Grande Maçã

Quem os viu


      Ena, até já sabem grafar prosónimos: «De acordo com documentos apresentados ontem naquele tribunal, Renato Seabra viajou para a Grande Maçã na companhia da vítima Carlos Castro no dia 29 de Dezembro do ano passado. Ambos ficaram hospedados no Hotel Intercontinental na Rua 44 West» («Renato Seabra entrou algemado e clamou inocência», Ricardo Durães, Diário de Notícias, 2.02.2011, p. 50).

[Post 4397]

Cidade Maravilhosa

Fica agora a saber


      «O exército que invadiu o Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, foi acompanhado na subida ao morro por um igualmente numeroso batalhão de repórteres seniores demasiado habituados à violência da cidade maravilhosa. Tem sido, no entanto, um grupo de “jornalistas” menores de idade que, a partir do interior da favela, tem conseguido parte dos exclusivos informativos que revela ao Mundo pelo Twitter» («Adolescentes do Complexo do Alemão vencem batalha das notícias no Twitter», Alfredo Leite, Jornal de Notícias, 29.10.2010, p. 3).
      Não, desta vez não é sobre os «repórteres seniores». Alfredo Leite não saberá, mas na redacção alguém deveria saber que os prosónimos se escrevem com maiúscula inicial.

[Post 4143]

«Terras de Sua Majestade»

Na jugular, é certeiro


      E outro jornalista escreveu que não sei quem se sentia «nervosa mas confiante, é assim que a espanhola se sente em terras de Sua Majestade». Mas este é mais um prosónimo, pelo que se grafará Terras de Sua Majestade. Podia, vamos lá ver, ter sido pior: podia ter escrito, como leio tantas vezes, *magestade. Ou tudo em minúsculas, como Fernanda Câncio se liberta da escrita disciplinada do Diário de Notícias. O sangue da jugular é a língua a esvair-se.

[Post 3326]

Grafia dos prosónimos II

Leiam o que escrevem


      «Em 1831 o autor francês Alexis de Tocqueville escreveu um famosíssimo livro sobre a América: Da Democracia na América. De visita ao novo mundo, foi ele o primeiro a registar as pulsões particulares que comandavam os americanos» («A América e a Europa», Pedro Lomba, Público, 25.1.2010, p. 32).
      Pois é, mas o próprio Livro de Estilo do Público, na secção relativa ao uso de maiúsculas e minúsculas, no ponto 5, recomenda e bem que se empregue a maiúscula inicial nos «nomes geográficos: Alto Alentejo, Ásia Menor, Extremo Oriente, Brasil, Novo Mundo, Outra Banda, Pirenéus». Já não sabem as regras que se impuseram? Quanto ao cronista, não lhe ficava mal aprender.

[Post 3062]

Prosónimos e «defeso»

At one stroke

      Bem sei que o revisor antibrasileiro estava escaldado por, na véspera, um jornalista ter escrito Capital da Mobília, mas, ainda assim, devia ter reflectido mais quando lhe apareceu Cidade do Lis e ele emendou para cidade do Lis: «O médio, autor do segundo golo, chegou a ser anunciado no defeso, como reforço vitoriano, mas acabou por rumar à cidade do Lis.» (Ah, sim, cada vez que leio, e é todos os dias, «defeso» no âmbito do futebol não deixo de dar uma gargalhada. Para os dicionários e para milhões de falantes, «defeso» ainda é só a época do ano em que é proibido caçar ou pescar.) Os pobres jornalistas vão ficar perplexos: eu a doutriná-los pacientemente na grafia correcta dos prosónimos, este tratante a destratar assim a língua de uma penada inepta.

«Riviera Inglesa»


Já vimos isto

      A ilustrar uma fotografia de António Cluny, até agora presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, lê-se na revista Tabu: «Aos 16 anos, num Verão em que foi com um amigo trabalhar em Inglaterra, como empregado num hotel de luxo — o Imperial, em Torquay (na região sudeste, a chamada Riviera inglesa)» («“Sentimos que o PS ia vingar-se», Ana Paula Azevedo, Tabu, 10.04.2009, p. 27). Na verdade, a cidade de Torquay, onde Agatha Christie nasceu em 1890, no litoral sudeste de Inglaterra, é conhecida como Riviera Inglesa. Agatha Christie, a Rainha do Crime (Queen of Crime ou Queen of the Whodunnit, em inglês), não é assim? Dois prosónimos: Riviera Francesa e Rainha do Crime.

«País das Pampas»

Em pleno processo

      «Na despedida, o mago, agora seleccionador do país das pampas, foi entrevistado pelo Benfica TV» («Diego diz que Di María marcou golo à Maradona», Bruno Pires, Diário de Notícias/DN Sport, 16.01.2009, p. 4). Já uma vez pude assistir ao raciocínio de um revisor, graças ao facto de ele, sentindo-se observado, ir falando em voz alta, que se deparou com a locução País das Pampas. Que não podia ser com maiúsculas, começou por dizer. Depois consultou o termo «pampa» no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Encontrou o que era de esperar: «designação dada à estepe de gramíneas, que se estende pela vasta e uniforme planície de terra amarela da Argentina, de que ocupa a parte média, e que constitui zona de boas pastagens, em parte já agricultada». Só pode ser com minúsculas, concluiu, ufanoso e equivocado. País das Pampas é um prosónimo, conceito que já aqui expliquei três vezes, e por isso grafa-se com maiúsculas iniciais.

«Continente Negro»

Sem desculpa

      No dia 14 de Fevereiro de 2008, às 9.30, um locutor da NPR, um operador público de rádio nos Estados Unidos, afirmou que o presidente Bush estava no «dark continent». Uma hora mais tarde, o locutor pedia desculpa por ter usado a expressão. Dois dias depois, o próprio sítio da rádio na Internet referia-se ao caso, concluindo: «This was totally inappropriate and offensive, and we apologize for allowing such an antiquated and pejorative term to air.» Bem, inadequada ou não, usa-se. Ainda ontem, no Diário de Notícias, num texto assinado por Helena Tecedeiro sobre a visita do papa a África, se podia ler: «Bento XVI no continente negro». A meu ver, o Diário de Notícias devia era pedir desculpa por escrever incorrectamente. Tratando-se de um prosónimo, tem de se grafar com maiúscula inicial: Continente Negro.

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