«Pensar»

Camilo e o penso


      Já aqui fizemos o jogo. Então, digam-me lá: qual das duas frases acham que Camilo escreveu — a 1 ou a 2?
      1. «Ele pensava isto pouco mais ou menos; mas não respondeu assim.»
      2. «Ele pensava nisto pouco mais ou menos; mas não respondeu assim.»
      Claro que quem tiver à mão o 2.º volume das Novelas do Minho de Camilo Castelo Branco (estou a usar a edição com fixação do texto e nota preliminar pelo Prof. Dr. Jacinto do Prado Coelho. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1971) saberá a resposta.

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Sobre «passagem»

E ele não sabia?


      «Examinei de novo o processo, e trasladei certas passagens que, alinhavadas a outras do referido livro, deram esta novela em que, por felicidade do leitor e minha, não há filosofia nenhuma, que eu saiba» (Novelas do Minho, 1.º vol., Camilo Castelo Branco. Fixação do texto e nota preliminar pela Dr.ª Maria Helena Mira Mateus. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1971, p. 195).
      Na acepção de frase ou trecho de um texto ou obra literária, passagem é ou não é galicismo? Mas Camilo não enjeitou o vocábulo.

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Cidade Maravilhosa

Fica agora a saber


      «O exército que invadiu o Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, foi acompanhado na subida ao morro por um igualmente numeroso batalhão de repórteres seniores demasiado habituados à violência da cidade maravilhosa. Tem sido, no entanto, um grupo de “jornalistas” menores de idade que, a partir do interior da favela, tem conseguido parte dos exclusivos informativos que revela ao Mundo pelo Twitter» («Adolescentes do Complexo do Alemão vencem batalha das notícias no Twitter», Alfredo Leite, Jornal de Notícias, 29.10.2010, p. 3).
      Não, desta vez não é sobre os «repórteres seniores». Alfredo Leite não saberá, mas na redacção alguém deveria saber que os prosónimos se escrevem com maiúscula inicial.

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Acordo Ortográfico

Todos os outros são falsos?


      «Natural do Porto, Helena da Rocha Pereira, 85 anos, está jubilada mas mantém uma intensa actividade. Trabalha 12 a 14 horas por dia. Ultimamente está empenhada na conclusão do Vocabulário da Língua Portuguesa da Academia de Ciências, o único instrumento que falta para o Acordo Ortográfico entrar definitivamente em vigor. Defensora das alterações à grafia, só reconhece um argumento a quem as contesta: “Compreendo que os escritores estranhem, particularmente os poetas que têm uma ligação muito próxima com a escrita.” Todos os outros são falsos» («No mundo dos clássicos», Paula Gonçalves, «Domingo»/Correio da Manhã, 22.11.2010, p. 44). Nesta entrevista, Maria Helena da Rocha Pereira defende ainda que as alterações são mínimas. «Uma das principais é a “perda das consoantes mudas, que não se ouvem”. Aquelas a que, já no século XVI, o autor da segunda gramática portuguesa tinha chamado ociosas, por achar que “não eram precisas”.»

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«Casar»

O povo e Camilo


      Então, digam-me lá: qual das duas frases acham que Camilo escreveu — a 1 ou a 2?
      1. «— Não case contra vontade de seu pai... Tenha pena dele, que está tão acabadinho...»;
      2. «— Não se case contra vontade de seu pai... Tenha pena dele, que está tão acabadinho...»
      Claro que quem tiver à mão o 1.º volume das Novelas do Minho de Camilo Castelo Branco, e pode ser a edição que tenho vindo a citar (com fixação do texto e nota preliminar pela Dr.ª Maria Helena Mira Mateus. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1971), saberá a resposta.

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Pronúncia: «líderes»

Os nossos queridos lídrs


      Na emissão de ontem do novo programa de informação da RTP2, Hoje, Cecília Carmo disse: «A promessa foi feita por José Luis Zapatero perante os líderes de 37 maiores grupos empresários [sic] espanhóis, entre eles vários bancos que se terão comprometido com o Governo a completar até dia 24 de Dezembro um processo de consolidação financeira.» Adivinharam: é a pronúncia do vocábulo líderes, que para a jornalista é /lídrs/. Aqui sim, o emudecimento é evidente e contrário ao português. O e da última sílaba da palavra líder é aberto — no singular e no plural.
      O Governo, dizia o primeiro-ministro espanhol, comprometeu-se a continuar a fazer as reformas estruturais. A seguir y algo más..., prometeu vagamente. Nas legendas: «A continuar e ainda mais...» Como é timbre dos políticos, fez mais promessas: «A levarllas a la práctica con la máxima celeridad posible.» Na legenda: «A implementá-las, etc.»

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Falsos cognatos

Então não


      A propósito do vocábulo catalão desesma, Vítor Lindegaard lembrou aqui (eu já tinha pesquisado, pois não conhecia o nome) que Manuel de Seabra é um tradutor especializado no catalão. E rematava: «Está explicado o catalanismo (isto existe?).» Bem, nesta acepção não está dicionarizado, mas não pode estar incorrecto. Ora vejam outro catalanismo naquela tradução: «Solómin estava sob suspeita — mas mandaram-no em paz por falta de provas. (Por outro lado, ele não evadiu julgamento e compareceu quando requerido.)» (Solo Virgem, Turguiénev. Tradução de Manuel de Seabra. Lisboa: Editorial Futura, 1974, p. 376). Evadir, em português, salvo melhor opinião, é sempre pronominal. Ao contrário de desesma, totalmente inexplicável, aqui estamos perante um falso amigo. Em catalão, cercar d’allunyar-se d’una situació desagradable, un problema, etc. Procurar fugir de...

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Centímetro cúbico

Consulta II


      «O piloto português Miguel Oliveira foi este domingo segundo classificado no Europeu de motociclismo em 125 cc, atrás do espanhol Maverick Viñales, que se sagrou campeão no circuito de Albacete, Espanha» («Miguel Oliveira vice-campeão europeu em 125 cc», Diário de Notícias, 26.10.2010).
      E este não é um erro tão grave como «grau centígrado»? O símbolo de centímetro cúbico não é, afinal, cm³? Que diz o meu leitor Fernando Ferreira?

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«Anarco-libertário»?

Consulta I


      «Apesar da lei em vigor não proibir que um manifestante oculte a sua identidade cobrindo a cara ou a cabeça, a PSP vai deter qualquer pessoa que o faça nos desfiles e manifestações anti-NATO previstas para os próximos dias. Os principais suspeitos têm um nome: anarco-libertários» («PSP vai deter quem se manifestar de cara tapada», Valentina Marcelino, Diário de Notícias, 16.11.2010, p. 8).
      Creio que a grafia anarcolibertário seria mais correcta (assim como, naturalmente, anarcossindicalista). É esta grafia, aliás, a do Acordo Ortográfico de 1990. Que diz o meu leitor Franco e Silva?

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«Big Bang/big bang»

Imagem tirada daqui
Poing!


      «No acelerador de partículas do CERN já começaram a ser produzidos mini-Big Bangs, fazendo colidir núcleos atómicos maciços de chumbo, acelerados até velocidades próximas da da luz» («Experiências no CERN indicam que Universo começou líquido», Clara Barata, Público, 25.11.2010, p. 22). Prefiro a grafia do Diário de Notícias: «No CERN não se criam só minibig bangs, como há dias aconteceu» («Antimatéria ‘caçada’ pela primeira vez no CERN», Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 32). E até há quem escreva bigue-bangue.

