«Longíssimo»

Populares, dizem eles

      Mais chefes: «O chefe da diplomacia portuguesa sublinhou ainda que Joana Vasconcelos chegou “longíssimo pelo seu pé e ainda vai chegar mais longe porque é muito nova”» («Joana Vasconcelos é a rainha de Versalhes», Maria João Caetano, Diário de Notícias, 19.06.2012, p. 48).
      Aqui já o «chefe» está bem, até para variar e evitar formas mais espúrias. E agora vejam o advérbio «longíssimo», que algumas gramáticas previnem que é, juntamente com «pertíssimo», popular. É vê-lo na literatura. «Os montes que longíssimo se alcançam», escreveu Feliciano de Castilho. Mais perto de nós, António Lobo Antunes usa-o muitas vezes.
[Texto 1705]

«Juiz-chefe»

Ó chefe!

      «O jovem português Renato Seabra, acusado do homicídio do colunista social Carlos Castro em Nova Iorque, vai ficar pelo menos mais dois meses a aguardar julgamento. Em nova audiência no tribunal de Nova Iorque, o juiz-chefe Michael Obus relegou para 23 de julho uma decisão sobre o início do julgamento, mas o advogado de defesa de Seabra, David Touger, afirma ser “improvável” um arranque antes de setembro» («Julgamento de Renato Seabra deverá atrasar-se», Diário de Notícias, 19.06.2012, p. 17).
      Então agora é assim que os jornalistas escrevem: «juiz-chefe». Não há designações analógicas em português nem nada que se pareça. E será que o juiz relegou ou adiou a decisão?
[Texto 1704]

Os ditongos ‘iu’ e ‘ui’ não têm acento

Falar por falar

      «Mesmo numa escola secundária lisboeta a dar pelo nome de Camões, Os Lusíadas não deixavam de ser um dos receios dos alunos que ontem fizeram as provas de Português do 12. º ano» («As redes sociais ao lado de ‘Os Lusíadas’ e da ‘Mensagem’», Pedro Sousa Tavares, Diário de Notícias, 19.06.2012, p. 39).
      O que tem uma coisa que ver com a outra, senhor jornalista? Por essa ordem de ideias, diríamos que mesmo num jornal deu estes erros: «O autor, como se previa, saíu mesmo no enunciado. Mas, no final, eram poucos os que se queixavam da exigência do exame. [...] “Penso que terei nota positiva”, disse o estudante, que espera candidatar-se a um curso de cinema mas tem ainda uma disciplina do secundário para tentar concluír. Diogo Bugalho, 21 anos, que veio fazer o exame para concluír o secundário e poder candidatar-se a um curso de Informática, também não sentiu “grandes dificuldades” com os autores e a parte gramatical da prova. Mas o que o deixou particularmente optimista foi o tema do último grupo, em que os os alunos são convidados a escrever um texto, não podia ter sido mais adequado: “para mim foi o mais fácil. Tinhamos de falar sobre as redes sociais e sobre a forma como estas se relacionam com a busca pela popularidade”, descreveu.»
[Texto 1703]

Português do além-mar

Portugal Day

      A comemoração do Dia de Portugal no Central Park, Nova Iorque, juntou 7500 pessoas. Fados, corridinhas, sandes com atum Bom Petisco... Pedro Mota Soares, in halting Portuguese, também marcou presença. Domitília dos Santos, famosa gestora de fortunas a residir nos Estados Unidos, da organização, afirmou: «A idade média destas pessoas é dos 35 aos 50 anos e o seu renda anual é superior a 150 000 dólares.»
[Texto 1702]

Tradução: «position paper»

E agora?

      Estamos literalmente cercados, mas ninguém parece reparar. Blá-blá-blá, «diz o “position paper” da Santa Sé». Parece mesmo que carecemos de palavras portuguesas para exprimir metade das ideias fabulosas que povoam os cérebros inteligentíssimos de todos os estrangeiros, mas sobretudo dos anglo-saxónicos. Desisto. Pelo menos por hoje, que ainda tenho muito que fazer. Até amanhã.
[Texto 1701]

Pronúncia: «Niágara»

Naiágara fols

      «Pé ante pé, sobre um cabo de cinco centímetros, caminha Nik Wallenda, a 60 metros de altura sobre as Cataratas de Niagara», disse anteontem a repórter da RTP Raquel Ramalho Lopes, e pronunciou «Niagára». Niágara — vamos ver quando a levam para o Prontuário Sonoro — é um termo proparoxítono. Rebelo Gonçalves, na página 707 do seu Vocabulário da Língua Portuguesa: «Niágara, top. m. Incorrecta a acentuação Niagara (gá).» Sabem tudo, mas quando toca a escrever e a falar é que são elas.

[Texto 1700]

Para maior confusão

Nem todos os santinhos

      E por Vaticano, lembrei-me do programa Quinta Essência, de João Almeida, que ontem de manhã ouvi durante escassos minutos. O entrevistado era Alberto Júlio Silva, autor de Os Nossos Santos e Beatos e Outros Que Portugal Adotou. «Se calhar», disse João Almeida, «[o povo] é humilde e sabe que não tem via directa para Deus, então pede a intercepção, pede um intermediário [...].» Agora, sim, agora é que são elas: interceção, intercepção, intercessão, intersecção, interseção... No caso vertente, impropriamente se diria que é conhecimento de outiva, porquanto o que mais falta é ouvido.
[Texto 1599]

«Colocar na linha»!

Não é abençoado

      «A sua nomeação tinha também como objectivo colocar o IOR na linha, depois das polémicas das últimas décadas e de modo a que o próprio Vaticano colaborasse com as autoridades financeiras internacionais na luta contra a lavagem de dinheiro» («Ettore Gotti Tedeschi», António Marujo, Público, 27.05.2012, p. 27).
      Não se dirá de outra forma no futuro: «colocar na linha». Em «de modo a que» é que faz falta uma tesourada. De modo que, de maneira que, de sorte que, de feição que fique uma obra mais ou menos asseada.
[Texto 1598]

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