Léxico: «corta-cascos | dinheiral | casqueamento»

Porto Editora, trata do caso


      O quê, um corta-cascos de 60 cm custa 140 euros?! Isso não é um dinheiral, uma pipa de massa? Talvez uma roubalheira. Oh, as cabras até vão achar mais piada que se faça o casqueamento com um estojo de pedicura de 9 euros do AliExpress. Talvez até saia mais barato levá-las a uma academia das nails. Como é que sabem que não se pode?

[Texto 23 368]

Léxico: «alga-castanha-asiática»

Posso ir ali abaixo colher uma amostra


      «Barreiras flutuantes no mar, imagens de satélite, dados oceanográficos, informação meteorológica e algoritmos de inteligência artificial. Cascais está a avançar com um conjunto de projetos tecnológicos e científicos para tentar travar a expansão da alga-castanha-asiática, espécie com o nome científico Rugulopteryx okamurae, que é originária do Pacífico e tem vindo a alastrar-se pela costa portuguesa, ameaçando praias, a biodiversidade marinha e a atividade económica ligada ao mar» («Cascais usa inteligência artificial para travar alga antes de chegar às praias», Paulo Lourenço, Jornal de Notícias, 27.07.2026, p. 16). 
      Que está bem estudada, tanto que proponho alga-castanha-asiática BOTÂNICA (Rugulopteryx okamurae) alga castanha marinha, da família Dictyotaceae, originária do Nordeste do oceano Pacífico, actualmente invasora em várias regiões do Atlântico e do Mediterrâneo, onde prolifera rapidamente e afecta os ecossistemas costeiros e actividades económicas ligadas ao mar. 
      (Tratando-se de um organismo tão comum e tão abundantemente fotografado, surpreendeu-me a opção de se ilustrar o verbete de «alga» com uma imagem gerada por inteligência artificial. Ao que isto chegou!)

[Texto 23 367]

Definição: «chumbeira»

Ao contrário do guardanapo


      «— Vejo, pedaço d’asno, vejo: é a alma do capitão-mor que anda a pescar bogas com chumbeira... Não vês que é um homem em fralda? Abre esses olhos, bruto!» (Maria Moisés, Camilo Castelo Branco. Lisboa: INCM, 2020, p. 13). 
      A Porto Editora define-a como a «rede de pesca em forma de cone, com um peso de chumbo no vértice; tarrafa». Aqui, ao contrário do guardanapo, lembram-se?, dá-se a ideia que a rede tem inicialmente a forma de um cone. Não tem. E ficamos sem saber como se usava. Assim, proponho ➠ chumbeira 1. PESCA rede de pesca de arremesso, geralmente circular e provida de chumbos na borda, que, ao ser lançada, se afunda e toma a forma de um cone, envolvendo os peixes; tarrafa; 2. PESCA cada um dos pesos de chumbo fixos na borda de uma rede de pesca, destinados a fazê-la afundar-se.

[Texto 23 366]

Léxico: «bruxelês | brabantino/brabanção»

Mais importante do que se pensa


      «Dans ce décorum oriental censé suggérer les saveurs des tabacs turcs, un dromadaire – une bosse, donc c’est un dromadaire, même si en anglais, camel s’applique au dromadaire comme au chameau – regarde vers la gauche. Jusqu’ici, rien d’extraordinaire sous les étoiles. Mais regardons-y de plus près. Comme une illusion d’optique camouflée dans le sommet de la patte avant gauche de l’animal, on découvre l’invité surprise. Qui? Le Manneken-Pis! Littéralement “le petit homme qui pisse” en bruxellois, dialecte de la capitale belge où ne cesse de faire pipi un petit garçon en bronze haut de 55 centimètres» («Camel, cherchez le Manneken-Pis», Alexandre Lanz, Le Matin Dimanche, 26.07.2026, p. 38). 
      Não está nos nossos dicionários neste sentido?! Bem, tratemos do caso propondo ➠ bruxelês LINGUÍSTICA dialecto tradicional da cidade de Bruxelas, pertencente ao grupo dos dialectos brabanções e fortemente influenciado pelo francês.