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«Alguém/ninguém»

Até ele


      «Era o fidalgo a única pessoa que exercia influência em Bento de Araújo, e tamanha que pudera arrancar-lhe alguns mil cruzados a juros, sob juramento de não dizer a alguém que lhos devia» (Novelas do Minho, 1.º vol., Camilo Castelo Branco. Fixação do texto e nota preliminar pela Dr.ª Maria Helena Mira Mateus. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1971, p. 213).
      Cá está o grande Camilo a dormitar. Sempre a elogiar a forma como o bom povo falava, e a trocar ninguém por alguém. Acontece aos melhores...

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Anedota

Se calhar foste tu

— Diz-me lá quem escreveu Os Lusíadas.
— Não sei, Sra. Professora, mas eu não fui — responde o aluno a gaguejar. E começa a chorar.
— Pois então, de tarde — diz-lhe a professora — quero falar com o teu pai.
Em conversa com o pai, a professora faz-lhe queixa:
— Não percebo o seu filho. Perguntei-lhe quem escreveu Os Lusíadas e ele respondeu-me que não sabia, que não foi ele...
— Bem — diz o pai —, ele não costuma ser mentiroso, se diz que não foi ele, é porque não foi. Já se fosse o irmão...
Irritada com tanta ignorância, a professora resolve ir para casa e, ao passar em frente do posto da GNR, diz-lhe o comandante:
— Parece que o dia não lhe correu muito bem...
— Pois não. Imagine que perguntei a um aluno quem escreveu Os Lusíadas e respondeu-me que não sabia, que não foi ele, e começou a chorar.
O comandante do posto:
— Não se preocupe. Chamamos cá o miúdo, damos-lhe um aperto, vai ver que ele confessa tudo!
Com os cabelos em pé, a professora chega a casa e encontra o marido sentado no sofá, a ler o jornal.
— Então, querida, o dia correu bem?
— Ora, deixa-me cá ver. Hoje perguntei a um aluno quem escreveu Os Lusíadas. Começou a gaguejar, que não sabia, que não tinha sido ele, e pôs-se a chorar. O pai diz-me que ele não costuma ser mentiroso. O comandante da GNR quer chamá-lo e obrigá-lo a confessar. Que hei-de fazer a isto?
O marido, confortando-a:
— Olha, esquece. Janta, dorme e amanhã tudo se resolve. Vais ver que se calhar foste tu e já não te lembras...!

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«Racional»?

Digam, sff


      «Descubro agora que no ano lectivo 2007/2008 o Estado subsidiou nesses termos 416 escolas com 21 milhões de euros, correspondentes a 25 995 alunos. Há quem garanta que se poupa assim dinheiro; partamos então do princípio de que agora que decidiu finalmente fazer as contas, o Estado saberá decidir em conformidade. Mas deixemo-nos de tretas: o racional que subjaz à defesa dos contratos com as escolas privadas está muito longe de ser o da poupança» («Aspas em privado, sff», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 26.11.2010, p. 9).
      Nunca antes vira o substantivo racional usado desta maneira, e tenho dúvidas sobre se é português. Já o viram por aí? Pergunto-o desmaliciosamente, atenção. Até pode ser que, depois de algum leitor caridoso me lembrar, atire uma sapatada à testa.

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«Por sua alta recreação», de novo

Pois, pois


      Na emissão de ontem do Lado B, José Diogo Quintela explicou a sua saída do jornal A Bola: «Escrevi um texto, o director d’A Bola, por sua auto-recreação, decidiu cortá-lo, sem me consultar, publicá-lo truncado dessa maneira, e eu pronto, disse: “Então, se você faz as minhas crónicas melhor que eu, assim editando, faça”.»
      É um erro que já passou por aqui e por aqui. Na verdade, é por sua alta recreação que se diz. Assim, se o que escreve não precisa de ser editado, pelo menos não dispensa o anónimo esforço da revisão.
      Não houve ali uma chispazinha que fosse de graça ou génio, e vê-lo fez as vezes de cozimento de papoilas, mas calo-me, porque é uma mera opinião e ninguém quer saber disso. Claro que já foi mais perigoso, olá se foi!, ousar beliscar a unanimidade em volta destes quatro felinos.

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Graus: Celsius ou centígrados?

Aplaudido


      No final da Edição das Dez, na TVI24, Henrique Garcia (de quem não gosto da voz trovosa, mas também não gosto dos novos óculos de Paulo Rangel e estou caladinho) falou da meteorologia, e disse sempre «graus Celsius». É, provavelmente, caso único em toda a televisão. Embora no Ciberdúvidas se diga que é indiferente graus Celsius e graus centígrados (mas, como noutras matérias, afirmam isto e o contrário), os entendidos que oiço e leio afirmam o contrário. Correcto é grau Celsius.

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Sobre «onde»

O candidato Onde da Silva


      Já aqui falei mais de uma vez da absoluta falta de propriedade no uso do advérbio onde, verdadeira maldição dos tempos modernos. Vejam este exemplo da boca de um ex-jornalista. À saída da visita que ontem fez a Cavaco Silva, o líder do CDS-PP, Paulo Portas, afirmou: «Os conhecimentos e a sabedoria que ele tem em matéria económica e de finanças públicas, a credibilidade, quer interna quer externamente, a moderação que sempre revelou e o sentido de Estado que teve no exercício do seu mandato presidencial são razões de sobra, sobretudo neste momento em que o País se encontra, para nós considerarmos que é o melhor candidato e portanto o candidato onde se deve votar.»

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Pronúncia: «equidade»

Não grite


      No programa de debate político Contra-Análise, na RTPN, Paulo Rangel e Correia de Campos falavam ontem de cortes salariais. Paulo Rangel usou várias vezes a palavra «equidade», como é, em semelhantes matérias, da praxe, e sempre com o e esgoeladamente aberto: /èquidade/. Lembrei-me logo das prevenções de João Araújo Correia: «Que bem que tu recitas, minha licenciada! Mas, porque dizes èrrores? (A Língua Portuguesa, João de Araújo Correia. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 28).

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Gramática

Nada mudará


      «Então, lacrado o sobrescrito, e definitivamente, o afamado homem de Letras confiou-lho, depois de muito e muito recomendar que por nadíssima deste mundo o perdesse, porque seria uma pena» (Tiros de Espingarda, Tomaz de Figueiredo. Lisboa: Editorial Verbo, 1966, p. 213).
      Deviam as gramáticas mudar só porque um escritor (dez, cem) acrescenta o sufixo -íssimo a um substantivo em vez de a um adjectivo? De modo nenhum. Coisíssima nenhuma.

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Acordo Ortográfico

O preço da rebeldia

«Imaginem esta palavra phase, escripta assim: fase.
Não nos parece uma palavra, parece-nos um esqueleto.»
Alexandre Fontes, A Questão Orthographica, Lisboa, 1910, p. 9

      Daqui a duas dezenas de anos, quando o próprio Acordo Ortográfico de 1990 já tiver sido revogado, sem repristinação do de 1945, teremos, ainda assim, quem, nos jornais e nas revistas, continue a escrever pelas regras deste. O que o Jornal de Letras, por exemplo, agora faz com alguns colaboradores. «Mantém-se, por sua solicitação, a ortografia do autor. Como dissemos quando anunciamos que passaríamos a seguir o novo Acordo Ortográfico, o prof. Vitorino Magalhães Godinho é das raras exceções que admitimos — até porque já vem de trás, dado que a ortografia que segue é anterior ainda à reforma de 1945.» A nota da redacção está aposta ao artigo «Portugal perdeu ou ganhou a Guerra de 14―18?» (JL, n.º 1047, pp. 34―35). Temos assim, neste texto, «notòriamente», «escolas de repetição creadas segundo plano de Pereira Bastos», «reune», «peùgada», «atribuidos», «fôrça», «fôsse», «esfôrço», «côres», «sistemàticamente», «subtituidas», «inclusivè», «requere», «fôssem»... Aqui e ali, uma falta de concordância — não permitida por nenhum acordo ortográfico... — assoma, e temos o remate que demonstra cabalmente que, como acontece com as crónicas de Rui Tavares no Público, os rebeldes, por mais respeitáveis, não são revistos: «Sem essas deliberadas acções de demolição da República, outro teria sido o seu futuro — decerto; mas não podemos perdermo-nos em simulações para refazer o passado.»

