Léxico: «fabiano | fabianismo»

Mas tem remédio


      Uma destas noites, na BBC4 estavam a falar dos fabianos, termo, aliás, que usei aqui recentemente. Ora bem, a Porto Editora acolhe-o, mas o verbete padece de vários males: não o regista também como adjectivo, a etimologia geral que está no verbete não é aplicável a todas as acepções e sobretudo — anotem — não remete para «fabianismo», pois que não tem este verbete. Assim, proponho ➠ fabiano adjectivo e nome masculino POLÍTICA relativo ao fabianismo; partidário do fabianismo | fabianismo nome masculino POLÍTICA corrente socialista reformista surgida no Reino Unido com a fundação da Fabian Society, em 1884, que defende a transformação gradual da sociedade por meio de reformas democráticas e da acção política, em oposição à via revolucionária. 
      Quanto à etimologia, vem do inglês Fabianism, de Fabian Society, nome inspirado em Quinto Fábio Máximo Cunctator (c. 280-203 a. C.), general e estadista romano cuja estratégia militar privilegiava o desgaste gradual do adversário e evitava o confronto directo.

[Texto 23 319]

Léxico: «galão»

Do dia-a-dia, como se vê


      «Simone Rossi já utilizou as máquinas “várias vezes” e, quando foi abordada pela Renascença, preparava-se para o fazer de novo. “Faço porque não tem opção, senão não faria. Mas, atualmente, eu evito comprar garrafas e opto por galões [garrafões].” Recipientes com mais de três litros de capacidade não são abrangidos pelo sistema» («Três meses de sistema Volta. “Revolucionário” ou “um fracasso”?», Rádio Renascença, 20.07.2026, 8h15). 
      Ora, Porto Editora, tu ignoras este galão recipiente de plástico, geralmente com asa, destinado ao acondicionamento e transporte de líquidos; jerricã; bidão.

[Texto 23 318]

Definição: «tuneladora»

A desproporção


      «La roue métallique mesure près de 6 mètres de diamètre pour environ 1 mètre d’épaisseur. Peinte en bleu et rouge, elle trône à l’entrée du site industriel de l’entreprise Bessac, à Saint-Jory, à une vingtaine de kilomètres de Toulouse. Bessac est une rareté en France, mais également en Europe : c’est un fabricant de tunnelier, ces énormes machines qui creusent des tunnels. Leur pièce principale est la fameuse roue de coupe, exposée chez Bessac, qui permet de casser, broyer, concasser la roche» («Bessac, cet industriel français qui vend ses tunneliers sur tous les continents», Emmanuel Egloff, Le Figaro, 25.06.2026, p. 24).
      E pensar que os nossos dicionários dizem tão pouco sobre as tuneladoras. Proponho ➠ tuneladora máquina de grande porte, dotada de uma cabeça rotativa de corte, utilizada na escavação mecanizada de túneis em diversos tipos de terreno ou rocha, podendo simultaneamente instalar o revestimento do túnel conforme avança.

[Texto 23 317]

Definição: «eusquera»

Nós tão-pouco


      «Una de las grandes polémicas de esta Selectividad se ha producido en el País Vasco, donde casi 170 alumnos han visto amenazados sus planes de futuro por culpa de haber sacado un cero en euskera» («“Mamá, no entiendo al profesor cuando habla euskera”», Beatriz L. Echazarreta, ABC, 26.06.2026, p. 66). 
      Para não termos também nós uma nota baixa, Porto Editora, vamos proceder a algumas alterações, e desde logo deixarmos de afirmar que é uma «língua sem filiação demonstrada», uma vez que hoje em dia a bibliografia linguística especializada emprega quase invariavelmente a designação «língua isolada» (language isolate). Assim, proponho ➠ eusquera LINGUÍSTICA língua isolada, sem parentesco geneticamente demonstrado com qualquer outra língua conhecida, de estrutura gramatical ergativa e morfologia predominantemente aglutinante, falada no País Basco, em parte de Navarra e no Sudoeste de França; basco, vasco, vasconço.

