Linguística forense

Autoplágio? Acho normal

      «O linguista forense Rui Sousa-Silva não esperava encontrar tamanha sobreposição de texto quando decidiu comparar os memorandos de entendimento assinados entre a Comissão Europeia (CE), o Banco Central Europeu (BCE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI), por um lado, e a Grécia, a Irlanda ou Portugal, por outro. Logo na primeira leitura, notou grande reutilização de texto. Ao fazer uma análise comparativa, a dimensão pareceu-lhe “absurda”: os acordos assinados pela Irlanda e por Portugal partilham 75% do texto, os assinados pela Grécia e pela Irlanda coincidem em 77%, e os assinados pela Grécia e por Portugal em 82%» («Memorando da troika. O texto português é 82% igual ao grego», Ana Cristina Pereira e Lurdes Ferreira, Público, 3.08.2013, p. 18).
[Texto 3135]

«Cantonamento», de novo

Ausentes dos dicionários

      «Mas há uma outra geografia ferroviária portuguesa que vive ainda a um ritmo não muito diferente do século XIX. São as linhas que ainda não foram modernizadas e cuja exploração continua dependente do cantonamento telefónico — um sistema no qual o chefe da estação telefona para a estação seguinte a pedir o avanço do comboio. [...] O mesmo acontece entre o Pocinho e a Régua, em que o cantão (distância entre estações guarnecidas com pessoal) é de 68 quilómetros)» («Em Portugal poderia ocorrer um acidente igual ao da Galiza?», Carlos Cipriano, Público, 3.08.2013, p. 8).
[Texto 3134]

Acelera ou frena

Infrene e não destravado

      «O Convel [de controlo de velocidade] permite ainda a condução em “piloto automático”, na qual o maquinista dá indicações ao computador de bordo sobre a velocidade a que se pode circular naquele troço e o próprio comboio acelera ou frena — os comboios não travam porque não têm travões, mas sim freios — consoante esteja a subir ou a descer, de maneira a manter-se dentro do limite imposto» («Em Portugal poderia ocorrer um acidente igual ao da Galiza?», Carlos Cipriano, Público, 3.08.2013, p. 8).

[Texto 3133]

Léxico: «nocturlábio»

Mas ainda vai a tempo

      «A eles se deve a invenção dos dois instrumentos denominados astrolábio e nocturlábio, com o primeiro dos quais se tomava a altura dos astros, e com o segundo se determinava quando a estrela do norte andava mais alta ou mais baixa que o pólo [...]» (Historiadores e Críticos do Romantismo, Vol. 1, Guilhermino César. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos Editora, 1978, p. 111).
      Não está em todos os dicionários. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, não o regista.
[Texto 3132]

«Metainformação», de novo

Outra vez bem

      «Ao longo de quase uma hora, o general Keith Alexander apresentou os dois principais programas de vigilância da NSA — um dedicado à recolha de metainformação (números e duração de uma chamada telefónica, por exemplo) e outro que permite o acesso ao conteúdo, neste caso apenas para comunicações mantidas fora do território dos EUA» («Um general entre hackers para falar sobre espionagem», Alexandre Martins, Público, 2.08.2013, p. 23).
      Depois de algumas hesitações, Alexandre Martins lá voltou a escrever correctamente a palavra «metainformação». Uf... Agora só falta estar em todos os dicionários.
[Texto 3131]

Léxico: «acusmático»

E não é doença

      «O termo acusmático», lê-se num cartaz da Casa da Música que o leitor R. A. acabou de me mandar, «genericamente usado para definir sons cuja proveniência se desconhece, remonta ao filósofo e matemático grego Pitágoras, que enquanto dava aulas se escondia atrás de uma cortina negra para evitar que os seus gestos e movimentos distraíssem os alunos. Séculos mais tarde, a palavra “acusmático” passaria também a designar concertos onde se ouve música mas não há músicos.»
      Pitágoras falava atrás de uma cortina para que os seus discípulos não se distraíssem e se concentrassem somente no seu discurso. Era a estes discípulos que apenas o ouviam que se dava o nome de acusmáticos. Actualmente, diz também respeito a toda a música que se ouve, mas cuja fonte se desconhece — no fundo, a esmagadora maioria do que se ouve, pois ouve-se constantemente música e não temos músicos nem instrumentos à nossa frente. Ficava bem dizer agora alguma coisa sobre Pierre Schaeffer, mas tenho de deixar algum trabalho ao leitor, não é?
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista o termo, mas afirma que é o «que diz respeito a acusma» ou o «que padece de acusma». Acusma é, para este dicionário, a «alucinação auditiva em que se ouve[m] sons de vozes ou de instrumentos».
[Texto 3130]

Léxico: «comedão»

Quem diria

      Há palavras que raramente vemos fora dos dicionários. Agora mesmo — e num livro infantil! — acabei de ver uma palavra que desconhecia e que se pode pensar que apenas se usa em manuais de dermatologia: comedão. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora diz que é a «pequena saliência com substância esbranquiçada com um ponto negro no meio, composta por secreções acumuladas numa glândula sebácea».
[Texto 3129]

Ah, as aspas

Eles gostam

      O autor falava das «guerras “médicas” entre Gregos e Persas». Assim mesmo, com aspas, para o leitor não pensar (pois é para isso que as aspas servem...) que se tratava da pessoa que exerce medicina. Os pobres leitores têm lá meios de saber que o adjectivo é relativo à Média ou aos Medos.
      Parece que ainda nunca lhes passou pela cabeça, coitados, que o significado das palavras polissémicas é clarificado pelo respectivo contexto.
[Texto 3128]

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