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«Solarengo/soalheiro»

Mais um inimigo


      «Estamos em Vila Nova de Cerveira. Sobe-se à serrania onde um cervo metálico se impõe aos humanos que se quedam ao fundo do vale, à beira-rio. O Minho espreguiça-se, úbere, direto à foz, sem pressas. É outono solarengo, ao contrário do primeiro parágrafo do texto do livro, bela frase» («Dos frades até às artes», António Loja Neves, «Atual»/Expresso, 13.11.2010, p. 34).
      Se o realizador, actor, jornalista e programador e — sobretudo, sobretudo — coordenador do Gabinete de «Copydesk» do Expresso António Loja Neves escreve assim, talvez esteja na hora de... nos revoltarmos! Calma, calma, estou a brincar, não quero mais inimigos. Pelo menos hoje. (Mas não aduzam, excepto como piada, como argumento de autoridade que o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, os dá como sinónimos.)
      «Para além da vidraça esmorecia um cristalino entardecer soalheiro, frio mas adoçado pelo seco da altitude» (Tiros de Espingarda, Tomaz de Figueiredo. Lisboa: Editorial Verbo, 1966, p. 205).

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Léxico: «relho»

Rio Varosa, onde Tomaz de Figueiredo pescou centenas
de belas trutas de pintas negras. Imagem daqui

Pesca à pluma


      «Eu próprio todo me pélo por sacar da babugem que orla as torrentes, e onde mosquinhas e efémeras sobrenadam, a truta de pintas pretas, dita da serra e denominada relho, vocábulo nem recolhido nos dicionários, mas que lá vem no Mapa de Portugal, do padre João Baptista de Castro, senhora dona truta, essa, que ao sentir-se ferrada até chia, negaceando-a, à inglesa, com uma march-brown, ou com o soajeiro bicho de pena de cuco, no extremo de uma seda dos Hardy Bros. Ltd, de Alnwick, afamados em todo o mundo» (Tiros de Espingarda, Tomaz de Figueiredo. Lisboa: Editorial Verbo, 1966, p. 40).
      É espantoso, eu sei, mas o certo é que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora recolhe o vocábulo: «truta pertencente a uma espécie pouco vulgar em Portugal, também conhecida por truta-marisca». Já o Dicionário Houaiss, sem relho nem trabelho, é caso para dizer, omite-o.
      A march-brown (ou march brown), de nome científico Rhithrogena germanica, não tem chamadoiro em português, ou Tomaz de Figueiredo sabê-lo-ia. Quando era notário em Tarouca, arrancou centenas de trutas ao rio Varosa.

[Post 4125]
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Particípios duplos

Lá acertam


      Às vezes, acertam: «Mais tarde, alguns manifestantes conseguiram subir ao telhado de um prédio adjacente, levando à intervenção da polícia, mas só ao final da tarde é que foram dispersos os manifestantes» («Estudantes atacam sede de conservadores», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 11.11.2010, p. 25). «O governo de Marrocos está a controlar o acesso de jornalistas ao país, tendoexpulsado do território diversos profissionais» («Jornalistas expulsos», S. P., Correio da Manhã, 13.11.2010, p. 43).

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«Replicar», de novo

Implicar com o replicar


      Por ocasião da Cimeira da OTAN, algumas agências bancárias do Parque das Nações blindaram as fachadas, titulava o Correio da Manhã. Contudo, do artigo concluía-se que fora, mais modestamente, apenas as superfícies vidradas, o que, apesar de tudo, costuma ser um pouco menos. E adiantava este jornal: «A mesma medida está a ser replicada por outros bancos e empresas, nomeadamente multinacionais» («Bancos blindam fachadas na Expo», Lurdes Mateus, Correio da Manhã, 13.11.2010, p. 15). Não chegava dizer que a medida estava a ser seguida ou imitada por outros bancos e empresas? Não respeitam nem a língua nem os leitores, estas almas negras.

[Post 4124]
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«Discrição/descrição»

Talvez passem na oral


      «A entrada das cerca de 80 prostitutas terá sido feita como se se tratasse das mulheres dos delegados georgianos e arménios. Segundo o CM apurou, quando os responsáveis do hotel perceberam que se tratava de prostitutas manifestaram-se incomodados e embaraçados com a situação, que foi resolvida com a descrição possível», Manuela Teixeira/Sónia Trigueirão, Correio da Manhã, 23.11.2010, p. 22).
      E qual é a descrição possível? «Estreia da Gauchinha! Luna 30tona. Boazona! Peitão XXL. Bumbum aliciante!» Ainda não sabem a diferença entre «discrição» e «descrição»?

[Post 4123]
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Revisão

Cão com pulgas


      «Uma praga de Escaravelho da Palmeira está a ameaçar mais de três mil árvores, públicas e privadas, no concelho de Cascais» («Praga ameaça palmeiras», E. N., Correio da Manhã, 23.11.2010, p. 21).
      E. N. também escreve «o meu Cão tem Pulgas»? Assim, até preferia que tivessem escrito em latim: Rhynchophorus ferrugineus. Revisão, mais uma infausta vez. Ou a falta dela.

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Nomenclatura científica

Absoluto desleixo


      «Maria foi de imediato transferida de helicóptero para o Hospital Pediátrico de Coimbra, tendo sido detectada a intoxicação de Amanita PHalloides, um cogumelo muito venenoso, semelhante a uma espécie típica na região conhecida como ‘roca’» («Criança intoxicada por comer cogumelos», Eugénia Pires, Correio da Manhã, 23.11.2010, p. 18).
      É lamentável que a maioria dos jornais tenha deixado de usar itálico, mas aqui temos outros erros, e um deles é relativo à nomenclatura científica, e, tanto quanto vejo, ninguém entre nós falou tanto desta questão como eu. Devia ser Amanita phalloides. E porquê as aspas em «roca»?

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«Colocar-se em fuga»

Duas vezes cegos


      Ou três: jornalistas, editores e revisores? «Após o crime, o condutor colocou-se em fuga, tendo anteontem sido detido pela Polícia Judiciária de Vila Real» («Jovem leva tiro a atravessar rua», Ana Isabel Fonseca/Tânia Laranjo, Correio da Manhã, 23.11.2010, p. 16).
      Quanto aos jornalistas, creio que nada há a fazer. Quanto aos revisores, é uma vergonha que não façam nada. Afinal são pagos para corrigirem ou para respeitarem os erros crassos dos jornalistas? Não lhes quadra nada o que está para lá do prefixo re-, por isso recegos em vez de revisores.

[Post 4120]
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Regência do verbo «acreditar»

Visto dessa maneira...


      «As autoridades acreditam em que os jovens foram assassinados pela mesma pessoa, mas não têm qualquer indício sobre os motivos de tão bárbaro crime» («Mistério envolve morte de jovens», Paulo Madeira, Correio da Manhã, 23.11.2010, p. 38).
      Transitivo indirecto, o verbo acreditar? Bem, talvez, mas hipercorrecção não é só exagero — é erro.