[Texto 23 316]

Léxico: «a revezes / às revezes»

Por vezes, não chega


      «O remorso pôde mais com ela que a selvageria da sua virtude: mas ainda viveu seis anos com reveses de demência, e morreu em casa de seus irmãos em Santa Maria de Covas de Barroso, repelindo o marido desde que lhe ouvira dizer: “A rapariga faz-me falta porque não tenho quem me governe a casa”» (Contos de Camilo Castelo Branco. Selecção, prefácio e notas de Jacinto do Prado Coelho. Lisboa: Editorial Verbo, 1963, p. 88). 
      Cá temos um caso em que uma licenciatura em Filologia Românica pode não ser suficiente para discernir as coisas. Há-de parecer, se não se pensar muito no caso, que é mesmo «reveses», porque a demência é sempre, no mínimo, um revés. Mas o que Camilo, que também nunca dominou a ortografia, escreveu e pretendeu escrever e acertou escrevendo foi «revezes». A Porto Editora acolhe «revezes», mas apenas como elemento da locução adverbial a revezes, que diz significar «cada um por sua vez, ora um, ora outro». Na realidade, a mesmíssima locução (com a variante às revezes) também significa «de vez em quando, vez por outra; às vezes». Interpretação que é confirmada por outra frase já perto do fim: «Esta mulher tinha intermitências de loucura; mas, nos períodos de lucidez, passava mais amargurada porque chorava sempre pela filha.» É preocupante que já não tenhamos em Portugal dicionários que nos permitam ler cabalmente uma obra de finais do século XIX.

[Texto 23 315]

Léxico: «bute»

Não só pé: pontapé


      Quando os bêbados que estão na tasca da Lauriana, nas suas conversas tantas vezes sem nexo, como pude assistir também noutro século e noutro lugar, brigam com a própria sombra, diz um: «Persegue-me, anda, persegue-me, que levas dois butes.» Acertaram: A Ruiva, de Fialho de Almeida. Pelo que vejo, Porto Editora, obrigas-nos a ir consultar dicionários brasileiros, já que não acolhes «bute» neste sentido. Não falta muito para um leitor menos lido não conhecer nem encontrar nos nossos dicionários muitos termos usados em obras literárias de todo o século XIX e até meados do século XX. 

[Texto 23 314]

Léxico: «estribo»

Dois séculos decorreram


      «Há ainda um afrouxamento peculiar: no apeadeiro de Porta Nova as UTE passam a 10 km/h para os estribos não baterem na plataforma de embarque. E na linha 3 da estação de Olhão descobriu-se que as novas automotoras também não cabiam e estão agora a decorrer obras para corrigir as plataformas» («Comboios eléctricos chegam ao Algarve: “Isto é muito melhor. É incomparável”», Carlos Cipriano e Ruben Martins, Público, 20.07.2026, p. 24). 
      Infelizmente, os estribos da Porto Editora ainda são anteriores ao comboio e a qualquer outro tipo de veículos modernos: «degrau à entrada de carruagens ou coches; estribeira». Portanto, não menos de 201 anos atrasada. Assim, proponho ➠ estribo degrau exterior que facilita a entrada ou a saída de um veículo; estribeira.

[Texto 23 313]

Léxico: «ciclosporíase»

Não andas muito longe


      «Os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos anunciaram que o surto de diarreia que afeta o país se deve a um parasita encontrado na alface vendida pela cadeia de ‘fast-food’ Taco Bell. [...] Mais de 1.600 pessoas em Indiana, Kentucky, Michigan, Ohio e Virgínia Ocidental contraíram ciclosporíase, uma doença que provoca, entre outros sintomas, “diarreia explosiva”, esclareceu a agência» («Parasita em alface gera surto de diarreia nos EUA», Rádio Renascença, 18.07.2026, 9h57).
       Fora dos nossos dicionários, logo ➠ ciclosporíase nome feminino MEDICINA doença parasitária intestinal causada pelo protozoário Cyclospora cayetanensis, transmitida principalmente pela ingestão de água ou alimentos contaminados, em especial frutas e hortaliças frescas, caracterizada geralmente por diarreia aquosa prolongada, cólicas abdominais, náuseas, fadiga e perda de peso.

[Texto 23 312]

Arquivo do blogue