Definição: «guarda-nocturno»

Ainda vão a tempo


      «A Câmara do Porto abriu o concurso para a contratação de 11 guardas-noturnos, para as zonas de Lordelo do Ouro e Massarelos, Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde e Ramalde. O prazo para submissão de candidaturas encerra no próximo dia 26» («Porto abre concurso para 11 guardas-noturnos», Jornal de Notícias, 18.05.2026, p. 8).

      Também me parece inequívoco que o verbete de «guarda-nocturno» deve ter duas acepções, como faz a Porto Editora, mas não com as definições que tem agora, que contradizem até o que a lei estabelece: «1. indivíduo que, de noite, vigia e guarda as habitações numa certa área; 2. indivíduo encarregado da vigilância de um estabelecimento fabril, banco, etc., durante a noite». Devemos ter, sim senhor, duas acepções, mas uma geral, aplicada tanto a um guarda-nocturno de Lisboa, por exemplo, como da China, e outra que atende ao que a legislação portuguesa estatui. Assim, proponho guarda-nocturno 1. indivíduo que, durante a noite, vigia habitações, estabelecimentos ou determinada área; 2. profissional licenciado para assegurar a vigilância nocturna de uma zona determinada, colaborando preventivamente com as forças de segurança e prestando serviços a moradores e comerciantes.

[Texto 23 014]

Léxico: «tote bag»

É assim


      Aqui um grupo de betinhas organizou-se mais formalmente e uma das primeiras iniciativas foi um encontro para cada participante fazer a sua tote bag, termo agora tão em voga e que certo dicionário bilingue diz ser um saco. Vá, tomai lá um hiperónimo bem amplo. Só que sacos há muitos. ➠ Tote bag é o saco de pano, geralmente de algodão ou lona, de formato simples e aberto, com duas alças paralelas que permitem transportá-lo ao ombro ou na mão; usado sobretudo para compras ou para transporte quotidiano de objectos, destacando-se pelo carácter reutilizável e pela frequente personalização gráfica; saco de pano com alças.

[Texto 23 013]

Definição e etimologia: «porcelana»

Em que se fala de porcas


      A definição de «porcelana» no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é excessivamente vaga e redutora, sobretudo por fazer assentar a caracterização do material apenas em «argilas muito finas»: «material cerâmico vitrificado, translúcido em pequenas espessuras, impermeável, preparado com argilas muito finas». Tal formulação não contempla adequadamente variedades importantes de porcelana, como a bone china inglesa, cuja composição inclui cinza óssea calcinada. Mais e pior: a definição é demasiado genérica e omite aquilo que distingue histórica e tecnicamente a porcelana de outras cerâmicas vitrificadas. Assim, proponho porcelana 1. material cerâmico vitrificado de elevada dureza e baixa porosidade, geralmente branco e translúcido em pequenas espessuras, obtido por cozedura a alta temperatura de uma pasta composta sobretudo por caulino, feldspato e quartzo, podendo incluir outros materiais, como cinza óssea calcinada, conforme a variedade; distingue-se da faiança e do grés pela maior vitrificação, resistência e finura; 2. louça ou objecto feito desse material. 

      A etimologia tem mais que se lhe diga, não pode (ou pelo menos não devia) ser despachada com o habitual «idem». Vem do italiano porcellana, nome inicialmente dado a certas conchas marinhas lustrosas do género Cypraea, especialmente à espécie Cypraea porcellana, cujo aspecto branco, liso e brilhante evocava a superfície da porcelana chinesa; por extensão semântica, o termo passou depois a designar a cerâmica oriental de alta qualidade importada para a Europa; o italiano porcellana deriva de porcellano, vocábulo relacionado com porco, porque a abertura inferior dessas conchas foi tradicionalmente comparada, por analogia de forma, aos órgãos genitais de uma porca jovem.

[Texto 23 012]

Léxico: «periquito-arco-íris»

Tomai lá este


      Prossigamos o nosso labor neste dia muito especial em que o rei Carlos III não morreu. (Podemos, porque nos apetece, variar: «Prossigamos o nosso labor muito especial neste dia em que o rei Carlos III não morreu.» «Prossigamos o nosso labor neste dia em que o muito especial rei Carlos III não morreu.» São todas verdadeiras, só a última não soa tão bem.) Vamos lá. «O periquito-arco-íris (Trichoglossus haematodus), provavelmente oriundo de Espanha, de acordo com a anilha que trazia, foi capturado em Arcos de Valdevez e entregue ao Instituto de Conservação da Natureza» («À procura do canguru fugitivo em Viana do Castelo», Ana Peixoto Fernandes, Jornal de Notícias, 15.05.2026, p. 11, itálicos meus).

[Texto 23 011]

Definição e etimologia: «estorninho» | Léxico: «esturnídeo»

A mais impressiva


      «Icónico es el caso de Eugene Schieffelin, inmigrante alemán, miembro de la Sociedad Estadounidense de Aclimatación y fervoroso fan de Shakespeare. Inspirado por las obras del genio inglés, soltó un centenar de estorninos, un pájaro común en el Viejo Continente, en el neoyorquino Central Park. Dos siglos después, se calcula que hay 200 millones de estorninos en toda América del Norte que causan cerca de 1.000 millones de dólares de pérdidas anuales en el sector agrícola» («El ‘pecado’ ecológico de España», Patricia Biosca, ABC, 16.05.2026, p. 57). 

      Pela definição da Porto Editora, não ficamos a saber de onde é originária esta ave, e a nota etimológica deixa-nos com a cabeça um pouco à roda: «Do latim *sturnīnu-, “da cor do estorninho”, de sturnu-, “estorninho”». Também falta um traço distintivo importante, obrigatório nesta definição: o comportamento gregário e os grandes bandos, porventura a característica mais imediatamente reconhecível dos estorninhos. 

