Definição: «gaulês | etrusco»

Acabamos assim


      «De fato, sabemos que, no caso do Império Romano, povos que tinham uma grande variedade de idiomas próprios passaram a adotar só o latim (na parte ocidental do império) ou o grego (na parte oriental) como línguas da cultura e, mais tarde, do cotidiano. Entre as línguas extintas pela presença romana estão o etrusco, língua isolada (sem parentes conhecidos) da Itália, e o gaulês, idioma celta da atual França» («Idiomas podem ter alcançado pico de diversidade 3.000 anos atrás», Reinaldo José Lopes, Folha de S. Paulo, 27.07.2026, p. B10). 
      Idioma da Gália... Tentemos assim ➠ gaulês nome masculino LINGUÍSTICA língua indo-europeia do ramo céltico, hoje extinta, falada na Gália e noutras regiões da Europa Ocidental até cerca do século VI.
      Quanto ao ➠ etrusco nome masculino LINGUÍSTICA língua não indo-europeia, de classificação genética incerta, hoje extinta, falada na Etrúria e noutras regiões da península Itálica entre cerca do século VIII a. C. e o século I d. C.

[Texto 23 620]

Léxico: «irregular»

Mais do que irregular


      «Acelerando num Cherokee a cair aos bocados pelos três quilómetros de pista vazia a uma velocidade que, calculou Proctor, se o velocímetro estivesse a funcionar, indicaria cento e trinta quilómetros por hora, Todd foi durante uns poucos segundos gloriosos o arrojado irregular do deserto que em tempos fora» (Silverview, John le Carré. Tradução de Maria de Fátima Carmo e revisão de Clara Joana Vitorino. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2023, 3.ª ed., p. 72). 
      E que irregular é este? Podemos ter a certeza de que o leitor vai compreender? Não! O que vejo é que «combatente irregular» é a designação militar portuguesa perfeitamente estabelecida. Já vi que ficou de fora do verbete nos nossos dicionários, pelo que proponho ➠ irregular adjectivo de 2 géneros MILITAR que não pertence às forças armadas regulares de um Estado ou que actua fora da sua estrutura e organização.

[Texto 23 619]

Léxico: «ímbrex»

Porque é mesmo


      Na página 103 da obra A Presença Romana em Cascais, um território da Lusitânia Ocidental, Guilherme Cardoso e José d’Encarnação, está uma imagem de uma sepultura de criança sobre ímbrex. No caso, a Porto Editora já acolhe a variante ímbrice, mas a forma latina graficamente adaptada à acentuação portuguesa há muito que é usada pelos nossos arqueólogos. Assim, apenas faria a remissão ➠ ímbrex nome masculino ARQUEOLOGIA ver ímbrice. Mas não deixaria de propor uns ajustes à definição de ➠ ímbrice nome feminino ARQUEOLOGIA telha curva, geralmente de forma semicilíndrica, que, no sistema de cobertura romano, era colocada sobre os rebordos de duas tégulas contíguas, cobrindo e impermeabilizando a respectiva junção.

[Texto 23 618]

Léxico: «pedologia forense»

Orientação profissional


      «A história com cara de “CSI”, a série de TV sobre investigação de crimes, está no currículo da doutora em ciência do solo Samara Alves Testoni, 38, que começou neste ano a ministrar uma disciplina de graduação pioneira no país sobre essa técnica. A matéria se chama pedologia forense, ou seja, a ciência que estuda o solo aplicada a investigações no âmbito judicial» («Disciplina na Unesp ensina a usar análises do solo em investigações criminais», Laura Mattos, Folha de S. Paulo, 7.08.2026, p. A41). 
      A designação tem uso técnico consolidado e está documentada também em Portugal, nomeadamente em cursos da Universidade do Porto e em seminários da Associação Portuguesa de Ciências Forenses. Não se restringe necessariamente à investigação criminal: pode servir qualquer investigação com relevância jurídica ou judicial. E não é uma ciência, mas a esta hora já a jornalista também saberá. 
      Assim, proponho ➠ pedologia forense ramo da pedologia que aplica métodos de caracterização, análise e comparação dos solos à investigação de factos com relevância judicial, nomeadamente para determinar a proveniência de vestígios e relacionar pessoas ou objectos com determinados locais.

[Texto 23 617]

Definição: «autoclave»

E a pressão?


      «Meanwhile, the surgical instruments themselves are usually sterilised in a machine called an autoclave, which uses high-pressure steam. The steam is made from highly purified water, often distilled or deionised, because ordinary water can leave mineral deposits that affect the sterilisation process» («How is water sterilised for use in, say, surgery?», Irish Daily Mail, 30.09.2026, p. 39). 
      O cerne do conceito de autoclave está justamente naquele high-pressure steam, isto é, no vapor de água sob pressão. Ora, é precisamente esse elemento que está ausente da definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «aparelho de esterilização em que a água atinge temperaturas superiores a 100 °C sem ferver, por estar impedida a saída do vapor». Embora seja possível, sob pressão, a água permanecer no estado líquido a temperaturas superiores a 100 °C, não é essa circunstância que caracteriza a autoclave como aparelho de esterilização. O cerne do processo é a utilização de vapor de água sob pressão e a alta temperatura, elemento que a definição actual não explicita. 
      Assim, proponho ➠ autoclave aparelho de esterilização que utiliza vapor de água sob pressão, a temperaturas superiores a 100 °C. (Na realidade, a etimologia diz que vem do francês autoclave, composto de auto-, do grego autós, «mesmo; próprio», e -clave, do latim clavis, «chave».)

