Definição: «espevitador | espevitadeira»

Espevitemos


      Na página 72 da obra A Presença Romana em Cascais, um território da Lusitânia Ocidental, Guilherme Cardoso e José d’Encarnação, está uma imagem de um espevitador de lucerna de liga de cobre, com 75 mm, com características que não permitem enquadrá-lo na definição dos nossos dicionários. Assim, proponho ➠ espevitador 1. instrumento usado para espevitar, isto é, puxar, ajustar ou aparar o pavio de uma vela, candeeiro, lucerna ou outro dispositivo de iluminação; 2. espevitadeira.

[Texto 23 636]

Léxico: «meio-dia | poente, ponente»

Em dez, faltaram dois


      Aqui numa obra apareceram os nomes de vários ventos que se fazem sentir na Sicília. Safaste-te bem, Porto Editora, mas falta-te este ➠ meio-dia METEOROLOGIA vento que sopra de sul na região do Mediterrâneo, geralmente quente e húmido; austro; ostro. 
      E o poente, ou ponente, também fora dos dicionários? Neste caso, nem sequer ligado somente ao Mediterrâneo, pelo que proponho ➠ poente METEOROLOGIA vento que sopra de oeste; ponente.

[Texto 23 635]

Extras! Extras! Extras!

Agora milhões


      «Meo recebe 250 milhões extras no ano em que corta com 30% dos trabalhadores» (Diogo Cavaleiro, Público, 12.08.2026, p. 22).

[Texto 23 634]

Definição: «audiodescrição»

Cegos, pretos e a doentia normalidade


      «Yusuf Ali Osman voulait lui aussi découvrir la Tapisserie de Bayeux. Cet habitant de la banlieue de Londres a saisi un cabinet d’avocats pour contester l’absence d’un service d’audiodescription, jugeant que le célèbre musée londonien enfreignait la loi sur l’égalité (Equality Act), ont rapporté plusieurs médias britanniques. Le British Museum a annoncé mercredi la mise en place d’une visite guidée en audiodescription. Dans ces visites, le guide ne se contente pas de commenter l’histoire ou le contexte de l’œuvre, mais il la décrit de manière très précise» («Un visiteur fait plier le British Museum», Le Temps, 2.10.2026, p. 20). 
      Caído do céu, este artigo, que é quase uma abonação perfeita para mostrar o problema da divisão em duas acepções do vocábulo «audiodescrição» no dicionário da Porto Editora: «1. descrição verbal do conteúdo visual de uma obra de arte, de uma manifestação cultural (filme, peça de teatro, etc.) ou outra, feita com o objectivo de o tornar acessível a pessoas invisuais ou com sensibilidade visual diminuída; 2. descrição verbal de elementos visuais (gráficos, mapas, etc.) apresentados em aula, palestra, conferência, etc., feita com o objectivo de tornar o seu conteúdo acessível a pessoas invisuais ou com sensibilidade visual diminuída». 
      No artigo, audiodescription refere-se à descrição minuciosa da Tapeçaria de Bayeux durante uma visita guiada ao Museu Britânico. Pela redacção actual do dicionário, onde a encaixaríamos? A primeira acepção, por mencionar «obra de arte» e «manifestação cultural», ainda poderia acolhê-la, embora esteja claramente concebida sobretudo a pensar no cinema, no teatro e em manifestações afins; a segunda circunscreve-se a elementos visuais apresentados «em aula, palestra, conferência, etc.». Uma visita a um museu fica, pois, mal acomodada nestes compartimentos — e, levada às últimas consequências esta maneira de definir, justificaria uma terceira acepção. Amanhã, outro contexto justificaria uma quarta. 
      O que importa é identificar o núcleo semântico comum, não multiplicar acepções conforme se multiplicam os contextos de uso. O próprio artigo, sem o pretender, quase nos oferece esse núcleo ao explicar em que consiste a audiodescrição: «le guide ne se contente pas de commenter l’histoire ou le contexte de l’œuvre, mais il la décrit de manière très précise». Ou seja, o que define audiodescrição não é onde ocorre nem que espécie de objecto está a ser descrito, mas a conversão de informação visual em informação verbal para a tornar acessível a quem não a pode apreender visualmente. 
      Tudo visto, proponho ➠ audiodescrição descrição verbal de informação visual, destinada a torná-la acessível a pessoas cegas ou com baixa visão. 
      Para me antecipar a objecções e melindres, devo dizer por que opto intencionalmente por «pessoas cegas ou com baixa visão». É esta a terminologia usada pela própria ACAPO, que considera «invisual» um eufemismo desnecessário e desaconselha o seu uso. É um daqueles casos em que o escrúpulo de quem nomeia acaba por se afastar da preferência de quem é nomeado. Faz-me lembrar o nosso cuidado em evitar «preto» em favor de «negro», quando ainda há dias a própria Blaya perguntou sem rodeios, a propósito dos Globos de Ouro: «Não há pretos? Em 200 e 500 pessoas, há para aí três pretos?»

