Léxico: «jacobiano | conjectura jacobiana»

Ide, por hoje está


      «Le 1ᵉʳ décembre 1939, alors que les armées nazies ravagent les champs de bataille de la Seconde Guerre mondiale, le mathématicien allemand Ott-Heinrich Keller publie un article dans les Revues mensuelles de mathématiques et de physique, à Berlin. Il y énonce une conjecture, c’est-à-dire l’affirmation d’un résultat mathématique qu’on soupçonne d’être juste sans en avoir la démonstration. La conjecture jacobienne, c’est son nom, est une question célèbre de géométrie algébrique sur laquelle de nombreux mathématiciens se sont cassé les dents» («Une IA résout un problème mathématique vieux de près d’un siècle», Rémi Ducasse, Libération, 4.08.2026, p. 12). 
      Isso mesmo, ➠ conjectura jacobiana MATEMÁTICA conjectura formulada em 1939 pelo matemático alemão Ott-Heinrich Keller (1906-1990), segundo a qual toda a aplicação polinomial de ℂⁿ em ℂⁿ cujo determinante jacobiano seja uma constante não nula possui uma inversa igualmente polinomial; foi refutada em 2026 por meio de um contra-exemplo em dimensão três. 
      O verbete mais completo, porém, será o de ➠ jacobiano adjectivo 1. relativo ao matemático alemão Carl Gustav Jacob Jacobi (1804-1851) ou aos seus trabalhos; 2. MATEMÁTICA relativo à teoria matemática de Jacobi; matriz jacobiana; determinante jacobiano | adjectivo e nome masculino 3. MATEMÁTICA diz-se de ou determinante de uma matriz quadrada cujos elementos são as derivadas parciais de primeira ordem de n funções em relação a n variáveis; determinante jacobiano. (Quanto à etimologia, vem do antropónimo Jacobi, apelido do matemático alemão Carl Gustav Jacob Jacobi (1804-1851), +-ano [designação criada em inglês, sob a forma Jacobian, pelo matemático britânico James Joseph Sylvester, em 1853].)

[Texto 23 628]

Léxico: «Cempsos | Sefes | filho das ervas»

Quase filhos das ervas


      «E se abundam informações de textos histórico-literários sobre as características desta região – entre o promontório de Ofiússa (Cabo da Roca) e a ampla baía que o antecede a sul, de difícil navegação com um só vento, como escreve Avieno – e os povos que a habitavam (Cempsos e Sefes, diz-se), as escavações arqueológicas dão-nos conta de uma população activa e culta, que certamente ainda conviveu com os colonos romanos recém-chegados» (A Presença Romana em Cascais, um território da Lusitânia Ocidental, Guilherme Cardoso e José d’Encarnação. Cascais: Associação Cultural de Cascais, 2026, p. 8).
      Como é que os nomes destes povos estão no Houaiss, e sabe Deus em quantos mais, e não os encontramos nos nossos dicionários?

[Texto 23 627]

Definição: «leão-asiático»

Não é o que dizem


      «Lions today occupy habitats as ecologically distinct as the rugged hills of Girnar, the forests of Mitiyala, the landscapes around Savarkundla-Liliya, and the sandy coastal tracts stretching across Saurashtra to the Bhavnagar coast. What is perhaps most remarkable is that, at their destinations, these lions are accommodated by the local people. [...] Given the species’ continuing conservation challenges, any ill-advised decision could yet turn the clock back to a far more precarious situation. The International Union for Conservation of Nature Red List tells an encouraging story: the Asiatic lion has moved from Critically Endangered to Endangered» («The road ahead for the Asiatic lion», Meena Venkataraman, The Hindu, 6.08.2026, p. 8). 
      Portanto, a situação não é exactamente como a descrevem os nossos dicionários. Assim, proponho ➠ leão-asiático ZOOLOGIA população asiática de leão (Panthera leo leo), tradicionalmente considerada uma subespécie sob a designação Panthera leo persica, outrora distribuída por grande parte do Sudoeste Asiático e actualmente confinada, em estado selvagem, à região de Saurashtra, no Estado indiano de Guzerate; encontra-se em perigo de extinção.