[Post 4119]

Actualização no mesmo dia

      O jornalista Alexandre Panda anda a ler os artigos do colega Paulo Madeira (ou será ao contrário?), e isso só lhe faz mal: «O Ministério Público de Felgueiras acredita em que ambos agiram em cumplicidade para que a ex-autarca recebesse as despesas que só lhe podiam ser reembolsadas depois da decisão judicial ter transitado» («Câmara pagou 83 mil euros a advogado», Alexandre Panda, Correio da Manhã, 23.11.2010, p. 34).



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Como se escreve nos jornais

Imagem tirada daqui

Dêem-nos um tiro


      «O grupo criminoso Comando Vermelho efectuou segunda-feira, pela segunda noite consecutiva, várias acções violentas no Rio de Janeiro. Na manhã de ontem, a polícia carioca constatou que cinco carros foram incendiados e a cabina de uma esquadra policial tinha sido alvejada com nada menos de 50 tiros» («Criminosos espalham o terror nas noites do Rio», Sérgio Barreto Motta, Diário de Notícias, 24.11.2010, p. 29).
      «Cabina de uma esquadra policial». Quantos leitores portugueses sabem de que se trata? O culpado não é, obviamente, o jornalista, mas sim a redacção do jornal. Sim, é o que a imagem em cima mostra. Uma espécie de quiosque. Haverá modelos diferentes, e creio que não são apenas para a Polícia Militar, e têm tantos confortos, que os agentes da polícia desejarão estar lá dentro todo o dia: blindadas, com ar condicionado, casa de banho química, forno microondas, frigobar, seteiras para armas, extintor de incêndios, sistema de comunicação com rádio, interfone... Enfim, nem desdenharia ser um valente polícia ali dentro.

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Ortografia: «Camboja»

Ajuizemos


      «Hoje é dia de luto no Camboja, um país em choque com a tragédia que marcou o final da Festa da Água. As causas do acidente ainda não estão explicadas, tendo sido aberta uma investigação. Aparentemente tudo terá começado com o rumor de que a ponte não era estável. A partir daí foi o caos, com as pessoas a serem pisadas ou a atirarem-se à água. O número de mortos pode aumentar. Ontem, as autoridades efectuavam buscas no rio Bassac» («Luto após tragédia no Camboja», Diário de Notícias, 24.11.2010, p. 31).
      Insensivelmente, ou talvez não, deixou de se usar na imprensa a grafia Cambodja — para estranheza até de juízes (a frase é interrogativa indirecta, não leva ponto de interrogação, Meritíssimo Senhor Juiz), que lamentam que o topónimo se afaste assim do inglês. Era caso para perguntar o que é que o cu tem que ver com as calças, mas eu não sou malcriado.

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Caracteres especiais

Mais um bom exemplo


      «Mais de 160 garrafas de champagne com cerca de 200 anos, recentemente descobertas no mar Báltico, foram recuperadas com o apoio técnico da Corticeira Amorim, que assegurou a substituição da rolha original por uma nova rolha de cortiça natural. O champagne, proveniente de um barco naufragado por volta de 1800, foi descoberto por mergulhadores em Julho a uma profundidade de 50 metros junto à costa do arquipélago Åland, uma região autónoma da Finlândia» («Rolha Amorim ajuda a preservar ‘champagne’ com 200 anos», Diário de Notícias, 24.11.2010, p. 38).
      Lembro-me sempre, nestes casos, de Fårö e especialmente de Nemanja Vidić, pois foi a propósito deste que um ignorante atrevido (sempre anónimos!) me ofendeu. Cada vez é mais vulgar — cada vez é mais fácil fazê-lo! — ver na imprensa estes caracteres especiais, como defendo. Arquipélago de Åland, pois claro.

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«Judeu», uma acepção

Já não há judeus


      «O Comendador, reloucado, ajoelhou no judeu e pôs as mãos, erguendo meia roupa e declarando a companheira, de costas e encotinhada, com a trança meio desfeita a separar-lhe as mamas de repolho espapado» (Tiros de Espingarda, Tomaz de Figueiredo. Lisboa: Editorial Verbo, 1966, p. 33).
      Esther Mucznik e todos os judeus portugueses (ou seja, uma boa parte de nós) ficarão contentes que esta acepção de «judeu» já não macule os dicionários, mas os amantes da língua terão opinião diversa. Judeu era o nome que o povo dava ao enxergão.

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Como se escreve nos jornais

Mais valia estarem quietos


      No jornal impresso, era assim que se podia ler: «Duas crianças de 13 anos foram interceptadas, pelo Destacamento de Trânsito da GNR de Leiria, a circularem de bicicleta na autoestrada do Norte (A1), próximo da área de serviço de Leiria» («Duas crianças fogem de bicicleta e entram na autoestrada», João Pedro Campos, Jornal de Notícias, 23.11.2010, p. 22). Já aqui tinha falado nesta questão. No jornal em linha, nenhuma correcção até esta hora. Por outro lado, no dia 13 do corrente, no jornal impresso lia-se isto: «Exmo. Snr. Pai Natal» (Paulo Baldaia, Jornal de Notícias, 13.11.2010, p. 23). Na edição em linha, alteraram e ficou assim: «Exmo. Sr. Pai Natal». Com tanta ignorância nos jornais, que podemos esperar?

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«Revistas do coração»

¡Hola!

      «Nada foi deixado ao acaso em Felipe e Letizia, da Telecinco. A promoção da série espanhola de dois capítulos foi intensa, desde a divulgação de fotografias da caracterização dos protagonistas ― Amaia Salamanca (ver caixa) e Fernando Gil ― e pôs Espanha inteira a falar do assunto, desde as revistas do coração aos jornais de referência. Nos dias da sua exibição lutou pelas audiências ao lado da série histórica Hispania, da Antena 3, e ambas conquistaram cerca de 5 milhões de espectadores» («As mentiras da série que encantou Espanha», Ana Carreteiro, Diário de Notícias, 16.11.2010, p. 54).
      Dantes, nunca se ouvia nem lia a locução «revistas do coração», era imprensa cor-de-rosa. Ahora, los portugueses disfrutan con los cotilleos y las noticias de las revistas del corazón. No caso, como o artigo é sobre um assunto espanhol, a jornalista não resistiu.
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Ordem dos apelidos

Cada vez mais iguais


      «Há nomes que dentro de poucas gerações vão desaparecer em Espanha. A responsabilidade é do Governo do primeiro-ministro José Luis Zapatero e da sua lei para acabar com a cédula familiar (conhecida em Espanha como Livro de Família). […] A lei, cuja entrada em vigor se prevê para 2012, estabelece o fim da prevalência do apelido do pai sobre o da mãe. Os casais que esperam filhos devem indicar qual dos apelidos é atribuído ao bebé e, na falta de acordo entre os pais, prevalecerá a ordem alfabética dos apelidos. Naturalmente, um apelido começado por “A” prevalecerá sobre um outro começado por “P” ou “T”» («‘Zapateros’ ameaçados de extinção», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 14.11.2010, p. 33).
      Como é que uma característica tão marcante da cultura espanhola vai ser assim mandada às urtigas? E por um motivo futilíssimo: a monomania da igualdade. Por outro lado, claro que é exagero melodramático temer-se que alguns apelidos acabem. Como cá também o nome da mãe pode figurar em último lugar, cada vez estamos mais parecidos: «Como Pedro, há mais 3036 bebés, dos 97 255 registados em 2010, que têm no nome o último apelido da mãe, representando já 3% dos registos. Se somarmos os últimos cinco anos são 22 544 as crianças registadas desta forma. Em Portugal, a escolha da ordem dos apelidos cabe unicamente aos pais, ao contrário de países como a Espanha em que a lei dá preferência ao apelido do pai (ver caixa ao lado). Por cá, a maior prevalência do nome do pai deve-se unicamente à tradição. […] Ainda assim, existem entraves para uma maior dimensão deste fenómeno. “A maior parte das pessoas nem sabe que se pode pôr o nome da mãe em último lugar e por isso nem colocam essa hipótese”, defende a socióloga [Ana Reis Jorge]» («3% dos bebés registados com último nome da mãe», Ana Bela Ferreira, Diário de Notícias, 22.11.2010, p. 12).