[Texto 23 616]

Definição: «aniridia»

Não é bem assim


      Como vimos no artigo anteriormente citado, nele se empregava também a palavra «aniridia». Ora, «aniridia» não está registada no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: encontramo-la apenas no Dicionário de Termos Médicos e em alguns dos dicionários bilingues da mesma editora. No primeiro, porém, «aniridia» limita-se a remeter para «aniria», definida como «falta congénita de íris». Também aqui há alguma coisa a corrigir. A aniridia congénita não corresponde necessariamente à falta total da íris. A Orphanet define-a como «malformação ocular bilateral congénita, caracterizada pela ausência completa ou parcial da íris». Há mesmo descrições especializadas que preferem falar em hipoplasia parcial ou quase completa da íris, lembrando que a aniridia é, na realidade, uma afecção que envolve várias estruturas do olho. Acresce que a aniridia pode também ser adquirida, designadamente em consequência de traumatismo ou cirurgia ocular. Assim, a definição «falta congénita de íris», além de demasiado absoluta quanto à ausência da íris, restringe o termo aos casos congénitos. 
      Parece, pois, justificar-se não só a inclusão de «aniridia» no Dicionário da Língua Portuguesa, mas também a revisão da definição. Uma formulação suficientemente abrangente poderia ser ➠ aniridia MEDICINA ausência total ou parcial da íris, de origem congénita ou adquirida. 
      Se se entender que o verbete deve descrever especificamente a doença congénita, que é de longe o emprego mais corrente do termo, então seria preferível ➠ aniridia MEDICINA malformação ocular congénita caracterizada pela ausência total ou parcial da íris.

[Texto 23 615]

Definição: «ceratopatia»

E vamos por aqui fora


      «Um novo tratamento com células-tronco para uma doença ocular progressiva fez com que os pacientes conseguissem ler cinco linhas a mais em um teste de acuidade visual padrão — oferecendo uma nova esperança para quem já havia esgotado todas as opções terapêuticas disponíveis» («Nova técnica com células-tronco melhora visão na ceratopatia associada à aniridia», Julie Stewart, Medscape, 28.09.2026). 
      Está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora (talvez fugido do Dicionário de Termos Médicos): «MEDICINA qualquer doença da córnea». Padece do mesmo mal ou limitação das definições de outros dicionários: esquecem-se de que -patia tem um valor um pouco mais amplo: designa uma afecção, alteração ou perturbação patológica, não necessariamente uma doença entendida como entidade nosológica autónoma. Isso vê-se bem em expressões como «ceratopatia de exposição», que é descrita como lesão/dano da córnea causado pela exposição prolongada da superfície ocular. À prova de bala é a definição «MEDICINA afecção da córnea». É melhor do que «qualquer doença da córnea» por duas razões: afecção abrange doença, alteração, anomalia, degenerescência, etc.; e «qualquer» é dispensável numa definição deste género. Se ceratopatia é uma afecção da córnea, naturalmente qualquer entidade que caiba nessa classe pode receber a designação. 
      (Na versão para dispositivos móveis do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, porém, espera-nos uma surpresa: em «ceratopatia», sob «VEJA TAMBÉM», surge «ageustia»; em «ageustia», surge «amnistia»; e em «amnistia», por sua vez, «agalactia». Na versão para computador percebe-se o que aconteceu: são palavras apresentadas sob a rubrica «rimam com». Alguma coisa se perdeu na passagem para os dispositivos móveis e uma cadeia de rimas transformou-se numa cadeia de remissões. Obra da desinteligência artificial?)

[Texto 23 614]

Léxico: «soldadinho-do-araripe | sauim-de-coleira | boto-tucuxi»

Começamos com esta tripla


      «Símbolos da biodiversidade brasileira, a arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus) e o tucuxi (Sotalia fluviatilis) entraram para a lista de espécies da fauna ameaçadas de extinção. [...] A nova lista, porém, não traz só más notícias: animais como o soldadinho-do-araripe (Antilophia bokermanni), o sauim-de-coleira (Saguinus bicolor) e a baleia-franca-austral (Eubalaena australis) tiveram sua categoria de ameaça reduzida» («Arara-azul e boto-tucuxi entram na lista de espécies do país ameaçadas», Jéssica Maes, Folha de S. Paulo, 10.09.2026, p. A48).

[Texto 23 613]

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