Sobre «fronda»

Anne d’Autriche e Mazarin!

      «Não sou economista, nem partilho do optimismo da casta. Mas há qualquer coisa nesta fronda anti-económica [sic] em 2012, unindo sectores à esquerda e à direita, que neste momento me parece leviana e primária» («A economia», Pedro Lomba, Público, 6.03.2012, p. 52).
      Para o Dicionário Houaiss, na versão em linha, a etimologia de «fronda» é o «fr. Fronde (1651) ‘revolta que estourou no início (1648) do reinado de Luís XIV (1638-1715) dirigida contra Anne d’Autriche e Mazarin; o nome do partido que a originou’». Anne d’Autriche e Mazarin! (Caro Paulo Araujo, é preciso corrigir o verbete.) Para três homónimos franceses, temos nós três vocábulos diferentes: «funda», «revolta» e «fronde».
[Texto 1188]

«Omissão de cadáver»

Claro que «omissão» é «falta»

      «O enfermeiro e militar da Marinha que confessou ter morto [sic] um director dos CTT, em 2007, foi ontem condenado por homicídio qualificado a 20 anos e seis meses de cadeia – por homicídio qualificado e omissão do cadáver – e terá de indemnizar os familiares da vítima» («Condenado autor do homicídio de director dos CTT», Público, 6.03.2012, p. 10). 
      Em Portugal, não é essa a expressão por que é designado o crime, pelo menos habitualmente. No Código Penal, art. 254.º, o verbo usado é «ocultar». No Brasil sim, é «omissão de cadáver», expressão corrente pelo menos na jurisprudência.
[Texto 1187]

«Racionar/racionalizar»

Raciocinemos

      «Mais de metade das culturas da Cova da Beira estão destruídas por causa da falta de chuva. A seca extrema faz com que as pastagens estejam secas. Os agricultores estão desesperados, as únicas reservas que tinham estão esgotadas», diz a repórter Sandra Salvado, da RTP. O agricultor Carlos Batista, por sua vez, diz: «Tenho um poço já seco, tenho controlado a água para as minhas necessidades, mas tem-se [sic] perdido algumas coisas. Tenho de racionalizar a água. Tem sido muito difícil.»
      Racionalizar significa submeter ao domínio da razão, tornar racional. Racionar é limitar a quantidade, distribuir ou usar de forma regrada.

[Texto 1186]

Ora toma: «Uso capitão»!

O novíssimo Público

      Sim, gosto do novo grafismo do jornal Público. Tem, porém, como os outros jornais, de mudar em aspectos muito mais importantes. Por exemplo? Idálio Revez escreveu hoje, e não parecia que estivesse a brincar: «No caso de Armação de Pêra, quando estão em causa equipamentos públicos, há dezenas de anos sob administração do Estado, “o que há fazer é o recurso ao uso capitão”, a legislação que confere a posse do [sic] parcela a quem lhe dá uso e cuida há mais de 15 anos. A proposta de compra, sublinha, “é mais uma negociata”» («Investigador da Universidade do Algarve defende que compra da praia não se justifica», I. R., Público, 5.03.2012, p. 54).
[Texto 1185]

Consoantes mudas

Já cansa repetir

      «Se a Comissão [da reforma ortográfica] encarregada de preparar a simplificação da ortografia portuguesa mantêm [sic] a letra p na escrita do vocábulo recepção, não há ofensa da pronúncia, nem para o Brasil onde soa a dita letra, nem para Portugal, onde não se pronuncia o p, mas se conserva a letra nula pela razão, que já cansa repetir, de que a consoante muda influi no som da vogal precedente, e assim tanto o brasileiro como o português reconhecerão na escrita a pronunciação que dão ao vocábulo» (Fatos da Língua Portuguesa, Mário Barreto. Rio de Janeiro: Presença Edições, 3.ª ed., facsimilada, 1982, p. 323).

[Texto 1184]

Sobre «exorável»

Desde o século XVI

      «É tambêm de notar que nos ficaram e subsistem no uso corrente vocábulos compostos cujos simples não são de nosso idioma. Dizemos inulto (de in e ultus, vingado), e não dizemos o primitivo ulto, e, como êste, outros muitos exemplos: invicto, immundo (de in e mundus, limpo). De uso freqùente é inexorável, mas dá-se o caso de que exorável, de exorabilis, o que se deixa vencer com rogar (de os, oris), se emprega pouco ou nada» (Fatos da Língua Portuguesa, Mário Barreto. Rio de Janeiro: Presença Edições, 3.ª ed., facsimilada, 1982, p. 229).
      Espanta que ainda subsista nos nossos dicionários.
[Texto 1183]

Léxico: «montícola»

Semelhante, sem dúvida

      «A modernização levada a cabo no Douro terminou com muitas práticas agrícolas já testadas ao longo das décadas ou até séculos anteriores. Uma das mudanças foi a opção por porta-enxertos mais vigorosos e produtivos, em detrimento do porta-enxerto tradicional, o montícula, muito mais resistente. Outra foi a introdução do sistema de condução da vinha em cordão, que é mais fácil de trabalhar, mas que é mais exigente para a videira» («No Douro recuperam-se práticas antigas para enfrentar os desafios climáticos», Pedro Garcias, Público, 4.03.2012, p. 6).
      Não encontro em nenhum dicionário, somente «montícola», que, contudo, só está dicionarizado na acepção de que é criado ou vive nos montes ou montanhas. Vejo aqui, contudo, que ao porta-enxerto (termo que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não acolhe) de nome Rupestris du Lot (Rup. du Lot) também se chama montícola.
[Texto 1182]

«Para lá disso»

Para lá disso, pra lá disso, 
palradiço...

      «A diferença de Mounier estava em que, para lá disso, propunha simultaneamente uma espécie de “socialismo cristão”, com o objectivo missionário de regenerar o proletariado, horrivelmente oprimido por um capitalismo sem alma, e o reconduzir a uma associação amigável de produtores (de patrões, claro, e de trabalhadores), ou seja, de uma forma qualquer de corporativismo» («Obra meritória», Vasco Pulido Valente, Público, 4.03.2012, p. 56).
      «Para lá disso». Não é lá muito eufónico, valha a verdade. Podia ser pior, olá se podia: «para além disso». Contudo, o simples mérito relativo não chega.

[Texto 1181]

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