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«Deitar água na fervura»

Acalmar os ânimos


      «Um encontro semelhante sobre as ilhas Curilhas, entre o primeiro-ministro japonês e o presidente russo, Dmitri Medvedev, não teve resultados (ver pág. 35). Para colocar água na fervura, os russos dizem estar interessados em mais comércio com o Japão» («Obama apoia ambições do Japão na ONU», Luís Naves, Diário de Notícias, 14.11.2010, p. 32).
      Se até um jornalista como Luís Naves escreve desta maneira, bem podemos tirar o cavalinho da chuva — é uma causa perdida. Desta vez, nem sequer é confusão com o verbo «pôr», mas com outro. Então, caro Luís Naves, não é deitar água na fervura que se diz? Não é a brincar: vou mesmo emigrar. De longe, isto há-de ser muito divertido.

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«Bagatelas penais»

Uma expressão patusca


      «Dezenas de “bagatelas penais”, ou seja, crimes com moldura inferior a cinco anos de prisão, avançam em processo comum quando podiam ser resolvidos em processos sumários, mais céleres, como defende o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (ver caixa)» («Bagatelas penais entopem a justiça», Rute Coelho e Joana de Belém, Diário de Notícias, 14.11.2010, pp. 36-37).
      Havia de pensar-se, não fora aquela peremptória indicação da moldura penal, que é expressão jornalística (que poderá, na origem, ser), mas o próprio legislador usa-a, como aqui no preâmbulo do Decreto-Lei n.º 244/95, de 14 de Setembro: «Compreensivelmente, não pode o direito de mera ordenação social continuar a ser olhado como um direito de bagatelas penais.»

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Léxico: «ostreícola»

Apontem este


      «Um dos factores que condiciona [sic] a produção ostreícola no Sado é a reduzida quantidade de semente de Crassostrea angulata, levando o Instituto de Investigação das Pescas e do Mar (IPIMAR) a apontar como prioridade a colocação de colectores nos bancos naturais do estuário para a captação de juvenis, enquanto a produção de ostra portuguesa em maternidade é igualmente sinalizada como uma alternativa» («Pérola portuguesa ‘luta’ para renascer», Roberto Dores, Diário de Notícias, 14.11.2010, p. 44).
      É surpreendente que o Dicionário Houaiss não registe o vocábulo, quando não deixa de acolher «ostreicultura». Ostreícola, que diz respeito à cultura de ostras.

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Léxico: «sombreador»


É um neologismo


      Nova sede da EDP vai ser construída no aterro da Boavista: «Para além da evidente contrapartida estética, este jogo de perfis, vãos, vidros e sombreadores vai permitir ao edifício um elevado desempenho energético, que, associado à climatização inovadora e eficiente, vai reduzir o consumo de energia, comparativamente com um edifício standard semelhante» («A EDP não pára», Cláudia Melo, Diário de Notícias, 14.11.2010, p. 64).
      Mais uma lacuna nos dicionários: nenhum regista o vocábulo, necessário, porque serve para designar algo novo, sombreador. Que terá, pelo menos, duas acepções, pois, até agora, o que eu conhecia como sombreador é o que a imagem em cima mostra, e os sombreadores referidos no artigo do Diário de Notícias são lâminas, fixas ou móveis, de diferentes materiais, acopladas nos próprios edifícios.

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Ortografia: «sá-carneirista»

Nem pensar


      «A minha passagem pelo PSD», afirmou Paulo Portas na entrevista que deu ao Diário de Notícias, «é o efeito de uma convicção carismática. Eu nunca fui social-democrata, mas era “sá carneirista”. A personalidade política que me fez viver para a política chamava-se Sá Carneiro» («“Não é possível mobilizar o País com este primeiro-ministro”», João Marcelino, Diário de Notícias, 14.11.2010, p. 5).
      Recentemente, um espanhol a viver há doze anos em Portugal disse-me que os Espanhóis não são, na sua maioria, monárquicos, mas juancarlistas. Mentalmente, vi a palavra assim escrita. E foi assim grafada que a vi numa pesquisa. E sacarneirista vejo aqui e ali, mas defendo, por mais clara, a grafia sá-carneirista. Tudo, em todo o caso, menos como o director do Diário de Notícias escreveu.

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Léxico: «sique»

Imagem tirada daqui

É ao contrário


      «Os oficiais ingleses do exército indiano do vice-rei também pertenciam à classe média, embora os seus sipaios fossem recrutados nas casas militares do império: os rajputes, os siques, os muçulmanos do Punjabe» (Uma Introdução à Vida de Churchill, John Keegan. Tradução de Jorge Palinhos e revisão de Paulo Salgado Moreira. Lisboa: Tinta-da-China, 2007, p. 46).
      Esperamos mais estas adaptações na imprensa, mas é ao contrário: «Ontem em Amritsar, cidade indiana do estado do Punjabe e centro da religião Sikh, o dia foi de grande festa. Afinal de contas celebrou-se o 541º aniversário de Nanak Dev, o fundador e primeiro guru da religião Sikh. Nas imediações do famoso Templo Dourado, completamente iluminado para as cerimónias, o clima foi de celebração e oração, onde nem sequer faltou o fogo-de-artifício. Estima-se que actualmente existam cerca de 26 milhões de fiéis Sikh» («Fiéis da religião Sikh celebram aniversário do primeiro guru», Metro, 22.11.2010, p. 1).

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Acordo Ortográfico

A mortalha da língua


      «Mais uma reforma? Deus nos acuda. Cada reforma ortográfica é uma convulsão no idioma. Admite-se de século a século. De oito em oito dias, é demais... Antes brincar com fogo ou com bombas atómicas. Não há reforma ortográfica tão subtil que possa satisfazer qualquer inteligência. Todas têm defeitos. São obras humanas, eivadas de paixão, tocadas de bairrismo, não podem servir todos os intelectos. A de 1911, para mim, é a menos defeituosa. As seguintes, querendo corrigi-la, pioraram-na, principalmente a da mãi. A de 1945... Portugal perde nela, ainda hoje, o seu carácter. Mas, Deus a conserve. Outra que venha será porventura a mortalha da língua portuguesa» (A Língua Portuguesa, João de Araújo Correia. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 40).

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Revisão

Não vale a pena?


      «A presidente-eleita do Brasil escreveu uma carta ao Papa em que afirma que deseja ter “uma relação fecunda” com a Igreja Católica. A missiva, escrita por Dilma mas analisada e revisada pelo chefe de gabinete de Lula, Gilberto Nascimento, é uma forma de mostra não ter ficado ressentida com Bento XVI, que antes da segunda volta pediu aos fiéis para não votarem em quem defendesse o aborto» («Aproximação a Bento XVI», Domingos G. Serrinha, Correio da Manhã, 20.11.2010, p. 33).
      Então agora já não revêem o que um correspondente escreve, ainda por cima um correspondente que não redige segundo as normas do português europeu?

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Tradução

Mal traduzido


      «Nas declarações conjuntas com Cavaco Silva e José Sócrates, [Obama] voltou a irradiar simpatia, lembrando em Belém que Cavaco Silva é “comandante-em-chefe” das Forças Armadas e elogiando em S. Bento a liderança de José Sócrates no combate à recessão económica» («’Big Show’ Obama com Cavaco Silva e José Sócrates», Correio da Manhã, 20.11.2010, p. 9).
      «Comandante Supremo das Forças Armadas», lê-se na Constituição. Em português, porém, diz-se comandante-chefe.

