«Torino»?

Safa

      «Um dos soldados desta história, que trabalha em part-time como gigolo, foi inspirado numa vida real, por exemplo. “Mas a maior parte dos personagens foram construídos a partir dos meus 20 anos, com quem convivi até há pouco tempo e com quem partilhei esta casa perto de Torino, ‘La Cascina’, a que o livro é dedicado”» (Maria Espírito Santo, entrevista a Paolo Giordano, «Liv»/i, 11.05.2013, p. 9).
      Há aí pano para mangas, mas fica a nota: em português não dizemos Torino, mas Turim. Então não é, Maria?
[Texto 2826]

Plural de «Inês»

Ler e tresler

      «Como é que dá nome às suas personagens?», perguntou Maria Ramos Silva, do i, ao escritor Carlos Vale Ferraz, que respondeu: «Tenho uma tabela mental de associações, mas é inexplicável. Certas mulheres são Leonores, outras Inês, outras Ninas, ou Vandas. Certos homens são Antónios, outros Joaquins...» («Liv»/i, 11.05.2013, p. 13).
      Ora bolas, então «Inês» não tem plural? Isso é o que Carlos Vale Ferraz pensa — mas erradamente. «Há muitas Marias na terra, e muitas mais Ineses de Castro na imaginação dos nossos escritores» (Ler & Tresler, Agostinho de Campos. Lisboa: Livrarias Aillaud & Bertrand, 1924, p. 78).
[Texto 2825]

Como se escreve nos jornais

Dos títulos mentirosos

      «Isaltino Morais pediu a suspensão do mandato como presidente da Câmara de Oeiras» («Oeiras. Isaltino Morais renunciou ao mandato de presidente da câmara», Sílvia Caneco, i, 11.05.2013, p. 56).
      Se um autarca pode renunciar ao mandato (art. 76.º da Lei 169/99, de 18 de Setembro) ou suspender o mandato (art. 77.º da mesma lei), o título é logo desmentido na primeira frase do artigo. Que vai claudicando por ali fora, até terminar assim: «Mesmo que não renunciasse ao cargo, Isaltino não poderia exercer porque o artigo 67 do Código Penal dita que “o arguido definitivamente condenado a pena de prisão” fica suspenso de funções.» Em que ficamos, afinal?
[Texto 2824]

Léxico contrastivo: «firula»

Disse «pírulas»?

      «Falta uma política linguística mais assertiva da parte do Brasil, diagnostica o professor [Ataliba de Castilho, autor da Nova Gramática do Português Brasileiro, Contexto]. Seu raciocínio não tem firulas: “A língua caminha junto com a mercadoria, desde sempre. É a economia, ainda mais que a cultura, que expande as fronteiras da língua. Então, é só ver o tamanho e a ambição do Brasil, em face da situação de Portugal hoje. Por que ainda sofremos desse complexo de colônia em relação ao idioma?”» («Essa língua que nos papagueia», Laura Greenhalgh, «Caderno 2»/O Estado de S. Paulo, 11.05.2013, C12).
      Firula. Não temos, pois não. É brasileirismo e de uso coloquial: rodeio, floreio. Claro que também o título é meio enigmático: «Essa língua que nos papagueia». Mas isso há-de ser defeito meu.

[Texto 2823]

Léxico: «tenístico»

Erro, diz ele

      «“Os nossos pensamentos estão com a família de Brad [Drewett] neste dia extremamente triste para eles, para a ATP e para toda a comunidade tenística”, concluiu a nota» («Presidente da ATP que esteve ligado ao ténis durante 35 anos», Diário de Notícias, 5.05.2013, p. 43).
      Imagino que o revisor antibrasileiro daria pinotes com «tenística», como dava, sabem porque eu vos disse, com «clubístico». Feitios...
[Texto 2822]

Léxico: «assimilacionista/assimilacionismo»

Contra as leis da Natureza

      «Não foi esta, porém, a posição que veio a ser assumida pelo Estado Novo. Já não o era, em 1934, a título oficial, mantendo-se uma directriz proteccionista e não assimilacionista. Mas aceitava ainda que surgissem ideias neste sentido, o que, obviamente, já não seria possível na altura em que, para salvar a face, nos anos cinquenta, o Estado optou por um assimilacionismo (sempre controlado) e terminou nos anos sessenta numa lógica assimilacionista completa, provavelmente contra natura [sic], extinguindo a lei do indigenato (existente em certas colónias ou “províncias” até 1961), e conferindo aos naturais a cidadania portuguesa» (Estados Novos, Estado Novo, Luís Torgal Reis. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2009, p. 484).
      Mais duas ausências em alguns dicionários, e nomeadamente no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. (E claro que em vez de contra naturam se pode escrever, e com vantagem, contranatura.)

[Texto 2821]

«Imperatriz/imperadora»

Antes fosse

      Mercedes Balsemão foi ontem ao programa À volta dos Livros falar do seu primeiro romance, A Imperatriz Que Veio de Portugal. A determinada altura, pareceu-me que tinha dito, a propósito de D. Isabel, mulher do imperador Carlos V, «imperadora», mas, confirmei-o agora, a palavra que usou foi «governadora». E, segundo a opinião de dois consultores do Ciberdúvidas, não podia ser de outra forma. Contudo, para alguns dicionários, «imperadora» é o mesmo que «imperatriz», o que significa que tanto designa a mulher de imperador como a soberana de uma nação. Nunca seria esse o erro.
      Mas agora reparem neste extracto da entrevista: «É uma história de amor que, contra todas as expectativas, depois de um casamento político, um casamento dinástico, em que não se conheciam um ao outro, havia rumores, obviamente, sobre a personalidade do futuro marido, chegavam-lhe de todos os lados rumores, e ela, embora quisesse muito casar com ele, porque era esse o destino de uma princesa do seu ranking, do seu nível, que era a princesa do rei mais rico da Cristandade, o rei D. Manuel, tinha de aspirar ao que havia de melhor, mais poderoso, e era esse o seu objectivo.»
      «Do seu nível» — tradução de ranking, é isso? Bem, ranking é a classificação ordenada de acordo com determinados critérios. Mas a entrevistada queria dizer, como se comprova logo de seguida, «categoria», «classe», que em castelhano (e muitas das fontes para a escrita do romance terão sido em castelhano) se diz rango, mas só lhe ocorreu, pela vaga semelhança, a palavra inglesa ranking.

[Texto 2820]

Léxico: «auto-referência»

O paradoxo do Cavaleiro Branco

      Houaiss, Houaiss... Lembramo-nos logo do problema filosófico da auto-referência (o nome do nome), não é assim? Claro que me recordo do que se afirma na proposição 4.126 do Tractatus, mas Carnap defendia, pelo contrário, que um nome pode ser perfeitamente nomeado através da sua inclusão entre aspas, o que foi refutado por Reach. Etc. (É quase, Jorge, como a questão do emudecimento do português europeu, com a diferença de que as asserções relativas a este são verificáveis, ao contrário do que se possa dizer sobre a auto-referência. É só esperar para ver. Esperar para ver a «ado[p]ção» ficar, também na pronúncia, parente do «adoçante», como exemplifica Pedro Correia.)
[Texto 2819]

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