Enterro da língua
Vasco Graça Moura continua a zurzir no Acordo Ortográfico de 1990. Transcrevo o mais relevante: «A maneira como essas entidades [parte da comunicação social] se prestaram a acatar uma ignomínia, aliás inaplicável, que dá pelo nome de Acordo Ortográfico é eloquente: para não falar já nas trapalhadas relativas ao emprego do hífen e ao uso de maiúsculas e minúsculas, acontece que ninguém é capaz de fazer funcionar correctamente as suas regras, por ser impossível determinar, no tocante às chamadas consoantes mudas, quando é que elas se mantêm, por serem pronunciadas num ou noutro dos lados do Atlântico, e quando é que elas se suprimem, por não o serem em nenhum deles.»
Quanto ao hífen, concordo: as regras relativas a este sinal não vieram, como se impunha, simplificar o seu uso. Quanto às regras sobre o uso das maiúsculas e das minúsculas, é matéria menor.
VGM continua: «Não fez impressão a essas luminárias que, para escrever “correctamente” a sua própria língua, um cidadão português tenha de saber como é que ela se pronuncia num país estrangeiro... E agora as coisas estão a ser levadas ao extremo do inconcebível: não se sabendo como aplicar o Acordo, vai-se mais longe do que o previsto no seu próprio texto e zás!, varre-se de uma penada consoantes que não são mudas e continuam a ser pronunciadas no Brasil! De maneira que se gera um novo fosso ortográfico da asneira, ainda mais absurdo do que o texto que é invocado.»
Posso estar enganado, mas para a aplicação das regras da Base IV do AO90 não se impõe o conhecimento de «como é que ela se pronuncia num país estrangeiro».
Há-de referir-se ao Brasil, porque os restantes países de língua oficial portuguesa não parecem contar muito. VGM escreve ainda: «À sombra do Acordo estão a ser criminosamente fabricadas grafias anómalas que o Brasil não aceita nem pratica. E continua a não constar que países como Angola, Moçambique ou a Guiné, [sic] tenham ratificado a imbecilidade ortográfica que pretensamente as sustenta.» Sim, essas grafias anómalas já andam por aí.
E a estocada final: «É claro que não vale a pena falar do que está ou vai passar-se nas escolas do nosso país, nem se pode ainda medir até que ponto alguns oportunismos editoriais, para não perderem o negócio, vão contribuir para escorar as soluções mais aberrantes em matéria de livros e manuais escolares» («Um país invertebrado», Diário de Notícias, 23.02.2011, p. 54).
[Post 4479]