O discurso dos finalistas

Enquanto o futuro não chega

      Na Alameda da Universidade, ontem, o cardeal-patriarca deixou mensagem de esperança a estudantes durante a Bênção de Finalistas. E que mensagem deixaram os estudantes? A repórter da RTP Catarina Dias Ribeiro escolheu-os bem. O primeiro, com a Torre do Tombo como cenário e impecável no seu traje académico, disse: «É uma concretização de objectivos a nível escolar, a nível académico. Ao fim ao cabo, é a abertura de uma nova etapa de vida, tanto profissional como pessoal em que vamos tentar concretizar os nossos sonhos e sagrar nas nossas áreas.» O segundo errou menos — porque felizmente falou menos: «Sabemos que o nosso mercado não anda muito bem. Talvez emigrar lá para fora.»
      Por sorte, a repórter não lhes perguntou o nome, que assim resvalará, sem pena de ninguém, à perpétua obscuridade.
[Texto 1557]

«De debaixo»

De novo, só para lembrar

      «Com a mesma rapidez de movimentos, Shukhov pendurou o capote numa viga e retirou o que desejava de debaixo do colchão: um par de luvas, um segundo par de palmilhas, um pedaço de corda e um farrapo com uma fita em cada extremidade» (Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, Alexandre Soljenitsin. Tradução de H. Silva Letra, revista por António Carlos. Lisboa: Círculo de Leitores, [1970], p. 32).
      No Assim Mesmo — lembram-se? — motivou 15 comentários, um pouco desencontrados. Por economia e eufonia, elida-se então. Sobretudo neste caso, com a dura sucessão de dd: «desejava de debaixo do».
[Texto 1556]

«As abas do gorro»

É isso mesmo

      «A geada tentava penetrar-lhe nos ouvidos através das abas do gorro, que ele tinha baixado mas não atara» (Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, Alexandre Soljenitsin. Tradução de H. Silva Letra, revista por António Carlos. Lisboa: Círculo de Leitores, [1970], p. 15).
      Ainda se lembra das «orelheiras», Montexto? Pois é, a história passava-se na antiga União Soviética, e seria mais provável que, em vez de boné, os prisioneiros usassem, naquele clima gélido do Cazaquistão, gorro. É que bonnet traduz-se por «gorro», que pode ter abas, e casquette é que é «boné» em português.

[Texto 1555]

«E ansiava por que...»

Um folhetim

      «Durante toda a noite não conseguira aquecer, e, mesmo no sono, sentira em dado momento que estava a piorar bastante, enquanto logo a seguir sentia que estava a melhorar. E ansiara porque a manhã não chegasse» (Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, Alexandre Soljenitsin. Tradução de H. Silva Letra, revista por António Carlos. Lisboa: Círculo de Leitores, [1970], p. 7).
      Não tinha de estar ali a preposição seguida da conjunção integrante? E ansiava por que... «Eu ansiava por que ele me abandonasse o jornal para ler o folhetim» (Confissão Dum Homem Religioso, José Régio. Lisboa: INCM. 2001, p. 55).
[Texto 1554]

Rochedo — sem aspas nem medo

Têm uma grande provisão delas

      «Uma opinião que a realidade desmente: 48 horas antes do almoço, a Rainha Sofia declinou o convite de Buckingham por causa do diferendo anglo-saxónico sobre Gibraltar e o direito das pescas nas águas territoriais do “Rochedo”» («Gibraltar separa as famílias reais britânica e espanhola», Diário de Notícias, 19.05.2012, p. 30).
      As aspas devem ser ancoragens para os escaladores chegarem ao topo...
[Texto 1553]

Miguel Ângelo — sempre!

Não para mim

      «A noite é o retrato da Dor, a Musa de Dante e Miguel Ângelo e a Mãe de todas as cousas...» (Obras Completas de Teixeira de Pascoaes, vol. 8, Teixeira de Pascoaes. Lisboa: Bertrand Editora, 1973, p. 204).
      Ih, que rematado ignorante! Ou não, apenas nasceu antes do tempo. Os modernos escrevem Michelangelo — porque assim é que se escreve, argumentam de forma tautológica. «O artista Phil Hansen usa alfinetes para “tatuar” cascas de banana e reproduzir conhecidas obras de arte. Uma das últimas obras do norte-americano foi A criação de Adão, pintura de Michelangelo que enfeita o teto da Capela Sistina» («Artista recria quadros famosos em bananas», Diário de Notícias, 19.05.2012, p. 48).

[Texto 1552]

Pontos cardeais no AOLP

Leiam e conversem

      Um dos dois está enganado, isso de certezinha:
     1. «Apesar da sua perspicácia, nem Legge deve ter percebido o que ali tinha. Pois Dietrich Fischer-Dieskau, que ontem faleceu no sul da Baviera, a dez dias de completar 87 anos, foi simplesmente um dos maiores barítonos (registo vocal entre o de tenor e o de baixo) e, em absoluto, o intérprete expoente do Lied (canção de câmara, com acompanhamento de piano) do século XX» («O maior cantor lírico que a Alemanha deu ao século XX», B. M., Diário de Notícias, 19.05.2012, p. 37).
      2. «A descoberta dos fósseis, em Cerrejon, uma região do Norte da Colômbia, e o estudo sobre eles foram publicados na revista científica Journal of Systematic Palaeontology por um grupo internacional de investigadores coordenado pelo paleontólogo Edwin Cadena, da Universidade do Estado da Carolina do Norte, nos Estados Unidos» («Tartaruga gigante tinha o tamanho de um ‘Smart’», Filomena Naves, Diário de Notícias, 19.05.2012, p. 26).
[Texto 1551]

Revisão nos jornais

Não há

      «A palavra “reality” não surge como um mero efeito anglófono. Trata-se, muito concretamente, de tratar uma conjuntura marcada pela reality TV, e, em particular, pelo poder mediático do programa Big Brother» («Os meandros da ‘reality TV’ no novo filme de Matteo Garrone», João Lopes, Diário de Notícias, 19.05.2012, p. 41).
      «Trata-se [...] de tratar»... Nada que uma leitura atenta não resolvesse. Sem revisão, era a única maneira de a coisa sair escorreita. Quanto a reality TV, hoje mesmo lê-se no Público: «Puseram ao largo o grotesco e aproximaram-se com ferocidade e ternura das personagens: Seidl, com Paradise: Love — o turismo sexual no Quénia — e Garrone, com Reality, a reality tv nas nossas cabeças» («Toca na mulher branca, despe o homem negro e cobre o grotesco», Vasco Câmara, 19.05.2012, p. 32).
[Texto 1550]

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