Léxico: «cheiíssimo | seriíssimo | ...»

Eu já pensei


      O panorama é este: a Porto Editora não acolhe nem promete acolher «chessimo». Mas promete registar brevemente «serssimo». Até aqui, não tem muito que criticar. Bem, um bocadinho. Contudo, vejo que usa a forma menos consensual (e não recomendada) «cheíssimo» em alguns verbetes de dicionários bilingues. Ao Houaiss, em contrapartida, poucos escapam: cheiíssimo, feiíssimo, friíssimo, maciíssimo, necessariíssimo, ordinariíssimo, precariíssimo, seriíssimo, sumariíssimo, vadiíssimo, variíssimo... Decerto, alguns admitem variantes, mas não quanto a «cheiíssimo». Pensem nisso.

[Texto 23 360]

Palavras que podíamos ter: «meridiação»

Não aconteceu


      Podíamos ter, em vez de «sesta» (afinal, tão espanhola como chinesa), «meridiação». Costuma dizer-se que a sesta é um costume tipicamente espanhol, mas a verdade é bem menos folclórica. Dormir um pouco depois do almoço é um hábito comum a muitos povos, sobretudo nas regiões mais quentes. Os próprios Romanos já o praticavam e tinham até um nome para esse repouso do meio-dia: merīdiātiō, -ōnis (embora não seja rigoroso afirmar, como já vi, que o termo foi criado por Plínio, o Jovem, ou por Suetónio; ambos apenas o documentam). Se o português tivesse herdado esse vocábulo latino, hoje talvez disséssemos, muito naturalmente: «Vou fazer a minha meridiação.» A forma seria perfeitamente regular. A língua, porém, seguiu outro caminho. Acabámos por ficar com sesta, palavra que remonta à hora sexta romana, a hora do dia em que tradicionalmente se interrompia o trabalho para descansar. A «meridiação» nunca chegou a fazer esse percurso, mas bem podia tê-lo feito. A «meridiação» nunca chegou a nascer em português. Nem em nenhuma outra língua.

[Texto 23 359]

Pronúncia e etimologia: «horda»

Na verdade, acampamento


      Recomendo-te, Porto Editora, tendo em conta até o que ouvi hoje de manhã, que indiques a pronúncia da palavra «horda», que tem a vogal tónica aberta, como «corda». É uma indicação útil, já que não são raros os falantes que tendem a fechar o o por analogia com outras palavras. Vejo também que a nota etimológica pode ser melhorada: a glosa «guarda militar» é pouco rigorosa, pois orda significava antes «acampamento militar» ou «exército»; a origem é hoje geralmente enquadrada no domínio turco-mongol, e não apenas tártaro; a forma horda na língua de origem é discutível, uma vez que a proveniência do h- inicial permanece incerta; além disso, a nota omite a evolução semântica que conduziu do sentido original ao actual. 
      Assim, proponho ➠ do francês horde, «idem», do turco-mongol orda, «acampamento militar; exército», aparentado com o turco ordu, «exército».

[Texto 23 358]

Léxico: «abacial»

E evita perífrases


      «Chapiteau de l’abbatiale de Romainmôtier, avec une couleur retrouvée. Les pigments avaient été recouverts de gris sous la période bernoise», leio numa legenda a uma imagem na edição de 28.07.2026 do jornal suíço 24 heures. Poucos são os nossos dicionários e vocabulários que indicam «abacial» como nome. O VOLP da Academia Brasileira de Letras não deixa de o fazer. Assim, proponho ➠ abacial nome feminino igreja principal de uma abadia; igreja abacial.

[Texto 23 357]

Definição: «bilionário»

Posso falar com o gerente?


      A definição de «bilionário» no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora continua a merecer revisão. Segundo o dicionário, é bilionário «quem tem fortuna na ordem dos biliões (de euros, dólares ou outra unidade monetária)». Basta, porém, um único contra-exemplo para mostrar que a definição não é satisfatória. Um jornal de língua inglesa, ao referir-se a Mansa Musa, frequentemente apontado como o homem mais rico da História, estima hoje a sua fortuna em 300 a 400 mil milhões de dólares. Ou seja, converte o valor do seu património para uma moeda de referência actual antes de o qualificar. Ora, ninguém considera bilionário quem possua um bilião de rupias apenas porque atingiu esse número de unidades monetárias. O conceito depende do valor da fortuna, não da mera quantidade de unidades monetárias. A definição da Porto Editora continua, por isso, a confundir valor patrimonial com quantidade nominal de moeda.