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«Cocktail Molotov»

Novo mês, nova regra


      «A polícia entrou em confronto com centenas de manifestantes que respondiam com pedradas e cocktails molotov» («Percorrer o mundo para fazer a guerra à NATO», Hugo Filipe Coelho, Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 7).
      Até nem me parece mal que se escreva com minúscula, mas reparem que um mês antes haviam grafado com maiúscula: «Petardos, pneus, gás lacrimogéneo ou cocktails Molotov são alguns dos artefactos usados por grupos activistas nas cimeiras da NATO e Portugal não deverá ser excepção, estando a PSP a treinar para os enfrentar» («PSP prepara-se para confrontos com activistas anti-Nato», Diário de Notícias, 15.10.2010, p. 25).

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Aspas

Reflictam

      «Entre agentes da CIA e da segurança pessoal que já se deslocaram para Portugal há várias semanas, as equipas de análise de informações que têm estado a trabalhar com as “secretas” portuguesas e os elementos das equipas de guarda-costas que vão estar mais próximos de Barack Obama, chega às duas centenas o número de pessoas envolvidas na protecção do Presidente norte-americano» («Obama traz quase 200 seguranças na visita a Portugal», Patrícia Viegas e Valentina Marcelino, Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 2).
      Já aqui perguntei uma vez, mas, paciente, pergunto de novo: para quê as aspas em «secretas»? Trata-se de algum uso metalinguístico? E «presidente» merecerá inicial maiúscula?

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Tradução: «jamming»

Procurem


      «Nas suas deslocações vai usar, pelo menos, quatro viaturas blindadas. Uma delas para seu transporte e as outras três de segurança. Um destes veículos está equipado com material de “empastelamento” de comunicações, ou jamming, e tem como missão exclusiva bloquear todas as comunicações telefónicas ou de rádio nas zonas por onde passe a comitiva» («Obama traz quase 200 seguranças na visita a Portugal», Patrícia Viegas e Valentina Marcelino, Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 2).
      Nem todos os dicionários registam o vocábulo «empastelamento». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolhe-o: «MILITAR irradiar ou reflectir deliberadamente energia electromagnética com o fim de impedir a utilização, pelo inimigo, dos seus sistemas de telecomunicação».

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Como se escreve nos jornais

Na Lua


      «[Allan Sandage, 1926―2010] Foi um dos astrónomos mais influentes da área da cosmologia, tendo escrito mais de 500 artigos e livros sobre o universo, a evolução e comportamento das estrelas, a descoberta do primeiro quasar, o nascimento da galáxia Milky Way» («O homem que dedicou a vida a medir a expansão do universo», Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 45).
      Também eu gostava de escrever obituários, mas não ia trocar assim as línguas. Milky Way em inglês, em português é Via Láctea.

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Itálico

É pena


      «Segundo a mitologia nórdica, Erik, o Vermelho, foi o primeiro a pisar a Gronelândia e o seu filho, Leif Eriksson, o primeiro a chegar à América, por volta do ano 1000 d.C. Teria sido ele, ou alguém próximo, a trazer a ameríndia, cujos genes se encontram hoje nas quatro famílias estudadas. Em 1960, foram encontrados na Terra Nova (Canadá) vestígios de um acampamento típico dos viquingues. Alguns acreditam tratar-se de Leifsbúoir, descrito na famosa Saga de Erik o Sanguinário» («Viquingues trouxeram uma ameríndia para a Europa há mil anos», Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 27). «As Três Graças, um pequeno quadro no qual três jovens nuas exibem a sua luminosidade jovial sobre um fundo sombrio, é da autoria do alemão Lucas Cranach, o Velho (1472-1553), cuja obra passou sobretudo pelo retrato e pela representação de temas religiosos» («Louvre pede um milhão para comprar quadro», J. E. M., Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 50).
      Falta uma visão de conjunto, o olhar de alguém que vele pela aplicação uniforme das regras.

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«Bem-sucedido»/«bem sucedido»

Critério


      «Estes regimentos, concebidos durante as reformas militares de 1870-1880, baseavam-se nos regimentos do exército alemão, na altura um dos mais bem-sucedidos do mundo» (Uma Introdução à Vida de Churchill, John Keegan. Tradução de Jorge Palinhos e revisão de Paulo Salgado Moreira. Lisboa: Tinta-da-China, 2007, p. 41). «Tinha agora toda a liberdade para escrever o que quisesse e, embora a sua experiência de campanha servisse de material para a sua segunda narrativa militar, The River War, que seria tão bem sucedida como a anterior, o seu interesse já estava virado para outras questões, nomeadamente a política e o amor» (idem, ibidem, pp. 53.-54). «Em Inglaterra, o seu quarto livro, London to Ladysmith via Pretoria, foi tão bem-sucedido como os três anteriores e permitiu-lhe tornar-se financeiramente independente, pelo menos por algum tempo, enquanto a sua lucrativa actividade jornalística lhe trouxe ama» (idem, ibidem, pp. 59-60).
      Nem sequer se trata do critério — arbitrário, previna-se o leitor — que se adivinha no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia de Ciências de Lisboa.

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Linguagem

Virilidade verbal


      «Quando um cabo da GNR, irritado com o facto de não ter conseguido uma troca na escala de serviço, se dirige ao seu superior, dizendo “não dá pra trocar, então prò c...”, está a cometer um crime de insubordinação ou apenas a desabafar? Este debate percorreu o Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Lisboa e o Tribunal de Instrução Criminal, chegando, a 28 de Outubro deste ano, ao Tribunal da Relação de Lisboa, que encerrou o caso: o cabo não deve ser julgado, porque a expressão utilizada é um “sinal de mera virilidade verbal.” […] E para fundamentar tal decisão, os desembargadores fazem uma extensa análise da expressão “prò c...” que, no fundo, era o que estava em causa no autos. Concluíram que há contextos em que a utilização da expressão não é ofensiva, mas sim um modo de verbalizar estados de alma. Um pouco de história: “Para uns a palavra ‘c...’ vem do latim caraculu que significava pequena estaca, enquanto que, para outros, este termo surge utilizado pelos portugueses nos tempos das grandes navegações para, nas artes de marinhagem, designar o topo do mastro principal das naus, ou seja, um pau grande. Certo é que, independentemente da etimologia da palavra, o povo começou a associar a palavra ao órgão sexual masculino, o pénis. Porém, continuam os juízes, “é público e notório, pois tal resulta da experiência comum, que ‘c...’ é palavra usada por alguns (muitos) para expressar, definir, explicar ou enfatizar toda uma gama de sentimentos humanos e diversos estados de ânimo. Por exemplo ‘prò c...’ é usado para representar algo excessivo. Seja grande ou pequeno de mais. Serve para referenciar realidades numéricas indefinidas (‘chove pra c...’; ‘o Cristiano Ronaldo joga pra c...’; ‘moras longe pra c...’; ‘o ácaro é um animal pequeno pra c...’; ‘esse filme é velho pra c...’)”» («Afinal mandar “prò c...” é apenas virilidade verbal», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 23).
      A própria expressão «virilidade verbal» é português pra caralho, diria um cabo da GNR.