      Tendo em conta todos esses aspectos, proponho estorninho ORNITOLOGIA designação comum das aves passeriformes do género Sturnus, da família dos Esturnídeos, originárias da Europa, Ásia e Norte de África, de plumagem geralmente escura e iridescente, bico recto e afilado e comportamento gregário, frequentemente reunidas em grandes bandos; algumas espécies foram introduzidas noutras regiões do mundo, onde podem causar forte impacto ecológico e agrícola. 

      Quanto à etimologia, vem do latim sturnus, «estorninho», provavelmente por via de formas derivadas medievais.

[Texto 23 010]

Léxico: «armadilha de Tucídides»

Começou uma nova era


      Desta vez, a multissecular sabedoria chinesa não bastou: Xi teve de recorrer às teorias ocidentais para ameaçar nada subtilmente Trump, isto apenas com uma referência à armadilha de Tucídides POLÍTICA INTERNACIONAL, RELAÇÕES INTERNACIONAIS teoria segundo a qual, quando uma potência emergente ameaça substituir ou ultrapassar a potência dominante, aumenta fortemente o risco de guerra ou de confronto grave entre ambas; a expressão, inspirada na narrativa de Tucídides sobre a rivalidade entre Atenas e Esparta que conduziu à Guerra do Peloponeso, foi popularizada pelo politólogo norte-americano Graham Allison no contexto das relações entre os Estados Unidos e a China.

[Texto 23 009]

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P. S.: A expressão inglesa original, Thucydides Trap, foi criada pelo politólogo norte-americano Graham Allison. Embora alguns autores considerem discutível a tradução literal por «armadilha de Tucídides», por esta poder sugerir uma espécie de fatalidade histórica ou uma teoria explicitamente formulada pelo historiador grego, a designação consolidou-se amplamente no debate geopolítico contemporâneo e é hoje usada sobretudo como metáfora para situações de rivalidade entre uma potência dominante e uma potência emergente. E já cá chegou, pois: «A segunda conclusão é a forma muito directa como o líder chinês colocou a questão de Taiwan e a ambiciosa ascensão chinesa com a evocação da armadilha de Tucídides. O Presidente chinês deixou claro que existe o “risco de uma situação extremamente perigosa” para a relação entre as duas potências, que poderão entrar “em fricção, ou mesmo em conflito”, se a questão de Taiwan for mal gerida» («Trump não fez um “negócio da China”», Amílcar Correia, Público, 19.05.2026, p. 8).


Léxico: «fogo técnico»

Para quem percebe


      «Los mecanismos propuestos van desde el pastoreo o el uso de cortafuegos verdes a la utilización del fuego técnico y la renaturalización o rewilding, una técnica que, aunque a priori pueda parecerlo, nada tiene que ver con el abandono del monte» («La ciencia mira al pasado para luchar contra los grandes incendios», M. C., La Voz de Galicia, 16.05.2026, p. 12). 

      Nada de confusões, não se trata nem de queimas nem de queimadas. E está previsto na legislação portuguesa, porque, si fuera sólo un concepto y una realidad de España, coño, ¿creen que yo lo traería aquí? Assim, proponho fogo técnico SILVICULTURA, PROTECÇÃO CIVIL uso planeado e tecnicamente supervisionado do fogo em espaço rural ou florestal, para fins de prevenção, gestão de combustíveis ou combate a incêndios, abrangendo o fogo controlado e o fogo de supressão; em Portugal, a sua execução está sujeita a normas legais específicas e a credenciação técnica.

[Texto 23 008]

Léxico: «lefebvriano | lefebvrista»

E é a mais usada


      «Los lefebvrianos no dan marcha atrás a su pretensión de ordenar, en principio, a cuatro obispos el próximo 1 de julio saltándose el proceso exigido por Roma para este tipo de consagraciones. Y la Santa Sede no levantará la mano» («Los lefebvrianos: la huida hacia delante del cisma», José Beltrán, La Razón, 17.05.2026, p. 38).

      Não, Porto Editora, nesta acepção, tão comum, de membro, fiel ou adepto do movimento não a registas. Além disso, a tua definição parece-me um tanto desequilibrada: insiste muito na biografia de Lefebvre e pouco no fenómeno religioso e eclesiológico associado ao termo. E o que é mais importante para o caso? E «dissidente da Igreja Católica» é formulação discutível e simplificadora, porque a situação canónica da Fraternidade Sacerdotal São Pio X é historicamente mais ambígua e complexa do que isso.

      Assim, proponho lefebvriano 1. RELIGIÃO relativo a Marcel Lefebvre (1905-1991), arcebispo francês fundador da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, ou às posições católicas tradicionalistas por ele defendidas, caracterizadas pela oposição a vários aspectos das reformas do Concílio Vaticano II; 2. RELIGIÃO seguidor de Marcel Lefebvre ou membro, simpatizante ou adepto da Fraternidade Sacerdotal São Pio X e do movimento tradicionalista a ela associado; 3. RELIGIÃO relativo às posições tradicionalistas católicas defendidas por Lefebvre.

[Texto 23 007]

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P. S.: Registe-se que, no Brasil, sobretudo em textos académicos e teológicos (que isto não é assunto para o zé-povinho), ocorre com frequência a forma «lefebvrista», morfologicamente talvez mais previsível e paralela a vocábulos como «marxista» ou «leninista», por exemplo. Em Portugal, porém, ainda que também se use esporadicamente, o uso parece favorecer claramente «lefebvriano», provavelmente por influência francesa.


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