Como se traduz por aí

Pobres espectadores


      Último episódio da série inglesa Ludwig, na RTP2. Sala de interrogatórios. «I need to remind you», diz o inspector Carter, «you are still under caution, Mrs. Betts-Taylor.» Já ouvimos isto centenas e centenas de vezes. Under caution significa que está a ser interrogada como suspeita, depois de informada de que não é obrigada a responder e de que as suas declarações poderão ser usadas como prova. A fórmula inglesa não tem equivalente nominal directo e transparente em português. O tradutor e legendador da série, Luís M. A. Freitas, achou que resolvia tudo assim: «Relembro-lhe que ainda está sob aviso.» Puro disparate. Teria de se ir além das palavras, da fórmula, para transmitir ao espectador, imerso noutra cultura, o que está em causa. Podia ser assim: «Recordo-lhe que continua a ser interrogada na qualidade de suspeita [e de que tudo o que disser poderá ser usado como prova], senhora Betts-Taylor.»

[Texto 23 376]

Léxico: «saioto»

Até Camilo precisa da nossa ajuda


      «— Do sr. capitão-mor? Não me pareceu; que ela ia de saia escura, e levava um saioto pela cabeça» (Maria Moisés, Camilo Castelo Branco. Lisboa: INCM, 2020, p. 10).

[Texto 23 375]

Um caso curioso: «bocca di rosa»

Mudem primeiro a realidade


      Mesmo quem nunca ouviu falar de Fabrizio De André talvez ache este caso curioso. Em 1967, o cantautor italiano publicou a canção Bocca di Rosa, cuja protagonista é uma mulher que vive livremente a sua sexualidade. Na letra, De André distingue-a expressamente de quem «faz amor por profissão»: «C’è chi l’amore lo fa per noia,/ chi se lo sceglie per professione;/ Bocca di Rosa né l’uno né l’altro,/ lei lo faceva per passione.» («Há quem faça amor por tédio, há quem o escolha por profissão; Bocca di Rosa nem uma coisa nem outra: fazia-o por paixão.») Era, portanto, assim que o autor via a sua personagem. Sucede que os falantes italianos cedo começaram a interpretá-la de outra forma. A expressão bocca di rosa entrou na língua comum e acabou por ser usada como sinónimo de «prostituta», acepção que o próprio Treccani ainda hoje regista. Agora, quase sessenta anos depois, a próxima edição do dicionário poderá abandonar essa definição e passar a definir bocca di rosa como «mulher livre», aproximando-se da interpretação que o autor sempre fez da sua criação. A notícia levanta, porém, uma questão interessante. Um dicionário deve corrigir uma interpretação que considera errada ou deve limitar-se a registar o significado que uma palavra adquiriu no uso? Ao que tudo indica, os Italianos começaram muito cedo a entender bocca di rosa como sinónimo de «prostituta», e foi esse o significado que a expressão acabou por adquirir na língua. É por isso que me interrogo se faz sentido um dicionário tentar alterá-lo, quase sessenta anos depois. A língua tem o seu curso próprio e dificilmente muda por decisão dos lexicógrafos. Um dicionário pode influenciar o uso; dificilmente o substitui.

[Texto 23 374]

Léxico: «fossorial»

Também tem esta segunda


      «“Em cobras, em geral, você tem uma marcação na parte interna da caixa craniana correspondente ao teto óptico. Mas ela não aparece na Tametara”, explicou ela [Gabriela Sobral, investigadora ligada à UnB (Universidade de Brasília) e ao Museu Estadual de História Natural de Estugarda, na Alemanha] à Folha. É um indício forte de que o bicho tinha hábitos fossoriais (de vida embaixo da terra). “Não seria algo eventual, superficial — ela realmente estava habitando um ambiente subterrâneo”» («Serpente ancestral do Brasil provavelmente passava boa parte da vida debaixo da terra», Reinaldo José Lopes, Folha de S. Paulo, 26.07.2026, p. A37). 
      Se afirmas que é o termo da Zoologia que significa «relativo ao acto de fossar, de escavar ou remexer (terra, lama, etc.) com o focinho», isso quer dizer, Porto Editora, que te falta uma segunda acepção em ➠ fossorial 2. ZOOLOGIA relativo aos animais adaptados à escavação e à vida subterrânea; que vive ou se desenvolve debaixo da terra.

[Texto 23 373]

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P. S.: Hoje ouvi alguém dizer que Fulano ia «expelir uma encomenda». Mais uma cagada. Bem, mas pelo menos esta não estava numa tradução. (A cagada, Porto Editora, é qualquer coisa muito malfeita. Podia ser só malfeita; mas não, é muito malfeita.)


Definição: «geóide»