[Texto 23 365]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 



P. S.: Ah, sim, agora fica a faltar este: brabantino/brabanção LINGUÍSTICA grupo de dialectos neerlandeses tradicionalmente falados na região histórica do Brabante.


Definição: «troiano»

Mais especificamente


      A propósito de uma leitura recente sobre Tróia no Corriere della Sera, reparei que o verbete «troiano» no dicionário da Porto Editora pode ser significativamente melhorado. A definição actual («de Tróia, antiga cidade da Ásia Menor») identifica a cidade de forma demasiado genérica. Julgo que seria mais informativo escrever algo como ➠ relativo ou pertencente a Tróia, antiga cidade fortificada da Tróade, no Noroeste da Ásia Menor, célebre por ter sido, segundo a tradição homérica, palco da Guerra de Tróia.

[Texto 23 364]

Etimologia: «biquíni»

Pardon, Monsieur Réard !


      «On considère Louis Réard, un ingénieur qui a dû reprendre après la guerre la boutique de lingerie de sa mère, comme l’inventeur de ce vêtement. Si le maillot de bain deux pièces existait déjà dans les années 30, il cachait un détail anatomique alors tabou: le nombril. La trouvaille de Réard tient dans la sobriété du bikini: quatre triangles de tissu, deux en haut et deux en bas, reliés par de minces liens» («La révolution bikini, quatre triangles de tissu qui ont bouleversé la société», Julia Werner, Le Matin Dimanche, 26.07.2026, p. 38). 
      Não devíamos ser tão ingratos, e por isso a etimologia devia ser ➠ do francês bikini, nome dado pelo estilista francês Louis Réard, por alusão ao atol de Bikini, nas ilhas Marshall, onde haviam sido realizados ensaios nucleares norte-americanos, numa referência ao impacto explosivo que esperava causar o novo fato de banho.

[Texto 23 363]

Léxico: «ruge-ruge»

Não é só para brincar


      «Marcolino Fernandes vincou que só para descascar os vimes “são precisas mais de duas horas”. “Fui fazendo, mas estraguei muita quantidade de vimes para aprender e construir as minhas cestas, às quais já perdi conta. Aprendi e nunca mais deixei de fazer cestas e cestos e outros objetos, como chapéus e peças musicais para entretenimento, como ruge-ruges”, explicou» («Cesteiro da Terra de Miranda conserva arte de fazer cestos de vime há 50 anos», Rádio Renascença, 26.07.2026, 9h18). 
      Que não é somente, Porto Editora, o guizo de criança. Há abundante documentação etnográfica e musicológica que confirma que é um instrumento musical, um idiofone. Assim, proponho ruge-ruge ETNOGRAFIA, MÚSICA instrumento popular de madeira, dotado de um mecanismo giratório que produz um ruído forte e repetitivo quando accionado, usado em procissões, manifestações populares ou para entretenimento; cega-rega; rela.

[Texto 23 362]

Léxico: «hepatite A, hepatite B, hepatite C...»

A lógica é a mesma


      «Portugal registou um aumento expressivo de casos de hepatite A em 2025, com 1.164 infeções confirmadas, mais 845 do que no ano anterior, o que representa uma subida de 265%» («Hepatite A dispara em Portugal com mais de mil casos em 2025», Anabela Góis, Rádio Renascença, 28.07.2026, 7h00). 
      Há algum bom motivo para os dicionários não acolherem os vários tipos de hepatite, como fazem com a diabetes, por exemplo? Bem me parecia, pelo que proponho ➠ hepatite A — forma de hepatite viral, geralmente aguda, transmitida sobretudo por via fecal-oral; hepatite B — forma de hepatite viral transmitida pelo sangue e por outros fluidos corporais, podendo tornar-se crónica; hepatite C — forma de hepatite viral transmitida sobretudo pelo sangue, frequentemente crónica; hepatite D — forma de hepatite viral que apenas ocorre em indivíduos infectados pelo vírus da hepatite B; hepatite E — forma de hepatite viral, geralmente aguda, transmitida sobretudo por via fecal-oral.

[Texto 23 361]

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