«Rendibilidade», pois claro

Melhor é impossível

      «Redução da rendibilidade representa 20 % do corte nas PPP» (Maria João Babo, Negócios, 13.05.2013, p. 10).
      É de admirar que num jornal económico se escreva «rendibilidade», quando até em livros se escreve daquela outra forma que não quero agora lembrar. E, por vezes, quando emendamos, o autor (ou, santo Deus!, o próprio editor) não aceita — «porque o mais vulgar é usar-se» daqueloutra forma. Mesmo a sigla PPP costumamos vê-la, nos sítios mais insuspeitos, com outros apêndices: s final ou apóstrofo e s final.

[Texto 2842]

Concordância com numerais

Não pode ser

      «A Alma’s Design fechou em Março um acordo para passar a ser o fornecedor de vasos do IKEA. A primeira encomenda ultrapassará as quatro milhões de peças, estimando a empresa de Águeda que, em termos acumulados, o negócio valha perto de cinco milhões de euros nos próximos três anos» («Empresa de Águeda vai fornecer quatro milhões de vasos ao IKEA», António Larguesa, «Negócios mais»/Negócios, 13.05.2013, p. 4).
      «Milhão» não é um substantivo do género masculino? Então qual é a dúvida? E não está subentendido o vocábulo «loja» a anteceder IKEA? Logo, «a IKEA». (A empresa é portuguesa, centenária e chama-se Alma’s Design? Hum...)
[Texto 2841]

Léxico: «panglossiano»

E o pessimismo schopenhaueriano

      «O doutor Pangloss, surgido na sátira “Cândido” de Voltaire, era um obtuso observador da realidade: até nas maiores desgraças via um sinal de optimismo. Tem muitos seguidores em Berlim, Bruxelas e Lisboa» («Pangloss e o Governo», Fernando Sobral, Negócios, 13.05.2013, p. 40).
      É personagem da ficção de tal forma marcante, que até se criou um adjectivo derivado do seu nome: panglossiano, que é o que encara tudo com optimismo, à semelhança do Doutor Pangloss.

[Texto 2840]

«Encalir/encalar/entalar»

Ai é assim?

      O Jogo da Língua — sim, regressou — de anteontem era sobre se se diz «encalir» ou «entalar» um alimento. Magna questão sobre a língua que deve preocupar todas as donas de casa do presente e do futuro. Do passado não vale a pena falar, o que lá vai lá vai. Entalada ficou logo a concorrente. Lá fez o choradinho da praxe, mas errou. Quer dizer, errou porque a nossa especialista em língua portuguesa assim o quis. Que «entalar» era popular e não sei que mais. E «encalir» é o quê? Dar uma leve fervura a qualquer alimento diz-se dessas duas formas e ainda destoutra: encalar.
[Texto 2839]

Gentílicos em maiúscula

De vez em quando, lembram-se

      «Por onde quer que passe, D. Amélia é aclamada, numa demonstração de afecto que não esperava em tal dimensão. As visitas prosseguem mas a cobertura jornalística vai diminuindo, não fossem os Portugueses ficarem [sic] demasiado exaltados com a presença da sua rainha» («A rainha D. Amélia visitou Portugal em 1945 a convite de Salazar», José Alberto Ribeiro, «Q»/Diário de Notícias, 11.05.2013, p. 19).
      Para ser honesto, quem sabe que é assim (os poucos que parece saberem), e por isso escreve ou emenda nesse sentido, tem a oposição, tenaz e ignorante, da maioria.
[Texto 2838]

«Pespinete» ou «pespineta»?

Os dicionários não ajudam

      «Nas provas de admissão para o Conservatório, João Villaret recitou dois vilancetes e um soneto de Camões. “Recitei-os como eu os sentia e, no fim, o mestre, que era professor conceituado da casa, olhou-me com severidade e disse: O menino tem boa voz, mas os versos não se dizem assim, mas como se fossem prosa. E eu, muito pespinete, nervoso e irritado, respondi: Então porque é que são versos? E o mestre: O menino é insolente mas inteligente, está admitido”» («João Villaret desafiou o modo como se dizia poesia», Maria João Caetano, Diário de Notícias, 10.05.2013, p. 46).
      «Desembarcámos os dois e um pespineta de um turco que não prestava para nada. Moço de câmara. Nós viemos para Belém; mas as coisas em Belém não deram muito acerto. Santarém é melhor» (Herta Teresinha Joan, Agostinho da Silva. Lisboa: Cotovia, 1990, p. 43).
[Texto 2837]

«Nada trespassou sobre o motivo»?

Nunca me avistei com ele

      «Insiste-se para que o escritor [Goce Smilevski] revele a sua opinião sobre o facto de Freud não ter levado as irmãs: “Este enigma nunca será resolvido porque as cartas onde poderá ter dado explicações sobre isso não foram reveladas e continuam guardadas pelos herdeiros do seu legado, que não permitem a sua leitura. Freud teve oportunidade de levar as irmãs consigo, como aconteceu com as outras pessoas de quem se fez acompanhar, mas não o fez. Porquê? Talvez um dia se venha a saber a razão, mas até agora nada trespassou sobre o motivo”» («A confissão da irmã abandonada por Freud», João Céu e Silva, «Q»/Diário de Notícias, 11.05.2013, p. 19).
      «Nada trespassou sobre o motivo»? Em sentido figurado, «trespassar» significa «transgredir». Não me parece que nenhuma das outras acepções se adeque ao contexto. Não será antes «transpirar», que, também em sentido figurado, significa «deixar transparecer; manifestar»?
[Texto 2836]

Inglês, o novo latim

Por preguiça, não vão querer

      «O ministro do Orçamento espanhol [Cristóbal Montoro] deseja ver os conteúdos estrangeiros que são transmitidos pela TVE, estação pública de Espanha, com legendas na língua original, no caso, em inglês» («Espanha discute troca de dobragens pelas legendas», Tiago Henriques, Diário de Notícias, 11.05.2013, p. 42).
      No caso? Mas qual caso? Ora, já suspeitávamos que não se aplicava a «conteúdos» em mandarim ou em tagalo. Os Espanhóis têm de aprender inglês, e o Governo acha que esta é a melhor maneira.

[Texto 2835]

Arquivo do blogue