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Compostos com o prefixo «bem»

Como calha


      «As vítimas nunca desconfiavam do indivíduo. “Bem falante e possível herdeiro de empresas” convencia os lesados a entrar no negócio, prometendo uma taxa superior à da banca, mesmo na ordem dos cem por cento, independentemente do prazo do investimento. Presente ao juiz de instrução em primeiro interrogatório ficou em prisão preventiva» («Futebolistas vítimas de burla milionária», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 18).
      O jornalista esqueceu-se de uma regra elementar: usa-se hífen nos compostos formados com o prefixo bem, quando o segundo elemento começa por vogal ou h, ou então quando começa por consoante, mas está em perfeita evidência de sentido: bem-aventurado, bem-aventurança, bem-humorado; bem-criado, bem-fadado, bem-fazente, bem-fazer, bem-querente, bem-querer, bem-vindo. Quanto à pontuação, o melhor é nem falar.

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Elemento de formação

Em cima do joelho


      «A Power Balance Espanha dizia, em Abril, ter vendido 300 mil pulseiras pseudo milagrosas, o que supõe lucros de dez milhões de euros” [sic], denuncia a Facua» («Pulseiras do equilíbrio multadas em Espanha», C. N., Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 18).
      C. N. (Céu Neves?), então agora deixa assim um elemento de formação de palavras desamparado? Vá lá, um esforçozinho. A tradução também não é primorosa: «Power Balance España presumía en abril de haber vendido unas 300.000 pulseras seudomilagrosas, lo que supondría unos ingresos de en torno a 10 millones de euros.»

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Léxico: «siren suit»

Peter McIntyre, Churchill in Siren Suit, August 1942. Imagem daqui

Inconfundível


      «Já Churchill, com o seu siren suit disforme, a sua cartola engraçada e o inconfundível charuto encravado entre os dedos moles, tinha um ar muito pouco heróico» (Uma Introdução à Vida de Churchill, John Keegan. Tradução de Jorge Palinhos e revisão de Paulo Salgado Moreira. Lisboa: Tinta-da-China, 2007, p. 9). Sim, intraduzível. Tanto que o tradutor se viu obrigado a usar a expressão e a explicá-la em nota de rodapé: «O siren suit era um fato-macaco especial de lã azul, com um fecho de correr frontal e um cinto, que Churchill ajudou a popularizar durante a Segunda Guerra Mundial e cujo propósito era poder ser vestido rapidamente e manter o seu utilizador quente em caso de bombardeamentos alemães (n. do t.).»

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Do Norte

Parece o mesmo


      «O livro, Poverty: A Study of Town Life, baseava-se num estudo das condições sociais na cidade nortenha de York, não muito longe do seu círculo eleitoral de Oldham, no Lancashire» (Uma Introdução à Vida de Churchill, John Keegan. Tradução de Jorge Palinhos e revisão de Paulo Salgado Moreira. Lisboa: Tinta-da-China, 2007, p. 65).
      Não sabia que no Norte de Portugal havia uma cidade com o nome de York... Já aqui vimos este erro.

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Revisão

Concordo


      «Em 1901, aceitou outro pretendente e tornou-se lady Lytton» (Uma Introdução à Vida de Churchill, John Keegan. Tradução de Jorge Palinhos e revisão de Paulo Salgado Moreira. Lisboa: Tinta-da-China, 2007, p. 54).
      Concordo com a regra usada em algumas editoras: lady e sir só são grafados em itálico se não antecederem um nome; de contrário, serão grafados em redondo e em caixa alta. Logo, neste caso, Lady Lytton.

[Post 4091]
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Léxico: «mádi»

Vamos empobrecendo


      «Em 1885, Gordon, um evangélico fervoroso e um porta-estandarte do sonho imperial, fora morto no seu posto de residente (o representante local do governador-geral) em Cartum, por soldados do madi, um carismático fundamentalista muçulmano» (Uma Introdução à Vida de Churchill, John Keegan. Tradução de Jorge Palinhos e revisão de Paulo Salgado Moreira. Lisboa: Tinta-da-China, 2007, p. 49).
      Mais um vocábulo omitido pelos modernos dicionários da língua portuguesa. Com excepção do Dicionário Houaiss, em que aparece registado com a grafia mádi: «na tradição muçulmana, o messias aguardado que restaurará a pureza do islão, a paz e a justiça universais, quase no final do mundo». José Pedro Machado, no Grande Dicionário da Língua Portuguesa, regista apenas madismo: «Seita muçulmana que crê na vinda de um messias (em ár.: madi).»

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Léxico: «nizam»

Ilusões


      «Enquanto escrevia de jacto The River War, em Londres, reencontrou-se com Pamela Plowden, uma rapariga que conhecera na Índia, quando o pai desta era o residente inglês na corte do nizam de Hiderabade» (Uma Introdução à Vida de Churchill, John Keegan. Tradução de Jorge Palinhos e revisão de Paulo Salgado Moreira. Lisboa: Tinta-da-China, 2007, p. 54).
      Estava convencido de que tinha lido há algum tempo o termo num dicionário da língua portuguesa. Afinal, não foi assim, pois não o vejo registado em lado nenhum. Quando li de fio a pavio o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, foi lá que o encontrei: «Título usado, no tempo dos sultões timúridas da Índia, pelo nababo governador do Decão.│Depois, designação ou título conferido a um chefe, governador ou simples administrador, nos regimes da Índia» (p. 621).

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Ortografia: «dervixe»

Imagem tirada daqui

Temos três


      «Na manhã a seguir, os derviches atiraram-se com fervor fanático contra as defesas britânicas» (Uma Introdução à Vida de Churchill, John Keegan. Tradução de Jorge Palinhos e revisão de Paulo Salgado Moreira. Lisboa: Tinta-da-China, 2007, p. 52).
      Muito bem — em francês e em espanhol! Temos três variantes: dervixe, dervis e daroês. Não precisamos, acho eu, de mais uma. Há mais ocorrências, pelo que parece ser convicção forte do tradutor e do revisor. Quem nunca antes ouviu falar dos dervixes rodopiantes? Bem, todos, mas alguns esquecem a grafia.

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Galicismo: «etalonagem»

L’étalonnage à Tóbis


      «O “bichinho”, como lhe chama, determinou que perante o anúncio no jornal largasse o liceu Maria Amália, onde frequentava o quarto ano, e desse entrada, a 1 de Março de 1974, na empresa que havia de ser a da sua vida, e de mais de uma maneira. “Nem sabia o que queriam que a gente fizesse, o jornal não dizia. Vim com uma amiga e mais dois rapazes e fui parar à tiragem de cópias. Achei aquilo muito engraçado. Quem me ensinou foi um senhor que cá estava, o sr [sic] Augusto. Era ele que fazia a etalonagem, a divisão de cores nos filmes. Fazia-se com umas certas filtragens”» («As mãos do cinema», Fernanda Câncio, «DN Gente»/Diário de Notícias, 13.11.2010, p. 5).
      Cheira a galicismo — e é. Étalonnage. Em português diz-se aferição. A convicção de que em português não há termo correspondente é quase sempre fundada na falta de conhecimentos.

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Brasileirismo: «enturmado»

Para um escol


      «Como a maioria dos que trabalhavam nessa secção eram miúdos, raro seria o dia, conta Jerónimo, que não saíam de lá encharcados, de tanto brincar. E ao sábado podiam dar um mergulho na piscina ou jogar nos campos de jogos. Um paraíso para um miúdo pobre, enturmado com Vascos Santanas, Antónios Silvas, Joões Villarets e Manoéis de Oliveira» («As mãos do cinema», Fernanda Câncio, «DN Gente»/Diário de Notícias, 13.11.2010, p. 4).
      Cheira a brasileirismo — e é. O brasileirismo que pegou de raiz, porém, foi virar, na acepção de assumir outra forma ou natureza; converter-se, transformar-se. Não há semana em que o não veja na imprensa. «Mourinho não repetiu filme de 1973 e virou protagonista» (Carlos Nogueira, Diário de Notícias, 11.11.2010, p. 37). Enturmado: que faz parte de uma turma, um grupo de amigos. Se o objectivo é escrever para um escol, está cumprido.