Não é a forma: é modelo


      «Isto porque, devido à rotação da Terra, o planeta apresenta um ligeiro achatamento nos polos e uma saliência na região do equador. Assim, e em resposta à gravidade da Terra e à rotação da Terra, o planeta assume a forma de um geóide» («A Terra é uma esfera perfeita? Imagem da NASA revela que o planeta é uma batata», Diogo Camilo, Rádio Renascença, 28.07.2026, 19h15). Sabe-se lá que ortografia o jornalista está a usar... Não vamos falar disso, mas sim de geóide. 
      Infelizmente, a conclusão não decorre da premissa. O que leva a que a Terra seja, em primeira aproximação, um elipsóide de revolução (ou esferóide oblato) é o achatamento polar. Não é que seja erro que não se leia em dicionários. O geóide entra em cena por outra razão: porque a distribuição de massas no interior da Terra não é uniforme e, consequentemente, o campo gravítico também não o é. O geóide é a superfície equipotencial desse campo gravítico. Trocando por miúdos, a rotação explica essencialmente o achatamento polar; as anomalias do campo gravítico explicam as pequenas ondulações do geóide. Agora geóide tem de ser definido como deve ser. Para começar, não tem de ter duas acepções, sobretudo quando a segunda está totalmente errada. Na realidade, a segunda decorre directamente da primeira; não designa um objecto diferente, pelo que proponho ➠ geóide GEODESIA superfície equipotencial do campo gravítico terrestre que coincide aproximadamente com o nível médio do mar e se prolonga idealmente através dos continentes, constituindo o modelo que representa a forma física global da Terra. 
      Uma nota etimológica clara e desenvolvida que decompusesse correctamente o étimo, esclarecesse que o termo técnico é uma criação moderna e explicasse por que motivo «geóide» deixou de significar apenas «semelhante à Terra» para passar a designar um conceito científico muito preciso, eu saudá-la-ia pela oportunidade, utilidade e didactismo. Vai daí, levado pela regra de ouro de S. Mateus, proponho ➠ do grego geoeidḗs, «semelhante à Terra» (gê, «Terra», + -oeidḗs, «semelhante a»), termo criado em geodesia pelo matemático alemão Johann Benedict Listing (1808-1882) para designar a superfície equipotencial do campo gravítico terrestre que serve de referência para representar a forma física da Terra.

[Texto 23 372]

Definição: «roça»

Reduzidas a isso?


      «Foi ontem, ainda madrugada em Portugal, início de tarde em Busan, na Coreia do Sul, que São Tomé e Príncipe entrou, pela primeira vez, para a lista de países com património reconhecido pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) como tendo valor universal. Seis das roças do arquipélago, testemunhas de um complexo sistema de produção agrícola que cobria todo o território criado pela colonização portuguesa, primeiro com base em mão-de-obra escrava e, depois, mercê de migrações e trabalho forçados, são a partir deste domingo património mundial. [...] As roças assumem um papel central na sociedade são-tomense construída pelo colonialismo português, escravocrata na sua base. Mesmo depois de 1875, ano da abolição da escravatura no território a que os portugueses chegaram em 1471, ela, de certa forma, manteve-se, sob a forma de trabalho forçado, em condições desumanas, executado pelos chamados serviçais ou contratados, oriundos de vários países da África continental» («Uma “paisagem viva” que já é património mundial», Lucinda Canelas, Público, 27.07.2026, p. 24).
      Como é que podemos definir tão pobremente «roça» nos nossos dicionários? Proponho assim ➠ roça (São Tomé e Príncipe) grande propriedade agrícola de origem colonial, dedicada à agricultura de plantação, sobretudo de cacau e café, que integrava áreas de cultivo e um conjunto de edifícios, instalações e infra-estruturas, formando uma unidade económica e social relativamente autónoma.

[Texto 23 371]

Definição: «novilúnio» Léxico: «luz cinérea»

Já que estamos nisto


      Fiquei siderado perante a diferença de tratamento entre os verbetes «plenilúnio» e «novilúnio». Nem a etimologia é vista pela mesma óptica. Assim, proponho ➠ novilúnio ASTRONOMIA fase do ciclo lunar em que a Lua se encontra entre o Sol e a Terra, ficando a face lunar voltada para a Terra praticamente não iluminada; lua nova. Quanto à etimologia, vem do latim novilunĭu-, «idem».

[Texto 23 370]

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P. S.: Escrevi «praticamente não iluminada», e não «não iluminada», porque a face lunar voltada para a Terra pode receber uma ténue iluminação da luz reflectida pela Terra. A Porto Editora sabe disto, já que este fenómeno se encontra registado no mesmíssimo Dicionário da Língua Portuguesa sob a designação luz cinzenta, mas luz cinérea é hoje a mais corrente na literatura astronómica especializada. Poderão, por isso, ponderar o acolhimento de ➠ luz cinérea/cinzenta ASTRONOMIA ténue iluminação da parte da face da Lua voltada para a Terra e não directamente iluminada pelo Sol, provocada pela luz solar reflectida pela Terra, sendo especialmente visível durante o novilúnio.


P. P. S.: Claro que isto nos deve levar, e nós felizes da vida, a acrescentar uma acepção em ➠ cinéreo 2. ASTRONOMIA relativo à luz cinérea.


Definição: «eclipse solar»

Só em novilúnio


      «Los eclipses solares solo ocurren en luna nueva, con lo que los expertos descartan que hubiese un eclipse durante la crucifixión de Jesús, porque, aunque la Biblia dice que la Tierra se cubrió de oscuridad, la crucifixión se produjo durante la pascua judía, que tiene lugar en luna llena» («La azotea desde la que Galicia esperó la oscuridad sigue en pie un siglo después», Mila Méndez, La Voz de Galicia, 28.07.2026, p. 28). 
      Simplificada, mas verdadeira, a primeira afirmação leva-nos a outra conclusão: a definição de eclipse solar dos nossos dicionários deixa na penumbra muito do que se passa. Assim, proponho ➠ eclipse solar ASTRONOMIA fenómeno em que a Lua se interpõe entre a Terra e o Sol, provocando a ocultação total ou parcial do disco solar para os observadores situados na zona de visibilidade do eclipse, e que só pode ocorrer durante a fase de lua nova.

[Texto 23 369]

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P. S.: Optei por evitar o termo «ocultação», à semelhança do que sucede nas descrições do fenómeno em obras e publicações de Astronomia, uma vez que o eclipse do Sol consiste propriamente na interposição da Lua entre a Terra e o Sol, da qual resulta a ocultação total ou parcial do disco solar para os observadores situados na zona de visibilidade do eclipse.


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