Ortografia: «cardiotoráxico»

Pois claro

      «Duas alunas, de 20 e 22 anos, da Universidade do Minho foram ontem atropeladas por um carro desgovernado, tendo o condutor fugido. Mais tarde entregou-se à PSP. Uma das vítimas foi para o Hospital de S. João, Porto, por precisar de cuidados na área cardiotoráxica» («Duas estudantes atropeladas em Braga», Diário de Notícias, 19.05.2012, p. 21).
      Se defendo (ver aqui) que todos os dicionários deviam registar as formas torácico e toráxico, é claro que não posso deixar de defender que cardiotoráxico é tão correcto como cardiotorácico.
[Texto 1549]

Sobre «institucionalizar»

Este ainda não

      «Fernando vivia no Seixal com três filhas, entre os nove e os 15 anos, que estarão ainda institucionalizadas à espera de que algum familiar as vá buscar, sendo que a mãe estava separada do pai há vários anos» («Pedófilo do Seixal matou-se na cela da prisão», Roberto Dores, Diário de Notícias, 19.05.2012, p. 21).
      Para os dicionários mais conhecidos (ou para todos?), institucionalizar ainda é apenas dar ou adquirir forma de instituição; oficializar(-se). Na acepção usada no artigo, é anglicismo semântico, de to institutionalize. Não servirá internar: pôr em colégio, asilo, hospital ou instituição psiquiátrica, como o define o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora?
[Texto 1548]

Um mundo uniforme

Fardos e palha

      Numa peça do jornalista João Botas no Telejornal de anteontem, ouvimos David Cameron falar da situação da Grécia e da Zona Euro: «Either Europe has a committed, stable, successful eurozone with an effective firewall, well capitalised and regulated banks, a system of fiscal burden sharing, and supportive monetary policy across the eurozone, or we are in uncharted territory which carries huge risks for everybody.» Nas legendas, pudemos ler: «Ou a Europa tem uma Zona Euro empenhada, estável e com êxito, com uma firewall eficaz, com bancos bem capitalizados e controlados, um sistema de partilha de fardos orçamentais e apoiando a política monetária em toda a Zona Euro, ou estamos num território desconhecido, o que acarreta enormes riscos para todos.»
      O mundo omnipresente da informática... Então firewall é intraduzível, sobretudo neste contexto? «Barreira de protecção» não seria mais adequado? E porque hão-de os burdens ser sempre «fardos»? Não podem ser «cargas» ou «pesos»?
[Texto 1547]

Redija-se outra definição

Porcofobia e jemão

       O laboratório do Instituto Politécnico de Bragança (IPB) aliou-se à indústria local (o pior é o nome: Bísaro Salsicharia!) para tentar produzir presuntos de cabra e de ovelha, que são menos gordos e mais proteicos do que os presuntos de porco. O projecto está ainda em fase de testes e os produtos destinam-se, ao que parece, a conquistar clientes árabes. Com isto, lá se vai a definição de presunto: «membro posterior do porco, depois de salgado, curado e seco». O termo «presunto» vem do latim perexutus, privado de todo o líquido. Dantes dizia-se, pelo menos no Alentejo, «jemão», sabiam? Há até o provérbio — Quem come presunto, come jemão. Os dicionários modernos perderam este verbete.
[Texto 1546]

«Vontade de/vontade em»

Mas também pode ser

      Jornalista Joana França Martins no Jornal da Tarde de ontem a propósito do lançamento de um livro, Peso, Uma Questão de Peso, das nutricionistas Paula Veloso e Teresa Maia: «Quase sempre a vontade em perder peso é o desejo de manter uma imagem.» Não é a regência mais usada, mas não é incorrecta, pois o povo também é assim que fala — ou falava, pois agora já não há povo, como sabemos. «Nunca tive vontade em casar-me. Ainda me calhava algum enxovedo na rifa que me amofinasse de contino», tive a sorte de ouvir a uma senhora idosa numa aldeia perto da Guarda.
[Texto 1545]

Sobre «bonzo»

Tubérculo ou hipócrita?

      «E o pior é que só num país de parolos e provincianos se pode pensar que os males feitos à paisagem poderiam algum dia ser mitigados entregando uma parte da obra ao lápis de um arquitecto premiado (Eduardo Souto Moura), a quem a EDP pagará o que for necessário para dar verniz ao empreendimento. Nunca será mais do que verniz, só que com a chancela de um bonzo da cultura indígena» («Regresso ao mundo real: o irrealismo de uma barragem», José Manuel Fernandes, Público, 18.05.2012, p. 52).
      Já li e ouvi algumas vezes, é certo, mas nunca me pareceu bem usado. Bonzo é um sacerdote budista ou, popularmente, homem hipócrita ou indivíduo impassível. De outro étimo, do quimbundo, temos também em Angola os bonzos, que é o nome dado à batata-doce cozida, com azeite, bananas e milho, vendida às portas das casas.
[Texto 1544]

Léxico: «charabiá»

Quase rebuscado

      «A etiqueta exige que o sr. Hollande receba uma “adenda” sobre crescimento ao “tratado orçamental” (que ficará no papel) e com isso terminará a sua radiante passagem pela crise. A imprensa económica anglo-saxónica, de resto, não se interessa pelo charabiá da França» («A pergunta», Vasco Pulido Valente, Público, 18.05.2012, p. 56).
      Charabiá significa algaravia. Curioso é que conste do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas não do Dicionário da Língua Portuguesa da mesma editora. Provém do francês charabia: «patois auvergnat» e, por extensão de sentido, «langage parlé ou écrit qui est ou qui semble incompréhensible parce qu’il est inconnu, incorrect ou hétéroclite».
      «É galicismo inútil, pois o têrmo francês vem justamente do esp.-port. algaravia», alerta a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.
[Texto 1543]

«Família militar»

Já estamos habituados

      «O atual Executivo — após anos de adiamentos e indecisões — aprovou a instalação do hospital militar único no Lumiar, tendo como missão prestar cuidados de saúde diferenciados aos militares das Forças Armadas e à família militar, assim como aos deficientes militares, podendo servir outros utentes ao articular-se com o Serviço Nacional de Saúde» («Aprovado hospital militar único», Diário de Notícias, 18.05.2012, p. 13).
       O jornalista confundiu um pouco as coisas: a curiosa expressão «família militar», em uso pelo menos desde o século XIX, não significa, como parece ter sido usada no artigo, os membros da família dos militares. Espantoso é como os jornalistas confundem tanto.
[Texto 1542]

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