Léxico: «colorização | colorizado»

Pelo menos os hífenes


      E não é que encontrei estes dois excertos no mesmo dia? Das tais conjunções. «Comprou a biblioteca da MGM, arrebatando milhares de filmes clássicos como quem adquire um continente em segunda mão, e lançou a operação de colorização de cinema antigo, uma espécie de reescrita tecnológica da memória que lhe valeu acusações de vandalismo cultural por parte de realizadores e críticos. Para Turner, porém, tratava-se apenas de atualizar o passado para o consumo presente – uma lógica perfeitamente coerente com o seu instinto de acelerador de tudo» («Ted Turner. Os predadores da última hora», Diogo Vaz Pinto, Nascer do Sol, 8.05.2026, p. 37). «A sua vida condensava-se-lhe colorisada n’uma recordação deliciosa, sem compreender no deleite a saciedade, a inanição, o desprezo de si mesma por fim» («A Ruiva», in Contos, Fialho de Almeida. Porto e Braga: Ernesto Chardron Editor, 1881, p. 37). 
      A tua definição, Porto Editora, padece de três males: ser dado como brasileirismo, que não é; apresentar uma redundância, pois «filme» e «película» podem ser aqui entendidos como sinónimos; e ostentar uma gralha, a falta de hífenes em «preto-e-branco». Tudo visto, proponho  colorização CINEMA técnica que consiste em aplicar cor a um filme originalmente a preto-e-branco. 
      Quanto a colorizado, deve ser registado como adjectivo.

[Texto 23 327]

Léxico: «chabata»

Ainda são uns milhares


      Pelos vistos, os padeiros de Rio Maior e milhares de trabalhadores do Pingo Doce insistem em fazer e vender chabatas, quando os dicionários só conhecem chapatas. Embora pareça que o problema é outro, o que falta é afinar a definição de «chapata» e dicionarizar «chabata». Tudo visto e provado, proponho ➠ chapata/chabata nome feminino pão branco, de formato geralmente rectangular e achatado, caracterizado pela côdea fina e estaladiça e pelo miolo muito alveolado.

[Texto 23 326]

Léxico: «palmarianismo | palmariano»

Um papa só deles

      «Non c’è solo la Chiesa cattolica ad aver scomunicato (nuovamente) i tradizionalisti lefebvriani per le quattro consacrazioni episcopali fatte ad Écône, in Svizzera, all’inizio di luglio. In un lungo video di quattordici minuti Sua Santità Pietro III (nella foto) ha ricordato che la Chiesa Palmariana, col suo fondatore Gregorio XVII, aveva già scomunicato la Fraternità Sacerdotale San Pio X lustri prima» («Scismatici. Anche Pietro IIl scomunica i lefebvriani: l’incredibile storia della Chiesa-setta Palmariana», Fabrizio D’Esposito, Il Fatto Quotidiano, 20.07.2026, p. 12). 
      Por um motivo ou por outro, a Igreja Palmariana está muito presente na imprensa espanhola. Mas, como se vê, também na de outros países, até porque tem, ainda que poucos, seguidores em todo o mundo. Dado que nomes de seitas de todos os tempos, desde a Antiguidade, não faltam nos dicionários, tantas que nem o papa jamais ouviu falar de muitas, não dicionarizar uma nossa contemporânea seria muito desavisado. Assim, proponho ➠ palmarianismo RELIGIÃO movimento religioso cismático de origem católica, de orientação ultratradicionalista, surgido em Espanha em 1978 em torno da Igreja Cristã Palmariana, caracterizado pela rejeição das reformas introduzidas pelo Concílio Vaticano II e pela reivindicação de uma sucessão própria de papas, independente da de Roma. | palmariano 1. RELIGIÃO relativo ou pertencente ao palmarianismo ou à Igreja Cristã Palmariana; 2. membro ou adepto da Igreja Cristã Palmariana.
[Texto 23 325]
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P. S.: Aproveito para chamar a atenção para a tua definição de «antipapa», Porto Editora: «indivíduo que, não tendo sido eleito de forma canónica, se assume como papa, em oposição ao sumo pontífice eleito segundo os preceitos da Igreja». Está, no mínimo, incompleta, pois refere somente Igreja. Mas que Igreja? Assim, proponho antipapa RELIGIÃO aquele que assume a dignidade e exerce a autoridade papais em oposição ao papa reconhecido como legítimo pela Igreja Católica.

Definição: «raposa-vermelha»

Oportunista, como outros


      «Credo sia una volpe rossa (Vulpes vulpes) ossia uno dei carnivori più diffusi sul pianeta. Avevo letto che a differenza del lupo non rischia l’estinzione perché è astuta, si adatta a ogni luogo, la si trova nel deserto come tra i ghiacciai. È un opportunista, dicono gli studiosi, ossia si adatta a vivere anche a contatto con l’uomo senza sacrificare la sua integrità selvatica» («Incontro con una volpe suburbana e amica», Luca Sommi, Il Fatto Quotidiano, 18.07.2026, p. 18). 
      Isso mesmo a descreve bem: predador oportunista. Juntamente com outros pormenores, levam-me a propor a definição ➠ raposa-vermelha ZOOLOGIA (Vulpes vulpes) mamífero carnívoro da família dos Canídeos, de corpo esguio, focinho afilado, orelhas erectas e cauda longa e felpuda, geralmente terminada em branco, de pelagem variável, mas habitualmente ruiva, amplamente distribuído no hemisfério norte, predador oportunista que se alimenta de pequenos vertebrados, invertebrados e frutos, adaptando-se a habitats muito diversos, incluindo áreas urbanas.

