«Tecto/telhado»

Chegou aos jornais

      Nas traduções do inglês, é habitual a confusão entre «tecto» e «telhado». Na imprensa, nem por isso. «A Pensão Noite Cristalina ficou sem teto e duas pessoas sofreram ferimentos de pouca gravidade na sequência de um incêndio que deflagrou pelas dez da manhã de ontem neste edifício da rua da Palma, em Lisboa» («Incêndio destrói teto da pensão Noite Cristalina», Diário de Notícias, 26.05.2012, p. 14). O que a fotografia mostra é que o edifício ficou sem telhado. Não só sem tecto, mas também sem telhado. E bem podia ter ficado sem telhado, mas com tecto, ou vice-versa. «O antigo Teatro Laura Alves, na Rua da Palma, entretanto convertido em pensão, ardeu ontem, tendo o fogo sido extinto às 12h10. As chamas começaram num dos quartos e danificaram o telhado» («Incêndio na Baixa», António Pedro Santos, i, 26.05.2012, p. 7).
[Texto 1592]


«Feiticismo»

Não se envergonha

       Diana Garrido, na edição de hoje do i, perguntou ao escritor Paulo Bandeira Faria se a primeira frase se mantinha ou se mudava. «Num poema concedo que o primeiro verso me pareça sempre o mais inspirado. Num romance já não sou dado a tais feiticismos.» Ora aí está: vejam se o autor se presta ao servilismo de usar um galicismo que, curiosamente, teve origem num termo português. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora no verbete «feiticismo» remete para «fetichismo», mas não faz o contrário, o que tem as consequências óbvias.
[Texto 1591]

Logo é historiadora

Não é bem assim

      «Adelino Filipe Saraiva da Cunha nasceu em Lisboa em 11 de maio de 1971. É casado e tem uma filha. Jornalista de profissão e historiador de formação, licenciou-se na Universidade Lusíada» («Quem é o adjunto de Relvas que se demitiu», Diário de Notícias, 26.05.2012, p. 3).
      Quando há dois anos uma jornalista da rádio entrevistou uma amiga minha, professora de História no ensino secundário, insistiu em tratá-la por historiadora. Que não, recusou a minha amiga, que era licenciada em História. «E não é o mesmo?»
[Texto 1590]

AOLP90 contado às criancinhas

Bom e fácil, mas não o aplicam

      A propósito da alteração da medida de coacção a Duarte Lima, pudemos ver ontem nas televisões um comunicado do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP). «Não existe assim, [sic] qualquer fundamento nas notícias de uma negociação com o arguido Duarte Lima ou com os seus advogados, tendo em vista a alteração da medida de coacção. [...] o arguido Duarte Lima propõe-se vender activos detidos em Portugal [...]. O objectivo era evitar o manifesto de receitas em Portugal [...].»
      Ou seja: a aplicação das regras do Acordo Ortográfico de 1990 é para o povinho crédulo e ignorante. Este é que vê nas legendas, genuflexo no ínfimo degrau, as coações, os ativos e os objetivos e os passa, reverente e de cerviz sempre dobrada, para o papel.
[Texto 1589]

Um verbo defeituoso

Uma pessoa até se atrapalha

      Os jornalistas, toda a gente sabe, são uns grandes melgas, e as pessoas até se atrapalham a falar, como aconteceu ontem com o procurador-geral da República: «Já disse aquilo que tinha a dizer. Vamos aguardar o que é que vai acontecer. Sempre que houver... É preciso esclarecer uma coisa: o Ministério Público, o procurador-geral não faz censuras políticas nem patrociona julgamentos políticos. Os julgamentos políticos acabaram com o 25 de Abril. Agora, se se apurar ilícito criminal, não vale a pena estar com muita pressa, se se apurar ilícito criminal, o Ministério Público actuará; se não se apurar, não actua. É tão fácil.»

[Texto 1588]

Léxico: «retropolar»

Esta é nova

      Não mandem já para o Observatório de Neologia do Português, mas vejam: o Índice de Preços no Consumidor, diz o INE, «mede a evolução no tempo dos preços de um conjunto de bens e serviços representativos da estrutura de consumo da população residente em Portugal. Foi utilizada a base mais recente (base 2008) do IPC e os valores para os anos anteriores foram retropolados utilizando a informação dos índices disponibilizada pelo Banco de Portugal».
      É, não o antónimo de «extrapolar», como já li por aí, mas uma noção próxima. Ainda não está dicionarizado. Há-de vir, apesar de Portugal ser uma terra de inventores, do francês rétropoler ou do inglês retropolate (to extrapolate backwards).
[Texto 1587]

«Desfolhar um livro»

Alto lá!

       «Desfolhar» em vez de «folhear» uma revista, um livro é, como já aqui o dissemos mais de uma vez, um erro, mas não, Santo Deus!, um erro científico, como ontem uma professora de Português afirmou categoricamente. Mesmo que venha num manual daquela disciplina.
[Texto 1586]

«No Redondo»

Sempre a cortar

      «Alentejano nascido no Redondo, a 5 de maio de 1908, Fernando Batalha fez o curso de Arquitetura da Escola de Belas-Artes de Lisboa, atual Faculdade de Arquitetura, especializando-se em Urbanismo, em Paris» («O arquiteto que tinha Angola no coração», Diário de Notícias, 25.05.2012, p. 43).
      Isso também eu afirmei, certa vez, no Assim Mesmo. Mais tarde, um leitor, redondeiro ao que parecia, replicou que não, que lá se diz «em Redondo». Há-de ser a tal tendência literária e oficial de que falava Leite de Vasconcelos.
      Agora uma questão um pouco mais miudinha: aquela vírgula antes do complemento circunstancial de lugar (modificador do grupo verbal, na nova terminologia) não está lá a fazer nada. Apenas seria necessária se o complemento surgisse em posição invertida ou anteposta na frase. Ainda me lembro de o revisor antibrasileiro — que revia como Miguel Torga escrevia: com tesoura — aspar vírgulas às dezenas só nestes casos.
[Texto 1585]

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