[Texto 23 356]

Léxico: «zoofarmacognosia»

Toda a gente sabe


      «Based on the fact that animals use plants like these to treat themselves, plant biologists have coined the term ‘zoopharmacognosy’ – ‘zoo’ stands for animals, ‘pharmaco’ for medicines, and ‘gnosy’ for knowledge» («Zoopharmacognosy — when animals medicate themselves», D. Balasubramanian, The Hindu, 26.07.2026, p. 13). 
      É hoje bem conhecido que muitos animais recorrem espontaneamente a substâncias naturais para se tratarem. O artigo menciona, entre outros exemplos, orangotangos que aplicam plantas medicinais sobre feridas, chimpanzés que engolem folhas para combater parasitas, elefantes que mastigam folhas de orégãos para aliviar dores e aves que incorporam ervas aromáticas nos ninhos para afastar insectos. Assim, proponho ➠ zoofarmacognosia ZOOLOGIA, ETOLOGIA comportamento pelo qual certos animais seleccionam e utilizam espontaneamente plantas, minerais ou outras substâncias naturais para prevenir, aliviar ou tratar doenças, combater parasitas ou favorecer a cicatrização de feridas; automedicação animal.
      Quanto à etimologia, vem do inglês zoopharmacognosy, formado a partir do grego zôion, «animal», phármakon, «remédio; medicamento», e gnôsis, «conhecimento».

[Texto 23 355]

Definição: «lóbi»

Olhemos de novo para isto


      Entrou ontem em vigor a Lei do Lóbi (Lei n.º 5-A/2026, de 28 de Janeiro). Está assim na hora de revisitarmos o verbete no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «1. POLÍTICA actividade de quem, abstendo-se do exercício directo do poder público, procura influenciar aqueles que o exercem, no sentido de acautelar os seus próprios interesses; lobby, lobismo; 2. POLÍTICA conjunto organizado de indivíduos que desenvolve essa actividade; grupo de pressão; lobby». (E o itálico, pá?)
      Vejamos, no respeitante à primeira acepção: «os seus próprios interesses» é demasiado restritivo. Um lóbi pode defender interesses próprios ou alheios, ou interesses sectoriais, profissionais, económicos, ambientais, culturais, etc. Uma associação de doentes, uma ONG ambiental ou uma ordem profissional fazem lóbi sem defenderem necessariamente interesses próprios. Já «acautelar» é um verbo algo estreito. O objectivo pode ser promover, defender, representar ou favorecer interesses. Passando à segunda acepção, também aqui há um pequeno problema: nem todo o grupo de pressão é um lóbi, nem todo o lóbi é apenas um conjunto de indivíduos. Pode ser uma associação, uma empresa, uma federação, um sindicato, uma organização não-governamental, etc. Além disso, em ciência política costuma distinguir-se grupo de interesse de grupo de pressão, embora na linguagem corrente muitas vezes se confundam.
      Tudo visto e ponderado, proponho ➠ lóbi 1. POLÍTICA actividade consistente em procurar influenciar a elaboração, adopção, alteração ou revogação de decisões dos poderes públicos, sem participar directamente no exercício do poder, em defesa, promoção ou representação de interesses próprios ou de terceiros; lobismo; lobby; 2. POLÍTICA grupo, organização ou entidade que exerce a actividade de representação e defesa de interesses mediante a influência sobre as decisões dos poderes públicos; grupo de pressão; lobby.

[Texto 23 354]

Dia de calor cruel

Novo paradigma, novas palavras


      «Crianças se refrescam em parque aquático público no distrito de Edogawa, em Tóquio, nesta quinta-feira (23), enquanto ao menos seis locais do país registram a mesma magnitude nos termômetros; em 2026, japoneses passaram a usar uma expressão para descrever tamanha quentura: “kokushobi”, dia de calor cruel» («Com novo termo para designar altas temperaturas, Japão enfrenta dia de 40°C», Folha de S. Paulo, 24.07.2026, p. A44). 
      É uma legenda a uma imagem muito interessante, tão interessante quanto o fenómeno linguístico. No Japão já existia uma escala lexical bastante consolidada para os dias quentes: natsubi (25 °C ou mais), «dia de Verão»; manatsubi (30 °C ou mais), «dia de Verão intenso»; mōshobi (35 °C ou mais), «dia de calor extremo». Mas os 40 °C, outrora excepcionais, tornaram-se suficientemente frequentes para a Agência Meteorológica Japonesa entender que era necessário um novo termo oficial: kokushobi (酷暑日), literalmente «dia de calor cruel» ou «dia de calor impiedoso». O vocábulo foi adoptado este ano para os dias em que a temperatura máxima atinge ou ultrapassa os 40 °C.

[Texto 23 353]

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