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Ortografia: «microidioma»

Sem mistérios


      «Neste contexto de raridade, o mirandês, por exemplo, é um [sic] língua que é ainda relativamente conhecida, pois tem entre 10 mil a 15 mil conhecedores — assim como o angolar que, em S. Tomé e Príncipe, é conversado entre umas cinco mil pessoas —, pois os micro-idiomas podem ter um número de falantes bem inferior ao dos indivíduos das espécies animais ameaçadas» («Uma Babel linguística», Fernando Madaíl, «DN Gente»/Diário de Notícias, 13.11.2010, p. 6).
      Por muitas dificuldades que a aplicação da regra implique, e já vimos aqui algumas, a verdade é que com os antepositivos macro- e micro- nunca se utiliza hífen. Logo, microidiomas.

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«Ir na peugada de»

Esforço vão


      «Além da Califórnia, onde no início do século XX chegaram a concentrar-se cerca de trinta mil portugueses, houve também quem se aventurasse pelo Nevada, Oregon, Idaho, Wyoming ou Novo México. “E a ética de trabalho, que não fez muito pelos que ficaram em Nova Inglaterra, na costa leste dos EUA, a trabalhar em fábricas de algodão, deu aos portugueses do Oeste uma vantagem sobre o americano típico”, explica Donald Warrin, o historiador que durante mais de uma década correu o “Ocidente longínquo” na pegada dos que lá se instalaram» («O velho Oeste com sotaque português», Bárbara Cruz, «DN Gente»/Diário de Notícias, 13.11.2010, p. 2).
      Há, em todas as línguas, expressões fixas, e em relação a estas não vale a pena tentar ser original — e ir na peugada de, isto é, seguir os passos de, ir atrás de, é uma delas. Guardem a criatividade para outras empresas.

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Como se escreve nos jornais

Sabe Deus


      «Homem solidário [Jerry Springer], o apresentador judeu é voluntário em campanhas sobre crianças deficientes, toxicodependentes ou pessoas com mobilização limitada» («Vinte anos a gerar polémica», Nuno Cardoso, Diário de Notícias, 13.11.2010, p. 65).
      «Pessoas com mobilização limitada», ou seja, em vez de serem enviadas para o Afeganistão, vão para o Havai, por exemplo. Lapsos todos temos, eu sei, mas o que me pergunto sempre é: será que está convencido de que é assim? Nunca saberemos, pois Nuno Cardoso, que de certeza vai ler este texto, não nos dirá. Mas isso não tem importância: o que interessa é que não volte a escrever tal disparate.

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«Que/quem»

Está na hora


      «“É uma segunda família.” A afirmação é de Alexandra Lencastre referindo-se à Central Models, a agência com quem trabalha e que comemorou anteontem 20 anos com um jantar no restaurante BBC, em Lisboa» («Central Models assinala 20 anos com megafesta», Ana Lúcia Sousa, Diário de Notícias, 13.11.2010, p. 69).
      A Ana Lúcia Sousa alguma vez leu que o pronome relativo e interrogativo quem se usa sempre em relação a uma pessoa? Claro que não. E nota-se muito.

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Tradução: «clutch»

Não há melhor


      «O interior da mala é decorado com a bandeira portuguesa e tem um número que corresponde a cada uma das oito presenteadas. Além desta mala, Hillary receberá também da parte do primeiro-ministro português uma clutch em cortiça com efeitos conseguidos através da queima do material» («Sócrates oferece a Obama coleira de cortiça para cão-d’água ‘Bo’», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 13.11.2010, p. 11).
      A jornalista não encontrou melhor termo: clutch! No Merriam-Webster vejo que é «a woman’s small usually strapless handbag». Não vou agora fugir de uma anglicismo para cair nos braços de um galicismo, «pochete», mas carteira não chega? De qualquer maneira, eu preferia que fosse de cortiça.

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Sobre «cativeiro»

Imagem tirada daqui

Agora entra em desuso


      Com a libertação da opositora birmanesa Aung San Suu Kyi, e já antes, em 2008, com a libertação da ex-deputada e ex-senadora franco-colombiana Ingrid Betancourt, os jornalistas portugueses só já têm os tigres, pandas e outros animais para poderem usar a palavra «cativeiro». Até agora, foi mesmo assim: só em relação a Ingrid Betancourt e a Aung San Suu Kyi usavam este vocábulo. E aos animais. Podemos encontrar um paralelo no caso das prisões: se a Polícia Judiciária deixar de existir, entrará inevitavelmente em desuso o vocábulo «calabouço».

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Como se fala na rádio

Convergir e divergir — no ar


      Hoje, na Antena 1, foi dia de festa: os jornalistas apanharam uma nova forma, esquisita, distorcida, de dizer as coisas. Luís Soares, Antena 1: «A falta de visibilidade condicionou ao longo da manhã o tráfego aéreo na Madeira. Vários aviões tiveram que divergir para outros aeroportos por causa da falta de visibilidade provocada por nuvens baixas. Vários voos atrasaram ou foram mesmo cancelados.» Lúcia Cavaleiro, da TAP, explicou como é: «Neste momento, está, está efectivamente tudo normalizado. As condições meteorológicas também assim o permitiram e portanto tivemos alguns, portanto, algumas, alguns aviões tiveram que ser divergidos, designadamente para Porto Santo, mas que neste momento já se encontram no Funchal, todos, portanto, todos os passageiros.» Divergir também é desviar-se, mas francamente! E reparem que uns aviões divergiram e outros foram divergidos. E os voos que atrasaram também são uma pérola.

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«Heraldo» e «arauto»

Diga o resto


      «“Leste no Heraldo Europeu um artigo sobre os últimos impostores de Orenburg? Foi em 1834, irmão! Não gosto dessa revista, e o autor do artigo é conservador, mas a coisa é interessante e pode provocar ideias…”» (Solo Virgem, Turguiénev. Tradução de Manuel de Seabra. Lisboa: Editorial Futura, 1974, p. 84).
      «Em Bagaúste, linha férrea do Douro, um pouco acima de Régua, no ponto fluvial onde se constrói agora uma barragem, acaba de nascer um jornalzinho para distracção de quem trabalha no empreendimento. Sabem como se chama? Herald de Bagaúste. É, pelo visto, um arauto. Mas, como arauto é nome português, atirou com ele ao rio, isto é, ao river. E ninguém se lhe atravessou. O cadáver do arauto deverá aparecer, qualquer dia, com a barriga inchada, a jusante de Bagaúste, perhaps at Régua» (A Língua Portuguesa, João de Araújo Correia. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 66).
      João de Araújo Correia só se esquece de dizer que heraldo — não herald, valha-me Deus! — é mais antigo na língua do que arauto, não é assim, Montexto?

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«Tratar-se de»

Imitação


      «De acordo com o documento do Governo Civil de Lisboa, que define as especificações técnicas dos veículos, estes não se tratam de simples “viaturas de transporte pessoal com protecção balística”, conforme garantiu o ministro da Administração Interna (ver texto ao lado) e o comando da PSP. Tratam-se, isso sim, de verdadeiros blindados de guerra, idênticos aos usados pelos americanos e ingleses no Iraque» («PSP comprou blindados para a ‘guerra’ nos bairros», Valentina Marcelino, Diário de Notícias, 11.11.2010, p. 4).
      Aí está: para não ser apenas a ministra da Educação a cincar em regra tão elementar, os jornalistas imitam-na. Cá estamos nós a pagar e a ler os disparates.

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