[Texto 23 633]

Léxico: «interditação»

Como se não existisse


      «A praia dos Mosteiros, nos Açores, reabriu a banhos, depois de ter estado interditada, desde 31 de julho, devido “a contaminação microbiológica”, pela terceira vez desde o início da época balnear» («Praia açoriana dos Mosteiros reabre a banhos após terceira interditação», Rádio Renascença, 7.08.2026, 11h35).
      É de estranhar que «interditação», palavra presente no uso há pelo menos um século, tenha escapado às malhas de quase todos os dicionários, tanto em Portugal como no Brasil. Formação perfeitamente regular de «interditar», encontra-se documentada pelo menos desde 1929, então sob a grafia «interdictação», pois claro, e continua hoje bem viva. É particularmente frequente na linguagem administrativa — basta percorrer avisos e comunicações de câmaras municipais —, mas ocorre igualmente em textos jornalísticos, jurídicos e técnicos, em construções tão diversas como interditação de banhos, interditação de acesso, interditação de trânsito ou interditação do exercício de actividade. O facto de coexistir com o muito mais frequente «interdição» não constitui razão para ignorar uma palavra com uso efectivo, continuado e diversificado. Assim, proponho ➠ interditação nome feminino acto ou efeito de interditar.

[Texto 23 632]

Léxico: «hexafólio»

Toma este


      Na página 118 da obra A Presença Romana em Cascais, um território da Lusitânia Ocidental, Guilherme Cardoso e José d’Encarnação, está uma imagem de uma verga de porta de templo cristão, decorada com hexafólios. Assim, proponho ➠ hexafólio nome masculino ARQUITECTURA, ARTES DECORATIVAS motivo ornamental formado por seis folhas, pétalas ou lóbulos dispostos radialmente em torno de um centro, frequentemente inscrito num círculo. (Quanto à etimologia, vem de hexa-, do grego héx, «seis», + -fólio, do latim folĭum, «folha».)

[Texto 23 631]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Era livros destes que a tal professora do terramoto devia ler, para não confundir verga ou padieira com ombreiras.


Léxico: «pão eucarístico»

Sobre rodas


      «Na arquidiocese de Monterrey, uma carrinha foi transformada numa pequena capela itinerante. Lá dentro há um confessionário privativo na parte central e um oratório sagrado na parte traseira com espaço para quatro pessoas, no qual o Santíssimo Sacramento é reservado, se pode celebrar missa e fazer adoração eucarística. [...] A capela sobre rodas leva o pão eucarístico, mas ao aproximar-se das pessoas, ouve-as e conhece também as suas necessidades materiais» («E se a Igreja tivesse rodas?», Família Comboniana, Out.-Nov.-Dez. de 2026, n.º 300, p. 3). 
      Nos dicionários deste lindo país católico, nada de nada. Assim, proponho ➠ pão eucarístico RELIGIÃO pão destinado à celebração da Eucaristia e que, depois da consagração, constitui a espécie eucarística sob a qual, segundo a doutrina católica, está presente o corpo de Cristo.

[Texto 23 630]

Definição: «esférula»

Muito para alterar


      «Após a colisão, uma pluma de rocha vaporizada se expandiu para além da atmosfera e distribuiu material ao redor da Terra. Durante o resfriamento, parte dele formou esférulas —gotículas de rocha derretida com cerca de 250 micrômetros de diâmetro. Ao reentrarem na atmosfera a vários quilômetros por segundo, elas desaceleraram, convertendo sua energia cinética em calor» («Impacto de meteorito que levou ao fim de dinossauros teria gerado incêndios globais», Ana Bottallo, Folha de S. Paulo, 5.08.2026, p. A41).
      Esférula, para a Porto Editora, é isto: «1. pequena esfera; 2. gota; 3. BOTÂNICA receptáculo de forma oblonga ou cónica de alguns vegetais». Que eu saiba, uma gota só é uma esférula quando constitui um pequeno corpo aproximadamente esférico, pelo que fica abrangida pela primeira acepção. Suprima-se. E tem de se acrescentar a acepção (que será a 2.ª) do artigo. Assim, proponho ➠ esférula 1. pequeno corpo ou objecto de forma esférica ou aproximadamente esférica; pequena esfera; 2. CIÊNCIAS pequena partícula, estrutura ou formação de dimensões reduzidas e aproximadamente esférica, de natureza mineral, vítrea, metálica, biológica, etc., natural ou artificial; 3. MICOLOGIA designação antiga de perídio globoso de certos fungos, provido de uma abertura por onde são libertados os esporídios.

[Texto 23 629]

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