Sobre: «jaleca»

Mas não são aventais

      «“Aqui sei que o que sirvo aos clientes, é natural, pois tudo é produzido na horta sem o recurso a pesticidas”, diz José Pinto ao DN, nesta horta com vista para Douro Vinhateiro, com a sua impecável jaleca branca» («O restaurante onde o cliente vai à horta escolher o prato», José António Cardoso, Diário de Notícias, 27.05.2012, p. 20).
      Jaleca, jaleco — já aqui vimos esta questão. Desde que os jornalistas não afirmem que são aventais (com o ámen de alguns leitores), está tudo bem.
[Texto 1597]

Ortografia: «entorse»

Com o inglês, temos de amochar

      «O primeiro dia foi “espantosamente calmo”. A ambulância não saiu do sítio e não houve situações graves. Normalmente, ali recebem jovens que ingeriram álcool em demasia ou que se magoaram nos moshes, mas, para já, só houve dores de cabeça, alergias ao pólen, uns “entorcezitos”» («Médicos tratam dores de cabeça e entorces», Diário de Notícias, 27.05.2012, p. 48).
      Além de errar a grafia da palavra «entorse», que é com s e não com c, o jornalista resolveu considerá-la do género masculino. Quanto aos moshes, temos de consultar um dicionário de língua inglesa, é claro. No Dicionário Inglês-Português da Porto Editora, encontro na entrada mosh: «coloquial moshar, dançar freneticamente». Moshar... Felizmente, esqueceram-se de entesourar o verbo no Dicionário da Língua Portuguesa.
[Texto 1596]

Tradução: «greguería»

São Paulo, Novembro de 2005

      E já que falamos de tradução, eis um caso curioso. No último parágrafo do prefácio da tradução de Greguerías, de Ramón Gómez de la Serna, para português, feita no Brasil por Sérgio Alcides, lê-se: «Na tradução para o português, as greguerias perdem o acento. Em compensação, ganham um pingo.» O dicionário da Academia Espanhola regista: «1. Vocerío o gritería confusa de la gente. 2. Agudeza, imagen en prosa que presenta una visión personal, sorprendente y a veces humorística, de algún aspecto de la realidad, y que fue lanzada y así denominada hacia 1912 por el escritor Ramón Gómez de la Serna.»

[Texto 1595]

Ortografia: «mazagrã»

Redundante

      «Para saborear com doce nostalgia, com um mazagrãn numa mão e uma queijada de Sintra na outra» («Sandes/Fatias de um itinerário com recheio», Maria Espírito Santo, «LIV»/i, 26.05.2012, p. 7).
      Está, como hei-de dizer?, demasiado nasalado... Pode ser lapso, mas, para o caso de não ser, é erro.

[Texto 1594]

Ortografia: «Punjabe»

Eu também escrevo assim

      «Harveen [Kaur Sidhu] não está sozinha nesta profilaxia de carácter duvidoso em pleno estado do Punjabe, onde ainda se escutam os ecos das leis marciais e das insurreições de há 20 anos» («Um tiro no escuro indiano», Maria Ramos Silva, «LIV»/i, 26.05.2012, p. 3).
[Texto 1593]

«Tecto/telhado»

Chegou aos jornais

      Nas traduções do inglês, é habitual a confusão entre «tecto» e «telhado». Na imprensa, nem por isso. «A Pensão Noite Cristalina ficou sem teto e duas pessoas sofreram ferimentos de pouca gravidade na sequência de um incêndio que deflagrou pelas dez da manhã de ontem neste edifício da rua da Palma, em Lisboa» («Incêndio destrói teto da pensão Noite Cristalina», Diário de Notícias, 26.05.2012, p. 14). O que a fotografia mostra é que o edifício ficou sem telhado. Não só sem tecto, mas também sem telhado. E bem podia ter ficado sem telhado, mas com tecto, ou vice-versa. «O antigo Teatro Laura Alves, na Rua da Palma, entretanto convertido em pensão, ardeu ontem, tendo o fogo sido extinto às 12h10. As chamas começaram num dos quartos e danificaram o telhado» («Incêndio na Baixa», António Pedro Santos, i, 26.05.2012, p. 7).
[Texto 1592]


«Feiticismo»

Não se envergonha

       Diana Garrido, na edição de hoje do i, perguntou ao escritor Paulo Bandeira Faria se a primeira frase se mantinha ou se mudava. «Num poema concedo que o primeiro verso me pareça sempre o mais inspirado. Num romance já não sou dado a tais feiticismos.» Ora aí está: vejam se o autor se presta ao servilismo de usar um galicismo que, curiosamente, teve origem num termo português. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora no verbete «feiticismo» remete para «fetichismo», mas não faz o contrário, o que tem as consequências óbvias.
[Texto 1591]

Logo é historiadora

Não é bem assim

      «Adelino Filipe Saraiva da Cunha nasceu em Lisboa em 11 de maio de 1971. É casado e tem uma filha. Jornalista de profissão e historiador de formação, licenciou-se na Universidade Lusíada» («Quem é o adjunto de Relvas que se demitiu», Diário de Notícias, 26.05.2012, p. 3).
      Quando há dois anos uma jornalista da rádio entrevistou uma amiga minha, professora de História no ensino secundário, insistiu em tratá-la por historiadora. Que não, recusou a minha amiga, que era licenciada em História. «E não é o mesmo?»
[Texto 1590]

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