[Texto 23 324]

Definição: «chocolate»

Apresenta-se sob outras formas


      «A palavra “chocolate” está a tornar-se cada vez mais discreta nas embalagens dos supermercados. Em muitos produtos, foi substituída por referências à percentagem de cacau, à marca ou aos recheios. A mudança coincide com a subida dos preços do cacau e com alterações nas receitas de alguns fabricantes, que podem deixar de cumprir os critérios legais necessários para utilizar a designação “chocolate”. A designação “chocolate” está sujeita a regras rigorosas na União Europeia. Uma barra de chocolate negro deve conter pelo menos 35% de cacau, enquanto o chocolate de leite tem de incluir um mínimo de 25%. A utilização de outras gorduras vegetais também é estritamente regulamentada» («A palavra “chocolate” está a desaparecer das embalagens na Bélgica», SIC Notícias, 28.06.2026, 8h30). 
      Para efeitos lexicográficos, podemos ignorar os requisitos legais. O que devemos é melhorar a definição, e esse é desiderato ao nosso alcance, já que limita indevidamente as apresentações a barra ou pó; afirmar ser «feita de cacau» é pouco rigoroso, pois o chocolate é feito com produtos derivados das sementes do cacaueiro (massa de cacau, manteiga de cacau, etc.); afirmar conter «outras substâncias aromáticas» é redutor, porque muitos ingredientes não têm função aromática (leite, frutos secos, emulsionantes, etc.). 
      Tudo visto, proponho ➠ chocolate substância alimentar feita de derivados do cacau (como massa de cacau, manteiga de cacau ou cacau em pó), geralmente com adição de açúcar ou adoçante e de outros ingredientes, apresentada em diversas formas (como barra, tablete ou pó).

[Texto 23 323]

Definição: «descaminho»

Nunca falha


      A definição do vocábulo «descaminho», na sua acepção jurídica, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora merece igualmente revisão. A propósito do recente caso do ministro da Administração Interna — «Caso Luís Neves: PJ encontrou indícios de abuso de poder e descaminho no caso do atrelado que estava à guarda de empreiteiro» (in Expresso) —, imagine-se que, em vez de um atrelado, estivesse em causa um cão-polícia apreendido e posto sob o poder público. Segundo a definição actualmente constante do dicionário, já não haveria crime de descaminho, porque esta apenas menciona «determinado bem, documento ou outro objecto móvel». Ora, o artigo 355.º do Código Penal inclui expressamente também os animais. A omissão não é despicienda: altera o âmbito do tipo legal e pode induzir o leitor em erro. Acresce que a definição contém uma vírgula indevida («a que está sujeito, determinado bem»). Em matéria de conceitos jurídicos, já o afirmei aqui mais de uma vez, há uma regra de prudência que raramente falha: quando a lei já fornece uma definição técnica, a melhor solução é reproduzi-la, adaptando-a apenas ao estilo lexicográfico, sem lhe modificar o conteúdo. 
      Neste caso, bastaria defini-lo assim ➠ descaminho DIREITO crime cometido por quem destruir, danificar, inutilizar ou subtrair ao poder público a que está sujeito coisa, documento, objecto móvel ou animal que tenha sido arrestado, apreendido ou objecto de providência cautelar.

[Texto 23 322]

Léxico: «berundanga»

Não falta em todos


      «Receitou para alli umas berundangas, ella foi á botica, noite fechada» («A Ruiva», in Contos, Fialho de Almeida. Porto e Braga: Ernesto Chardron Editor, 1881, pp. 51-52).

[Texto 23 321]

Definição: «muxarabiê / muxarabi»

Até a filiação árabe fica eclipsada


      «C’est vrai, les moucharabiehs sont fixes en Égypte ou en Tunisie, où la température moyenne est de 20 degrés sur l’année. Mais on peut en avoir des mobiles, des persiennes dont on peut orienter les lattes de bois pour laisser entrer la fraîcheur du vent quand il y en a en été et qu’on peut complètement ouvrir en hiver pour laisser rentrer le soleil. Il existe aussi des systèmes appelés brise-soleil [diz o arquitecto Philippe Rahm]» («“En Suisse, des constructions récentes ne tiennent pas compte du climat”», Caroline Zuercher, Le Matin Dimanche, 12.07.2026, p. 14). 
      Um dos problemas da tua definição, Porto Editora, é que nem se fica a saber se esta estrutura fica no interior ou no exterior das casas. E a etimologia omite o melhor, a origem árabe, além de que indica diferentes variantes gráficas da transliteração francesa. Não podia ser mais inconsistente. (Quer dizer, podia, mas para pior antes assim.) Assim, proponho ➠ muxarabiê/muxarabi 1. ARQUITECTURA gradeamento ou treliça, geralmente de madeira, característico da arquitectura islâmica tradicional, colocado no exterior de janelas, varandas ou balcões, destinado a proteger do calor e da luz solar, permitindo simultaneamente a circulação do ar e a observação do exterior sem que quem está no interior seja visto; 2. ARQUITECTURA janela, varanda ou balcão provido desse gradeamento ou treliça. 
      Quanto à etimologia, vem do francês moucharabieh, e este do árabe mašrabiyya (مشربية), derivado de mašrab, «lugar onde se bebe; bebedouro».

[Texto 23 320]

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