[Texto 23 626]

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P. S.: Hoje, pouco depois das 9 horas, quando seguia de carro pela Avenida da República, em Cascais, vindo da Avenida 25 de Abril, vi um esquilo-vermelho (Sciurus vulgaris) sair do jardim de um condomínio, atravessar a estrada, apesar do trânsito, e saltar o muro do condomínio do lado oposto. Tive ainda de abrandar um pouco, por precaução e para o observar melhor. O que vale é que ali nunca vou a 150 km/h. Era pequeno e de pelagem muito escura, quase preta: apesar do nome, a coloração do esquilo-vermelho é bastante variável, podendo ir dos tons avermelhados ao castanho muito escuro ou mesmo ao negro. Parece que a espécie, que nos últimos anos se tem vindo a expandir pelo concelho de Cascais, já escolhe morada em pleno meio urbano e, pelos vistos, sabe escolher os condomínios.


Como se traduz por aí

Nem à terceira


      «— Boa ideia. — A Cora assente entusiasticamente. — O estado pode ser de divórcios sem culpa, mas, se a mulher com quem anda a sair tiver antecedentes criminais, isso vai decididamente prejudicar-lhe o pedido de guarda» (O Divórcio, Freida McFadden. Tradução de Carla Ribeiro e revisão de Mariana Félix. Odivelas: Alma dos Livros, 2026, pp. 130-31). 
      Está tão retorcido, que não sei se os leitores vão compreender. Eu, leitor especializado, tive de a reler três vezes. E se não consultasse o original, não saberia. E é simples: «— Boa ideia. — A Cora assente entusiasticamente. — Este pode ser um Estado em que não é preciso invocar culpa para obter o divórcio, mas, se a mulher com quem ele anda tiver antecedentes criminais, isso vai certamente prejudicá-lo na disputa pela guarda do filho.»

[Texto 23 625]

Definição: «umbra»

Ou ficamos às escuras


      «A escuridão total ocorre quando a Lua cobre completamente a fotosfera (a superfície brilhante visível do Sol). Neste caso, só quem estiver dentro de uma estreita faixa denominada “umbra” é que pode ser testemunha do eclipse total» («Dia de eclipse. Olhos abertos mas protegidos para ver segundos de escuridão em Portugal», Cristina Santos, RTP Notícias, 12.08.2026, 11h58). 
      Será assim? O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora define assim «umbra»: «1. a região interior e mais escura da zona de sombra projectada por um corpo opaco; 2. ASTRONOMIA região de um corpo celestial em que é experimentada a fase total de um eclipse; 3. ASTRONOMIA área central e mais escura das manchas solares». Na realidade, a primeira e a segunda acepções podem fundir-se, o conceito é o mesmo, com especialização na Astronomia na segunda. Para descomplicar, é o que farei na minha proposta. É justamente a segunda acepção da Porto Editora que apresenta mais erros. É mesmo a região de um corpo celestial? Não é. A umbra é uma região do espaço, não a região de um corpo celeste. E região do espaço porque o observador pode estar (muitos, para observar o eclipse do dia 12 de Agosto, estiveram) num avião, por exemplo. Quanto a isto, estamos entendidos. Quanto à terceira acepção, é demasiado vaga e incompleta: não indica que a umbra é a região central da mancha solar nem a sua relação característica com a penumbra, que geralmente a rodeia. A NASA é particularmente clara: define a umbra como «a complete shadow […] within which the source of light […] is totally hidden from view» e, ao explicar a geometria dos eclipses, chama-lhe «the dark inner shadow», por oposição à penumbra, «the lighter outer shadow». No caso das manchas solares, define-a ainda como «the dark inner area of a sunspot». 
      Assim, proponho ➠ umbra nome feminino 1. região do espaço que constitui a sombra total projectada por um corpo opaco, na qual a fonte luminosa fica completamente ocultada; 2. ASTRONOMIA região interior e mais escura de uma mancha solar, geralmente rodeada pela penumbra.

[Texto 23 624]

Léxico: «organete»

Arrematado!


