Como se fala na televisão

E em todo o lado

      Dez Estados norte-americanos escolhem o candidato republicano para defrontar Barack Obama. A jornalista da RTP Márcia Rodrigues está lá. «É uma data especial. Chamam-lhe Superterça-Feira, em regra o dia onde se conhece o candidato do Partido Republicano à Casa Branca.» «O dia onde»! O meu favorito é Mitt Romney, porque o homem tem muitíssimo dinheiro, muito humor e algumas ideias: «Preciso do vosso voto, votai as vezes que vos deixarem...»
[Texto 1191]

Agora que não é agora nem logo

Now

      Joana Rombert, terapeuta da fala, esteve ontem no Bom Dia Portugal. Ah, sim, porque ontem foi Dia Europeu da Terapia da Fala. E deve-se ir ao médico de família ou directamente ao terapeuta da fala? «Pode ser directamente à terapia da fala. Agora, muitas vezes a criança pode ter que fazer um despiste auditivo.»
[Texto 1190]

Léxico: «mediclina»

Astrolábio náutico

      «Queria dizer: medicina, declina, l=declina, medulina?» Nada disso, Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Eu queria mesmo dizer medeclina ou mediclina. O Dicionário Houaiss responde: «alidada que gira em torno do centro do astrolábio».

[Texto 1189]

Sobre «fronda»

Anne d’Autriche e Mazarin!

      «Não sou economista, nem partilho do optimismo da casta. Mas há qualquer coisa nesta fronda anti-económica [sic] em 2012, unindo sectores à esquerda e à direita, que neste momento me parece leviana e primária» («A economia», Pedro Lomba, Público, 6.03.2012, p. 52).
      Para o Dicionário Houaiss, na versão em linha, a etimologia de «fronda» é o «fr. Fronde (1651) ‘revolta que estourou no início (1648) do reinado de Luís XIV (1638-1715) dirigida contra Anne d’Autriche e Mazarin; o nome do partido que a originou’». Anne d’Autriche e Mazarin! (Caro Paulo Araujo, é preciso corrigir o verbete.) Para três homónimos franceses, temos nós três vocábulos diferentes: «funda», «revolta» e «fronde».
[Texto 1188]

«Omissão de cadáver»

Claro que «omissão» é «falta»

      «O enfermeiro e militar da Marinha que confessou ter morto [sic] um director dos CTT, em 2007, foi ontem condenado por homicídio qualificado a 20 anos e seis meses de cadeia – por homicídio qualificado e omissão do cadáver – e terá de indemnizar os familiares da vítima» («Condenado autor do homicídio de director dos CTT», Público, 6.03.2012, p. 10). 
      Em Portugal, não é essa a expressão por que é designado o crime, pelo menos habitualmente. No Código Penal, art. 254.º, o verbo usado é «ocultar». No Brasil sim, é «omissão de cadáver», expressão corrente pelo menos na jurisprudência.
[Texto 1187]

«Racionar/racionalizar»

Raciocinemos

      «Mais de metade das culturas da Cova da Beira estão destruídas por causa da falta de chuva. A seca extrema faz com que as pastagens estejam secas. Os agricultores estão desesperados, as únicas reservas que tinham estão esgotadas», diz a repórter Sandra Salvado, da RTP. O agricultor Carlos Batista, por sua vez, diz: «Tenho um poço já seco, tenho controlado a água para as minhas necessidades, mas tem-se [sic] perdido algumas coisas. Tenho de racionalizar a água. Tem sido muito difícil.»
      Racionalizar significa submeter ao domínio da razão, tornar racional. Racionar é limitar a quantidade, distribuir ou usar de forma regrada.

[Texto 1186]

Ora toma: «Uso capitão»!

O novíssimo Público

      Sim, gosto do novo grafismo do jornal Público. Tem, porém, como os outros jornais, de mudar em aspectos muito mais importantes. Por exemplo? Idálio Revez escreveu hoje, e não parecia que estivesse a brincar: «No caso de Armação de Pêra, quando estão em causa equipamentos públicos, há dezenas de anos sob administração do Estado, “o que há fazer é o recurso ao uso capitão”, a legislação que confere a posse do [sic] parcela a quem lhe dá uso e cuida há mais de 15 anos. A proposta de compra, sublinha, “é mais uma negociata”» («Investigador da Universidade do Algarve defende que compra da praia não se justifica», I. R., Público, 5.03.2012, p. 54).
[Texto 1185]

Consoantes mudas

Já cansa repetir

      «Se a Comissão [da reforma ortográfica] encarregada de preparar a simplificação da ortografia portuguesa mantêm [sic] a letra p na escrita do vocábulo recepção, não há ofensa da pronúncia, nem para o Brasil onde soa a dita letra, nem para Portugal, onde não se pronuncia o p, mas se conserva a letra nula pela razão, que já cansa repetir, de que a consoante muda influi no som da vogal precedente, e assim tanto o brasileiro como o português reconhecerão na escrita a pronunciação que dão ao vocábulo» (Fatos da Língua Portuguesa, Mário Barreto. Rio de Janeiro: Presença Edições, 3.ª ed., facsimilada, 1982, p. 323).

[Texto 1184]

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