«Em boa verdade»

Pois é

      Repórter José Ramos e Ramos, no Telejornal de anteontem: «Cortam-se os legumes, pica-se a cebola, mas não estamos num restaurante. Em boa verdade, estamos no Mercado Municipal de Alvalade, em Lisboa.» As expressões em boa verdade e na verdade são sinónimas? Então porque é que eu não me vejo a usar a primeira, deveras curiosa, no contexto acima?
[Texto 1180]

AOLP90: um mal-entendido

Desgosta de algumas regras?

      «O novo acordo ortográfico», disse a jornalista Diana Palma Duarte no Telejornal de anteontem, «abala agora a Associação de Professores de Português. Não gostaram de saber que o secretário de Estado da Cultura desgosta de algumas regras e admite ajustamentos em alguns casos. Para Francisco José Viegas, as palavras geraram um mal-entendido. “Há uma leitura abusiva das declarações que eu fiz, e uma descontextualização clara dessas declarações. Aquilo que para nós é evidente é que existe um acordo ortográfico que está em vigor, e portanto, está em vigor desde 2012, e isso não está em causa, nunca esteve em causa nem poderá estar em causa.” O período de adaptação ao acordo termina em Dezembro. Portugal não vai rever as regras e se ajustamentos estivessem nos planos teriam de passar por todos os países lusófonos.» Por isso é que é um acordo, pois claro.
[Texto 1179]

«Perdão/com licença»

Pardon me

      Às 8 da manhã, a minha filha já me estava a dar lições. Arroto (é do Penicillium roqueforti) e digo «com licença». «Não se diz “com licença”, papá, diz-se “perdão”.» «Neste caso, é igual», digo-lhe, mas ela tem uma teoria — ou mesmo uma tese, sei lá, Da Eructação e Formas Correlatas de Cortesia — e não se deixa convencer. Não hoje, pelo menos.
      «Parecia mais calmo, tornou a arrotar, até disse um “com licença” de bom agouro. Graças, meu Deus!» (O Pão não Cai do Céu, José Rodrigues Miguéis. Lisboa: Editorial Estampa, 1982, p. 154).

[Texto 1178]

Pronomes de tratamento

Vossa Beatitude

      No cartoon de Jeff Danziger que vem hoje na Pública, intitulado «Teologia moderna», o papa pergunta: «Que história é esta de o grande Presidente católico, John F. Kennedy, ter tido um caso com uma rameira de 19 anos?» «Bom», respondem-lhe, «é só a palavra dela sobre o caso, Vossa Senhoria». No original, «Well, there’s only her word that it happened, Your Grace...» Bem, quem traduziu não se preocupou em pensar nem em investigar. A forma de tratamento adequada é Vossa Santidade. Vossa Senhoria, que em Portugal não se usa, é de emprego praticamente residual, para autoridades não contempladas com tratamento específico.
      «A 19-year old trollop», lê-se no original. O Dicionário Inglês-Português da Porto Editora dá como tradução de trollop, um termo ofensivo, «prostituta; mulher desleixada». É pouco e fraco.
[Texto 1177]

«Lourinhanense»

Toma lá com a hapaxépia em cima

      «Carlos Lobo, da consultora Ernst & Young, e que foi secretário de Estado dos Assuntos Fiscais do Governo de Sócrates, é um lourinhanense por adopção. É ele quem tem dado apoio à autarquia no desenvolvimento deste projecto» («Lourinhã quer parque temático dedicado aos dinossauros em 2013», Carlos Cipriano, Público, 3.03.2012, p. 25).
      «Lourinhanense»? Isto não está a precisar que se lhe suprima uma sílaba? Não chega «lourinhense»? Imaginem: bondadoso, caridadoso, estendedal, idadoso, maldadoso, piedadoso, saudadoso, vaidadoso...

[Texto 1176]

Itálico

É claro que não é preciso

      «As leis memoriais abriram uma corrida entre “memórias concorrentes”, exacerbando velhos conflitos históricos ou de identidade. Acusa Assouline: “Os lobbyistas e políticos de todas as áreas, que atiraram azeite para o fogo com a ajuda dos velhos combustíveis da demagogia por motivos eleitoralistas, deverão responder por esta nova restrição das liberdades intelectuais.”» («Políticos, juízes e verdade histórica», Jorge Almeida Fernandes, «P2»/Público, 3.03.2012, p. 12).
      Se a palavra está aportuguesada, caro Jorge Almeida Fernandes, para quê o itálico?

[Texto 1174]

Aspas, para que vos quero

Nunca se sabe, não é?

      «O Conselho Constitucional francês “chumbou” a lei sobre o genocídio arménio aprovada pelo Parlamento no dia 23 de Janeiro. Essa lei sancionava penalmente (multa e prisão) a contestação ou a minimização de um “genocídio reconhecido pela lei francesa”. O Conselho declarou-a inconstitucional por atentar contra a liberdade de expressão, “cujo exercício é uma condição da democracia”» («Políticos, juízes e verdade histórica», Jorge Almeida Fernandes, «P2»/Público, 3.03.2012, p. 12).
      Jorge Almeida Fernandes, autor próvido, pensou que o melhor seria usar aspas, não fosse o indígena ignorante julgar que o Conselho Constitucional francês tivesse soldado ou tapado ou guarnecido ou selado com chumbo a lei.

[Texto 1173]

Tradução: «redneck»

Por andarem a moirejar ao sol

      «O resultado desta experiência sociológico-humorística deu pelo nome de The Muslims Are Coming! [Os Muçulmanos estão a chegar!] e invadiu como uma praga alguns dos recantos mais redneck (fechados e conservadores) dos EUA» («Combater a islamofobia com uma gargalhada de cada vez», Susana Almeida Ribeiro, «P2»/Público, 3.03.2012, p. 7).
      O Dicionário Inglês-Português da Porto Editora dá como tradução de redneck, um termo depreciativo, «(agricultor branco) atrasado». É mesmo? Não será antes um norte-americano branco, pobre, agricultor ou não, das zonas rurais? Mas como traduziremos para ter o mesmo registo? «Labrego»?

[Texto 1172]

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