Como falam os nossos políticos

Calma, calma

      Fala o Sr. Deputado Adolfo Mesquita Nunes: «Foi referido nesta reunião de que Portugal estaria a ultrapassar neste momento a fase pior, já estava a encontrar no caminho para sair do ponto mais baixo da recessão.»
[Texto 1581]

Porquê «açoriano»

Está explicado

      É relativamente comum encontrar o erro «açoreano» em vez de «açoriano», como a actual ortografia nos manda escrever. Vejam, porém, donde vem o erro: o falante pensa sempre na palavra de que deriva, um plural, que tem e e não i: Açores. «Ora, em açoriano, este i, espetado pelos filólogos, não pertence ao tema. Entre a derivação de Horatius – horatianus e Açores – açoriano só há uma analogia: a de um ovo com um espeto» (Estudos Críticos de Língua Portuguesa: contra os Gramáticos, Vasco Botelho de Amaral. Porto: edição do autor, 1948, p. 109). «Como filólogo, só lamento que não seja o Vocabulário de Viana a base da nossa escrita. Lá estava já: – açoreano, torreano» (idem, ibidem, p. 110).
[Texto 1580]

Léxico: «cranioencefálico»

É claro que não

      «Uma menina de três anos sofreu um traumatismo crânio-encefálico depois de o carro em que se encontrava ter deslizado pela rampa de acesso da sua casa no Torrão, Marco de Canavezes [sic]» («Menina de três anos ferida após destravar automóvel», Mónica Ferreira, Diário de Notícias, 24.05.2012, p. 21).
      Nada disso, cara Mónica Ferreira: com o elemento de composição crani(o)- nunca usamos hífen. Logo, cranioencefálico. Pergunto a mim próprio se não estar registado no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não contribuirá para estes erros. Já fiz a sugestão ao Departamento de Dicionários.
[Texto 1579]

«PPP’s»

Mas é um bom exemplo

      «Quer isto dizer que numa democracia europeia será mais difícil a cada grupo controlar uma agenda em que os outros grupos se decidam por PPP’s? Admito: o exemplo é doloso» («A democracia na Europa», Pedro Lomba, Público, 24.05.2012, p. 48).
      Em português, o apóstrofo serve apenas para assinalar a elisão de uma ou mais letras. Que letra ou letras suprimiu, Pedro Lomba? Ah, e as siglas não têm plural.
[Texto 1578]

«Setúbal»

Digo de novo

      O Prontuário Sonoro da RTP, que ainda ontem foi recomendado no programa Nativos Digitais, acolhe a entrada «Sergei Rachmaninoff», mas mais valera que registasse, a avaliar pelo que ouço todos os dias na Antena 1, o topónimo Setúbal. Parecem todos asmáticos ou a convalescer de uma afonia. E isto não é implicância subitânea, antes amadurada reflexão, pois que há menos de dois anos já o escrevi no Assim Mesmo. Se o repito, é porque nada mudou. Assustariam o próprio Mafarrico.
[Texto 1577]

«Forma/fôrma»

Em letra de forma

      Se o Acordo Ortográfico de 1990 estabelece, de forma inequívoca, que o acento circunflexo se pode usar, facultativamente, no nome feminino «forma» com o sentido de molde ou recipiente, com que fundamento o Vocabulário Ortográfico do Português, o tal «disponível graciosamente» na Internet, estabelece que «fôrma» é variante brasileira? Isto não é tresleitura do texto do acordo? Obrigatória no Brasil, mas facultativa para nós. Cadê a uniformização? Digo mais: se todas as variantes fossem facultativas, muito pouco teríamos de mudar na nossa forma de escrever. Ou seja, mais valia terem estado quietos. Como de facto...
[Texto 1576]

«Máquina de inspeção de carris»

Veremos nos próximos tempos

      «O embate do carro com uma máquina de inspeção de carris ocorreu pelas 10.16. Com o choque, as duas crianças foram projetadas do carro enquanto a vítima mortal teve de ser desencarcerada pelos bombeiros. [...] Segundo a Refer, o acidente ocorreu na Linha do Leste e ao final da manhã já tinha sido recomposta a circulação ferroviária na linha onde apenas circulam comboios de mercadorias» («Crianças sobrevivem a choque com comboio», Luís Fontes, Diário de Notícias, 23.05.2012, p. 20).
      Já prescindiram ou, sem mérito nenhum, não se lembraram de usar o vocábulo «dresina». Nada de especial a apontar, tanto mais que nos viera do francês, mas custa trocar uma palavra por quatro para dizer o mesmo. E não dizemos «repor a circulação»?
[Texto 1575]

Cavaco Silva e o AOLP90

Eu não lhe agradeço

      «Durante a inauguração da Feira do Livro de Díli, Cavaco salientou a sua participação na ratificação do Acordo Ortográfico, mas confessou que, embora os seus discursos saiam de acordo com as novas regras, em casa ainda escreve como aprendeu na escola. E recordou que quando foi ao Brasil, em 2008, “face à pressão que então se fazia sentir [naquele país], o Governo disse-me que podia e devia anunciar a ratificação do acordo, o que fiz”» («Cavaco apela ao investimento indonésio em Portugal», Fernando Madaíl, Diário de Notícias, 23.05.2012, p. 12).
[Texto 1574]

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