      Numa reportagem no Museu da Música Mecânica, em Palmela, transmitida hoje de manhã pela Antena 1, falou-se, entre outras peças da colecção, de um organete de finais do século XIX, recentemente adquirido num leilão na Alemanha e considerado extremamente raro. Das Los geht an den kleinen Herrn dort drüben, einen Portugiesen, nehme ich an. Zuschlag! O instrumento possui um cilindro em torno do qual se movimenta uma banda metálica perfurada, sendo nas perfurações que está codificada a música. Instrumentos deste tipo, usados nomeadamente em casas, escolas e pequenas igrejas, executavam mecanicamente as melodias registadas em diferentes suportes, como bandas, rolos ou discos perfurados. 
      O vocábulo «organete», que não se encontra no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, nem em nenhum outro, aliás, merece, pois, ser acolhido. Assim, proponho ➠ organete nome masculino MÚSICA automatofone de palhetas livres, habitualmente accionado por manivela, que executa melodias registadas num suporte, em geral perfurado. (Do inglês organette, «idem», de organ, «órgão», + -ette, sufixo diminutivo.)

[Texto 23 623]

Léxico: «instabilidade de Kelvin-Helmholtz»

Também crítica


      «Cientistas recorreram ao telescópio solar Inouye, considerado o mais potente do mundo, para obter as imagens de maior resolução alguma vez captadas da fotosfera, a camada visível da superfície do Sol. [...] Os investigadores identificaram um fenómeno conhecido como instabilidade de Kelvin-Helmholtz, que ocorre quando camadas de fluidos deslizam umas sobre as outras, originando pequenas perturbações que evoluem para vórtices em espiral. No caso do Sol, esses fluidos correspondem aos gases extremamente quentes da sua superfície» («Telescópio mais potente do mundo revela novos detalhes da superfície do Sol», Rádio Renascença, 5.08.2026, 20h25). 
      É por não ser um fenómeno especificamente solar, mas antes uma instabilidade hidrodinâmica geral, observável, por exemplo, na atmosfera terrestre, certas nuvens adquirem a forma de ondas, nos oceanos, nas atmosferas de outros planetas e em plasmas astrofísicos, que merece ser dicionarizado. Assim, ➠ instabilidade de Kelvin-Helmholtz FÍSICA instabilidade que se desenvolve na interface entre dois fluidos, ou entre duas camadas de um mesmo fluido, que se deslocam com velocidades diferentes, originando ondulações que podem evoluir para vórtices e turbulência.

[Texto 23 622]

Definição: «capitão»

De Cris em crise


      O mundo está ao rubro com a defecção — não confundir com defecação, que é outra merda — do nosso Cris. Ou, para usarmos a terminologia do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, do «chefe» da equipa. Chefe? Sim, chefe. É assim que o dicionário define uma das acepções de capitão: «chefe de uma equipa ou delegação desportiva». Cris, ficamos a saber, não era apenas capitão: era o chefe. Ora, numa equipa de futebol, o capitão não é propriamente o chefe dos outros jogadores. Não os escolhe, não lhes distribui tarefas nem decide a táctica; e, se alguém ali desempenha funções que se aproximam das de uma chefia, será certamente o treinador, ou, tratando-se de uma selecção, o seleccionador. O capitão continua a ser um jogador como os outros — um primus inter pares; no caso do nosso Cris, já quarentão, um cota inter parvus, perdoem o latim de cozinha —, embora lhe caibam determinadas funções de representação da equipa, designadamente perante a equipa de arbitragem. É isso que o distingue dos restantes jogadores, não uma relação hierárquica pela qual Cris, enquanto capitão, fosse chefe de Bruno Fernandes, Bernardo Silva ou Diogo Costa.
      A definição, portanto, pede reforma. Poderia ser assim ➠ capitão DESPORTO jogador que exerce, numa equipa, funções específicas de representação, nomeadamente perante a arbitragem.
      No que toca à defecção, estamos conversados, até porque é matéria para especialistas da bola, em que o País abunda.

[Texto 23 621]

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P. S.: Dado o seu €statuto, claro que não meteu o rabinho entre as pernas (era neste ponto que entrava a defecação), mas sim no assento do seu jacto privado, cujo trajecto foi seguido ao minuto no Flightradar24 pelos nossos reputadíssimos peritos em futebol.


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