Etimologia: «convescote»

Não caiu do céu


      «Bem me lembro, estão aqui anotadas no caderno vermelho: as palavras “alpendre” e “vitrola”, citadas entre as cinquenta de que nos fomos perdendo, reunidas num estudo do Observatório da Língua Portuguesa. Eu tinha ficado preso a uma outra, a palavra “convescote”, criada pelo latinista carioca António de Castro Lopes de quem acabo de encontrar, em Braga, um admirador e estudioso entusiasta, o actor e dramaturgo Manoel Candeias, doutorado em artes de cena pela universidade de Campinas» («A vitrola no alpendre», Fernando Alves, TSF,  24.06.2026, 8h53). 
      Não se dizer isto, que é absolutamente certo, está documentado, nos dicionários é que me deixa perplexo.

[Texto 23 384]

Léxico: «engasgalhado»

Outra desaparecida dos dicionários


      «— Aqui o tens tal qual o topei engasgalhado num amieiro, berço e tudo. Olha que desgraça, ó Isabel!» (Maria Moisés, Camilo Castelo Branco. Lisboa: INCM, 2020, p. 44).

[Texto 23 383]

Léxico: «não pôr mais na carta»

Até na Alemanha sabem


      «— Não ponhas mais na carta. Tosquei tudo! Que bailões! E a Ruiva também era...» (A Ruiva, Fialho de Almeida. Porto: Ernesto Chardron, 1881, p. 14). 
      Já aparece em muito poucos dicionários, isto quando se trata de uma expressão frequente na literatura do século XIX e até do século XX. Encontro-a, por exemplo, no Die falschen Freunde: Portugiesisch-Deutsch, Deutsch-Portugiesisch, em que é traduzida por «du brauchst nicht deutlicher zu werden», isto é, «não precisas de ser mais explícito». 

[Texto 23 382]

A propósito de «Celtic»

Sabido, mas esquecido


      No sentido de «celta» ou «céltico», a pronúncia actualmente corrente é /ˈkeltɪk/. A pronúncia /ˈseltɪk/, historicamente anterior em inglês e hoje pouco usada nestas acepções, conserva-se sobretudo em nomes próprios, como Celtic Football Club. A pronúncia com /k/, difundida a partir do século XVIII e consolidada no século XIX por historiadores e linguistas, foi resultado da aproximação às formas antigas (grego Keltoí e latim Celtae), em que a consoante inicial se pronunciava /k/. isto mesmo, ou abreviado, se devia dizer no verbete Celtic do Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora. A apresentação actual, ao enumerar /ˈkeltɪk/ e /ˈseltɪk/ sem nenhuma indicação de uso, leva a supor que ambas são hoje igualmente correntes nas acepções «celta, céltico» e «ramo de línguas celta», o que não corresponde ao uso predominante. Seria conveniente manter ambas, mas distinguir a pronúncia moderna geral da variante histórica, actualmente conservada sobretudo em nomes próprios.

[Texto 23 381]

Léxico: «diamantário»

Ora, também a temos


      «Les diamantaires anversois ont offert “Freedom 250” au président américain, qui a décidé d’exempter les diamants taillés importés de Belgique de taxes. Un rabbin dénonce un “acte flagrant de corruption”. Et porte plainte contre Trump, sur fond d’enquêtes sur des pratiques de circoncision» («Donald Trump et la bague de la discorde», Valérie de Graffenried, Le Temps, 29.07.2026, p. 5). 
      Ah, mas nós também temos a palavra diamantário, sinónima de «diamantista», o que negoceia com diamantes, só falta que no-la devolvam para os dicionários.

[Texto 23 380]

Como se escreve (e pensa!) por aí

Andam aos papéis


      «O gabinete do Chega na Assembleia da República foi encontrado vandalizado ontem de manhã. A porta do gabinete, sabe o Correio da Manhã, não foi rebentada nem sequer forçada e terá sido uma empregada de limpeza a verificar o vandalismo e a alertar a GNR» («Ventura denuncia invasão ao gabinete do Chega», Miguel Bravo Morais e Diogo Carreira, Correio da Manhã, 29.07.2026, p. 6). 
      Isto é que é rigor jornalístico: vandalizado. Vi imagens na CNN Portugal, e apareciam papéis, livros, gavetas, até um exemplar do Correio da Manhã (deve ter sido este a testemunha do jornal, a fonte) que pareciam ter sido cuidadosamente postos no chão. Documentos sensíveis... Quem é que guarda documentos sensíveis numa sala que não fecha à chave?

[Texto 23 379]

Definição: «samacaca»

Mais o padrão que o tecido


      «A estilista Hilmane Simão afirmou, ontem, no Lubango, que o pano “Samakaka” carece de mais valorização quer pelos estilistas, em particular, quer pela sociedade, em geral. [...] Na sua óptica, é uma mais-valia a proposta do Governo da Huíla apresentada ao Ministério da Cultura para que a Samakaka seja classificada como Património Nacional Imaterial. [...] O pano reflecte a identidade das comunidades do Sul do país, concretamente das províncias da Huíla, do Namibe, Cunene, Cuando, Cubango e de Benguela, uma vez que alguns municípios utilizam a Samakaka como referência para várias actividades culturais. Embora o tecido não seja produzido no país, os seus símbolos, cores e formas de utilização são referenciados e utilizados nas cinco províncias, razão pela qual não vai ser classificado o pano em si, mas o seu valor cultural e imaterial» («Hilmane Simão apela para mais valorização do pano Samakaka», Jornal de Angola, 23.06.2026, p. 28). 
     Assim, proponho ➠ samacaca ETNOGRAFIA padrão decorativo tradicional associado às comunidades do Sul de Angola, caracterizado por motivos geométricos repetitivos e cores contrastantes, aplicado sobretudo a panos e vestuário e constituindo um importante símbolo de identidade cultural.

[Texto 23 378]

Léxico: «attómetro»

É mais uma batata


      A Terra, sempre ouvimos dizer e lemos, é redonda. Nenhum dado da NASA ou de outra qualquer entidade veio pôr isto em causa. Não é esférica, é redonda. Infelizmente, nenhuma acepção do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora tem a clareza e objectividade da correspondente à segunda acepção do Dicionário da Real Academia, que define «redondo» como «de forma esférica o semejante a ella». (Tal como a primeira é «de forma circular o semejante a ella».) É essa a palavra-chave: semelhante. Porque as esferas são objectos geométricos absolutamente perfeitos, em que cada parte da sua superfície está à mesma distância do centro com uma exactidão absoluta, não de metros, mas de milímetros, nanómetros, attómetros. E tudo porque não há esferas na Natureza. Sim, estou a ver. Assim, proponho ➠ attómetro METROLOGIA submúltiplo do metro, de símbolo am, equivalente a 10⁻¹⁸ metros.

[Texto 23 377]

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