisão, o que aumenta as chances de sucesso nesse tipo de ação» («Empregados vão à Justiça para ‘demitir’ empresa por justa causa», Cássia Almeida, O Globo, 4.10.2026, p. 32). 
      Felizmente, já não deve haver dicionários que classifiquem como invariável o adjectivo «extra»: trata-se de um adjectivo de dois géneros, mas flexiona em número (extra/extras). Falta agora dar o último e decisivo passo: incluir, à semelhança do Houaiss, no verbete exemplos que tornem essa flexão clara para o consulente, tanto mais que continua muito difundido o emprego indevidamente invariável. Algo como isto: < horas extras, despesas extras, gastos extras >.

[Texto 23 639]

Léxico: «penthouse»

Está na hora


      «En el español de América (y en el inglés de todas partes) al ático se le llama también penthouse, término que el Diccionario académico define así: “Apartamento o piso de lujo, generalmente con terraza, situado en la última planta de un edificio”. Esta palabra inglesa se forma con los elementos house (“casa”) y pent, que sale del latín appendix (aditamento, añadido) para señalar que se trata de algo “agregado”; en este caso, a un edificio. Una famosa revista erótica del Reino Unido se denominó precisamente Penthouse, para evocar el ático del varón soltero rico que llevaba allí a sus ligues. Eso se conoce en España como “picadero”, los españoles sabrán por qué. Pero como todo lo que nombramos en inglés es siempre más caro, si usted pone en venta un penthouse le pagarán más que si saca en oferta un picadero. En la arquitectura clásica de la región del Ática abundaban los edificios dotados de una decoración especial en su tramo más alto, inmediato al tejado. Y tan característico fue ese diseño arquitectónico, que el gentilicio dio nombre a las copias de otros lugares donde construían áticos a la manera de los áticos; es decir, de los naturales del Ática. Entonces aún no se situaba una vivienda en el espacio comprendido entre el tejado y el último piso, eso llegaría más tarde. Y cuando se empezaron a habitar los áticos, fueron destinados a los criados de la casa. Faltaban unos cuantos siglos para que se inventara el ascensor, y a nadie le apetecía estar todo el día subiendo las escaleras» («Mucho ático pero poco aticismo», Álex Grijelmo, El País, 3.10.2026, p. 10). 
      Também temos «ático» com este mesmo significado, mas 99,99 % dos falantes ignoram-no. Os picadeiros, que também temos, usamo-los para outros fins. Resta-nos penthouse, que a Porto Editora promete para brevemente. Vamos tratar do caso. Assim, proponho ➠ penthouse nome feminino apartamento situado no último piso de um edifício, geralmente dotado de terraço e com características superiores às dos restantes apartamentos; ático; Brasil cobertura. (Do inglês penthouse, «idem», alteração, por etimologia popular, do inglês médio pentis, e este do francês antigo apentis, «construção anexa», do latim tardio appendicium, «apêndice».)

[Texto 23 638]

Como se fala por aí

Basta(va) pensar


      Há minutos, na Rádio Observador, ouvi na previsão meteorológica que o tempo de hoje vai estar «muito idêntico» ao de ontem. Não é, evidentemente, um exclusivo daquela rádio nem daquele jornalista. «Muito idêntico» ouve-se com enorme frequência, tanta que já aqui tratei do assunto há uns bons anos. Não posso, aliás, esperar que toda a gente tenha lido o que então escrevi: o jornalista que hoje me fez voltar ao tema talvez ainda frequentasse a escola primária. 
      O problema está no significado de «idêntico». Duas coisas são idênticas quando são exactamente iguais, quando não diferem uma da outra naquilo que se está a comparar. A identidade, ao contrário da semelhança, não admite graus: duas coisas ou são idênticas ou não são. E não se trata de uma particularidade do português. O mesmo sucede, por exemplo, com os equivalentes identical, em inglês, identique, em francês, e idéntico, em castelhano. A razão é a mesma em qualquer destas línguas: identidade e semelhança são conceitos diferentes. A identidade não é um grau muito elevado de semelhança. Podemos, naturalmente, dizer que duas coisas são «muito semelhantes», «bastante semelhantes» ou «pouco semelhantes». A semelhança admite gradação; a identidade, não. 
      E «quase idêntico»? A expressão é perfeitamente legítima. «Quase» não estabelece um grau de identidade: indica, precisamente, que a identidade não chega a verificar-se. Duas coisas quase idênticas não são idênticas; são muito semelhantes. Por isso, se o tempo de hoje não vai ser exactamente igual ao de ontem, mas apenas parecido, o que se deveria ter dito era muito simplesmente que vai estar «muito semelhante» ao de ontem. Fica para a próxima.

[Texto 23 637]

Arquivo do blogue