Cagaréus e ceboleiros

E dos obos móis

      «Para chegar à terra de cagaréus e ceboleiros o melhor é o comboio que permite ver logo à chegada a Estação da CP, edifício que em 1916 foi decorado com os azulejos que o tornaram um dos cartões de visita de Aveiro» («A cidade dos canais e dos doces e da arquitetura e...», Miguel Marujo, Diário de Notícias, 14.08.2012, p. 50).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «cagaréu» («designação dada aos pescadores da cidade portuguesa de Aveiro, especialmente aos nascidos na freguesia de Vera Cruz»), mas não regista a acepção de «ceboleiro». E devia, pois claro, porque quem fala em cagaréus não pode deixar de falar em ceboleiros. Proponho a seguinte redacção da acepção:

nome
regionalismo designação dada na cidade de Aveiro ao que se ocupava da cultura em quintais e nos campos

      Este dicionário aventa uma etimologia de cagaréu: de cagar + éu. E então, que adianta isto? Cagar ao léu? Cagaréu é o extremo da ré dos moliceiros e dos mercantéis, «naturalmente pela semelhança com as comuas de assento de tábua, havia-as, quando havia, nas aldeias marinhoas», informa Joaquim Lagoeiro na obra Português sem Mestre, Crónicas Linguísticas.
      Voltando a «ceboleiro». Vejo que a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira regista: «Ceboleiro, s. m. Alcunha que em Aveiro se dá aos moradores da freg. da Glória.»
[Texto 1971]

Plural de «foca-monge»

Monachus monachus

      Aquele era um dos locais de observação das — «focas-monge» ou «focas-monges»? Na Infopédia, é «focas-monges» que se lê, assim como na enciclopédia Portugal Moderno: Fauna (Lisboa: Editora Pomo, 1991, p. 187). Infelizmente, os dicionários não se querem comprometer, e a maioria não dá o plural dos vocábulos registados. Está mal. Pelo menos os que suscitam mais dúvidas deviam estar lá.
[Texto 1970]

«Esponja/espuma»

Só por escuma

      Que nome dão os meus caros leitores àquele material sintético, maleável e macio, usado no interior de colchões, almofadas, etc.? Espuma ou esponja? Toda a vida o designei e ouvi designar desta última forma, mas ultimamente vejo com frequência a primeira — que não está registada em quase nenhum dicionário, diga-se.
[Texto 1969]

«Creche/infantário»

Creche e aparece

      «Seja creche ou infantário», escreve o autor. Pergunto eu: não são sinónimos? Pelo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não o chegamos a saber bem. Creche, que começou por ser o estabelecimento para asilo diurno de crianças pobres e já foi um galicismo bárbaro (mas hoje já ninguém fala disso), é o «estabelecimento de educação destinado a crianças com idades compreendidas entre os 3 meses e os 3 anos de idade». Perfeito. Agora só falta ter, de preferência no mesmo dicionário, uma definição de infantário tão precisa. Mas não: «estabelecimento que se ocupa de crianças em idade pré-escolar; jardim-escola; creche». Para mim, são sinónimos, mas dizem-me aqui, sem mais argumentos, como tantas vezes, que não.
[Texto 1968]

Plural: «tuque-tuques»

Plural e português

      Repórter Margarida Cruz no Telejornal de anteontem: «Do Oriente para as ruas de Lisboa há menos de um mês, os tuk-tuk já sabem como conquistar território luso» («Tuk-tuk em Lisboa»).
      Já que chegaram a Lisboa, não há nenhum motivo para, de pés bem assentes na terra, não aportuguesarmos a palavra: tuque-tuque. Já o plural é outra questão. Tudo leva a crer que é de origem onomatopeica. Logo, como nos substantivos compostos de palavras onomatopeicas só a última se pluraliza, fica tuque-tuques, à semelhança de reco-recos, roque-roques, tico-ticos, tique-tiques, toque-toques, etc. A propósito, também aqui a nossa sacrossanta ortografia apresenta incongruências, pois, igualmente onomatopeicas, temos zunzum, tiquetaque, frufru... Por sorte, os dicionaristas ainda não descobriram o tim-tim das taças nos brindes. É preciso tintins para aguentar tanto.
[Texto 1967]

Léxico: «gnómon»

Boa, Anaximandro (ou Anaxímenes...)

      «“Ainda bem que foi recuperado”, congratula-se ao DN Fernando Correia de Oliveira, um dos mentores do blogue Observatório dos Relógios Históricos, que, desde 2007, tinha vindo a chamar a atenção para a descaracterização do gnómon (o “ponteiro” de um relógio de sol) da Praça do Império» («Relógio de sol volta a funcionar... desregulado», Inês Banha, Diário de Notícias, 12.08.2012, p. 20).
      Gnómon é o ponteiro (mas sem aspas, Inês), sim, mas também, por metonímia, em que se toma a parte pelo todo, o próprio relógio de sol.
      Ah, não se sabe exactamente: ou foi Anaximandro ou o seu discípulo Anaxímenes de Mileto quem inventou o gnómon.
[Texto 1966]

Léxico: «peitada»

Boa, Zé

      José Rodrigues dos Santos no Telejornal de ontem: «O jogo do Benfica com o Fortuna Düsseldorf foi interrompido por uma peitada: quando o árbitro ia expulsar Javi García, Luisão interveio e fez um contacto com o peito.»
      Alguma imprensa falou, impropriamente, em «encosto», mas as palavras existem para serem usadas. Peitada, segundo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é o embate de um peito com outro e o empurrão dado com o peito.
[Texto 1965]

Ortografia: «agrissilvipastoril»

Ominoso silêncio

      «Terras improdutivas sem dono, correspondentes às fragas, taludes ou alcantis e outras áreas sem características produtivas para fins agro-silvo-pastoris, etc.» Pena é os dicionários serem omissos nestas questões. O primeiro elemento é propriamente agri-, que, em forma de prefixo, não precisa de hífen para se ligar ao elemento seguinte. O segundo elemento, por sua vez, também é mais propriamente silvi-, que também se solda com o elemento que se lhe segue. Logo, agrissilvipastoril.
[Texto 1964]

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