Tradução: «exonerate»

Agora não são buchas


      «Still, doubts lingered, and his four-year battle to exonerate his client, George Fox’s lawyer in court claimed that Brown was the killer.» O tradutor quis que aquele exonerate fosse exonerar, mas são falsos amigos (como tantos outros). Como transitivo, é o mesmo que demitir; destituir; tirar o ónus a; desobrigar; dispensar. Em inglês, e neste contexto, é ilibar de culpa.

[Post 4398]

Falsos cognatos

Reincidência


      O leitor Francisco Agarez chamou-me a atenção para este trecho de um artigo do Diário de Notícias de ontem: «Independentemente do que isso, a ser verdade, diz sobre a relação de Assange com a liberdade de imprensa e o seu apego à transparência, teremos de concluir que os outros jornais, os escolhidos, podem ter sido mais lenientes com Assange?» («Os famosos cinco jornais e a aventura da WikiLeaks», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 5.12.2010).
      Parece português e do melhor, mas não é: — leniente é má tradução do inglês lenient. Este significa «brando», que é o que a jornalista pretendia dizer. Em português, «leniente», ou «lenitivo», diz-se do que suaviza ou acalma. Já vimos aqui que esta jornalista é muito atreita a usar anglicismos, o que só lhe deslustra os textos. Por quem é, deixe-se disso.

[Post 4161]

Falsos cognatos

Então não


      A propósito do vocábulo catalão desesma, Vítor Lindegaard lembrou aqui (eu já tinha pesquisado, pois não conhecia o nome) que Manuel de Seabra é um tradutor especializado no catalão. E rematava: «Está explicado o catalanismo (isto existe?).» Bem, nesta acepção não está dicionarizado, mas não pode estar incorrecto. Ora vejam outro catalanismo naquela tradução: «Solómin estava sob suspeita — mas mandaram-no em paz por falta de provas. (Por outro lado, ele não evadiu julgamento e compareceu quando requerido.)» (Solo Virgem, Turguiénev. Tradução de Manuel de Seabra. Lisboa: Editorial Futura, 1974, p. 376). Evadir, em português, salvo melhor opinião, é sempre pronominal. Ao contrário de desesma, totalmente inexplicável, aqui estamos perante um falso amigo. Em catalão, cercar d’allunyar-se d’una situació desagradable, un problema, etc. Procurar fugir de...

[Post 4139]

Falsos amigos. italiano

Lavata di testa


      É mesmo: Monaco di Baviera é o nome italiano para... Munique! Mais um falso amigo, este raro, no âmbito dos topónimos. Nos substantivos e verbos, são mais que muitos: abbonato não é «abonado», mas «assinante»; accattare não é «acatar», mas «mendigar»; accordare não é «acordar», mas «afinar; conceder»; additare não é «juntar», mas «apontar; indigitar»; agguantare não é «aguentar», mas «agarrar»; appostare não é «fazer uma aposta», mas «armar uma cilada»; attirare não é «lançar algo», mas «atrair, aliciar»; a battuta não é o «bastão delgado com que os regentes dirigem as orquestras», mas «compasso musical»; burro não é o simpático animal, mas «manteiga»; carpire é «surripiar»; carta é «papel»; cattivo é «mau»; sigaro é «charuto»; consulente é «consultor»; enfiare é «inchar»; subire é «sofrer»; tasca é «algibeira», testa é «cabeça»; trincare é «beber muito»... Basta. E quantas obras italianas se traduzirão para português anualmente?

[Post 3980]

Tradução: «estrado»

Igual mas diferente


      No D. Quixote aparece cinco vezes o vocábulo espanhol «estrado». Se a acepção que logo me (nos?) ocorre é, recorrendo ao Dicionário Hoauiss, «estrutura plana, em geral de madeira, que se assemelha a um palanque baixo, construída acima do nível do chão, para que, ao formar um piso mais elevado, ponha em destaque pessoa ou coisa», a verdade é que ficaremos bem longe do significado do original, que é, e agora recorro ao DRAE, «conjunto de muebles que servía para adornar el lugar o pieza en que las señoras recibían las visitas, y se componía de alfombra o tapete, almohadas y taburetes o sillas». O mais próximo, mas diferente, ainda assim, é uma acepção antiga do vocábulo português, também registada pelo Dicionário Hoauiss: «pequeno e baixo palanque onde as senhoras executam certos serviços domésticos». Para traduzir é necessário, não há dúvida, muito tino. Só à conta dos falsos amigos, temos por aí equívocos estampados em milhares de livros. Posso estar enganado, mas a única forma de resolver satisfatoriamente a questão é dar a explicação em nota de rodapé.

[Post 3841]

Sobre «interesse»

Não vá mais longe


      «É esse um dos encantos do capitalismo, o interesse de cada um (em francês percebe-se melhor, “intérêt” é também “lucro”).» («Que horror, iguais aos outros!», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 2.07.2010, p. 64).
      Caro Ferreira Fernandes: não saia da Península Ibérica. Então em espanhol não é precisamente o mesmo? «Interés», além de outras coisas, tanto é o «lucro producido por el capital» como a «inclinación del ánimo hacia un objeto, una persona, una narración, etc.». E não vimos aqui recentemente, a propósito de uma acepção de «barato» no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, uma escandalosa má tradução deste termo?

[Post 3655]

Ainda sobre «solicitor»

Bem arreigado


      Cartas na Mesa, o episódio de anteontem de Poirot na RTP Memória. O major Despard vai visitar Anne Meredith a Wendon Cottage, Wallingford. Diz o major à frágil Anne: «Tomei a liberdade de mencionar o seu nome ao meu solicitador.» Quer dizer, a tradutora, Mafalda Eliseu, é que o faz dizer isto, porque no original o que se ouve é solicitor, isto é, advogado. Escassos minutos depois, que a visita foi curta, Despard ainda afirma: «If so you are perfectly within your rights in refusing to answer any questions Battle may ask unless your solicitor is present.» Mas na tradução: «Se assim for, está no seu direito recusar responder a qualquer pergunta sem ser na presença do seu solicitador.» Para que é que Anne Meredith ia precisar de um solicitador quando fosse ser interrogada pela polícia? A tradutora não pensou nisso.

[Post 3570]

Tradução: «condition»

Sem condições


      «— Na maioria dos casos, a amnésia dissociativa aparece e desaparece relativamente depressa. Na generalidade, é o evento despoletador, o incidente traumático que provoca a condição, que é esquecido. Por vezes, a perda de memória pode ser... — a Dr.ª Randle desenhou um pequeno círculo com a cabeça — mais abrangente, mas isso é raro. Até uma única recorrência de qualquer género de amnésia dissociativa é muito, muito invulgar» (Memória de Tubarão, Steven Hall. Tradução de José Remelhe e Luís Santos. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2009, p. 20).
      Isto não está em condições: desde quando é que em português se usa o vocábulo condição para nos referirmos ao estado de saúde? Nem sempre a condition inglesa é a condição portuguesa. Nesta tradução, é erro que se repete demasiado.

[Post 3532]

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