Pronúncia: «Niágara»

Naiágara fols

      «Pé ante pé, sobre um cabo de cinco centímetros, caminha Nik Wallenda, a 60 metros de altura sobre as Cataratas de Niagara», disse anteontem a repórter da RTP Raquel Ramalho Lopes, e pronunciou «Niagára». Niágara — vamos ver quando a levam para o Prontuário Sonoro — é um termo proparoxítono. Rebelo Gonçalves, na página 707 do seu Vocabulário da Língua Portuguesa: «Niágara, top. m. Incorrecta a acentuação Niagara (gá).» Sabem tudo, mas quando toca a escrever e a falar é que são elas.

[Texto 1700]

Para maior confusão

Nem todos os santinhos

      E por Vaticano, lembrei-me do programa Quinta Essência, de João Almeida, que ontem de manhã ouvi durante escassos minutos. O entrevistado era Alberto Júlio Silva, autor de Os Nossos Santos e Beatos e Outros Que Portugal Adotou. «Se calhar», disse João Almeida, «[o povo] é humilde e sabe que não tem via directa para Deus, então pede a intercepção, pede um intermediário [...].» Agora, sim, agora é que são elas: interceção, intercepção, intercessão, intersecção, interseção... No caso vertente, impropriamente se diria que é conhecimento de outiva, porquanto o que mais falta é ouvido.
[Texto 1599]

«Colocar na linha»!

Não é abençoado

      «A sua nomeação tinha também como objectivo colocar o IOR na linha, depois das polémicas das últimas décadas e de modo a que o próprio Vaticano colaborasse com as autoridades financeiras internacionais na luta contra a lavagem de dinheiro» («Ettore Gotti Tedeschi», António Marujo, Público, 27.05.2012, p. 27).
      Não se dirá de outra forma no futuro: «colocar na linha». Em «de modo a que» é que faz falta uma tesourada. De modo que, de maneira que, de sorte que, de feição que fique uma obra mais ou menos asseada.
[Texto 1598]

Sobre: «jaleca»

Mas não são aventais

      «“Aqui sei que o que sirvo aos clientes, é natural, pois tudo é produzido na horta sem o recurso a pesticidas”, diz José Pinto ao DN, nesta horta com vista para Douro Vinhateiro, com a sua impecável jaleca branca» («O restaurante onde o cliente vai à horta escolher o prato», José António Cardoso, Diário de Notícias, 27.05.2012, p. 20).
      Jaleca, jaleco — já aqui vimos esta questão. Desde que os jornalistas não afirmem que são aventais (com o ámen de alguns leitores), está tudo bem.
[Texto 1597]

Ortografia: «entorse»

Com o inglês, temos de amochar

      «O primeiro dia foi “espantosamente calmo”. A ambulância não saiu do sítio e não houve situações graves. Normalmente, ali recebem jovens que ingeriram álcool em demasia ou que se magoaram nos moshes, mas, para já, só houve dores de cabeça, alergias ao pólen, uns “entorcezitos”» («Médicos tratam dores de cabeça e entorces», Diário de Notícias, 27.05.2012, p. 48).
      Além de errar a grafia da palavra «entorse», que é com s e não com c, o jornalista resolveu considerá-la do género masculino. Quanto aos moshes, temos de consultar um dicionário de língua inglesa, é claro. No Dicionário Inglês-Português da Porto Editora, encontro na entrada mosh: «coloquial moshar, dançar freneticamente». Moshar... Felizmente, esqueceram-se de entesourar o verbo no Dicionário da Língua Portuguesa.
[Texto 1596]

Tradução: «greguería»

São Paulo, Novembro de 2005

      E já que falamos de tradução, eis um caso curioso. No último parágrafo do prefácio da tradução de Greguerías, de Ramón Gómez de la Serna, para português, feita no Brasil por Sérgio Alcides, lê-se: «Na tradução para o português, as greguerias perdem o acento. Em compensação, ganham um pingo.» O dicionário da Academia Espanhola regista: «1. Vocerío o gritería confusa de la gente. 2. Agudeza, imagen en prosa que presenta una visión personal, sorprendente y a veces humorística, de algún aspecto de la realidad, y que fue lanzada y así denominada hacia 1912 por el escritor Ramón Gómez de la Serna.»

[Texto 1595]

Ortografia: «mazagrã»

Redundante

      «Para saborear com doce nostalgia, com um mazagrãn numa mão e uma queijada de Sintra na outra» («Sandes/Fatias de um itinerário com recheio», Maria Espírito Santo, «LIV»/i, 26.05.2012, p. 7).
      Está, como hei-de dizer?, demasiado nasalado... Pode ser lapso, mas, para o caso de não ser, é erro.

[Texto 1594]

Ortografia: «Punjabe»

Eu também escrevo assim

      «Harveen [Kaur Sidhu] não está sozinha nesta profilaxia de carácter duvidoso em pleno estado do Punjabe, onde ainda se escutam os ecos das leis marciais e das insurreições de há 20 anos» («Um tiro no escuro indiano», Maria Ramos Silva, «LIV»/i, 26.05.2012, p. 3).
[Texto 1593]

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