Até prova em contrário

Realmente...

      Ainda pensei que estivesse, por lapso, noutra secção do jornal, mas não: «País». «Um decreto real, datado de 1864 e ainda em vigor, está a alarmar muitos proprietário [sic] de imóveis e terrenos nas margens dos rios portugueses. Caso se encontrem até 50 metros de [sic] limite costeiro, correm o risco de perder esse património» («Decreto real penaliza proprietários ribeirinhos», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 8.07.2012, p. 21). 
      Aqui, o adjectivo «real» tem um peso que não tem em Real Funerária, Real Colégio, Real Grupo de Forcados Amadores de Moura, entre outros. Mas continuemos a ler: «Até 2005, os proprietário [sic] podiam fazer prova por via administrativa. A partir daí, passou a ser feita por via judicial, onde [sic] a prova na grande maioria dos casos afigura-se [sic] impossível. Não foi assim com uma médica de Gaia que conseguiu provar, após vários meses de pesquisa nos arquivos distritais do Porto e na Torre do Tombo, que o imóvel que detinha estava construído sob propriedade privada.» Porquê «sob», que aparece outra vez mais à frente?
[Texto 1784]

Asneiras alheias

Muito trabalho

      «“Bruno Alves entrou na história assim que o penaste que apontou embateu com estrondo no ferro da baliza espanhola. O central, de 30 anos, não conseguiu bater Caselas e abriu o caminho da festa a Labregas e a maestros germanos.” Assim começava um artigo sobre o Portugal-Espanha, publicado no dia 28 de junho, no jornal Record. Não faz sentido? Pois... Mas experimente trocar penaste por penálti, Caselas por Casillas, Labregas por Fàbregas e maestros germanos por nuestros hermanos e talvez fique esclarecido. Afinal, tratou-se de mais uma proeza dos corretores ortográficos automáticos, capazes de pregar as maiores partidas em qualquer redação. O mais curioso é que o próprio diretor do Record, ainda ontem, publicou uma crónica (“Asneiras que doem”) no Correio da Manhã em que aponta alguns erros de jornalistas em diretos televisivos, que considera serem “fruto do desinvestimento geral na qualidade”. E, também ontem, o mesmo diretor assina outra crónica do Record a penitenciar-se pelo erro do seu jornal e por escrever sobre “asneiras alheias”. Ficou confuso? A VESPA também. Mas tem a certeza de que, desta vez, não foi obra do corretor ortográfico» («Asneiras alheias», Diário de Notícias, 8.07.2012, p. 13).
      Agora, com os corretores a trabalharem na Bolsa e nas redacções, tudo piorou, já se sabe. Mas agora a sério: o software ainda não é assim tão inteligente.

[Texto 1783]

Cheque endossável

Não me incumbe

      Ontem perguntaram-me — «já que se ocupa destas coisas da língua» — o que se deve fazer com o cheque não endossável. Assina-se, não se assina? O meu interlocutor confunde um pouco as coisas, mas vamos lá ver. Ainda que talvez baste saber ler para fazer o que é preciso, seria conveniente que entidades como o Banco de Portugal o explicassem. Endossar um cheque é transmiti-lo a pessoa diferente da que figura no título como beneficiário, não é assim? E como é que isso se faz? Apondo a assinatura nas costas (dos, em francês), no verso do cheque (e indicando a entidade a favor da qual é transmitido, mas esta não é uma indicação obrigatória). Assim, o cheque não endossável, que existe há pouco tempo, não pode ser assinado. O beneficiário só pode fazer uma de duas coisas: ou deposita-o na sua conta ou levanta-o ao balcão de uma agência do banco sacado. (Agora vejam lá, não me perguntem como se faz cerveja caseira.)

[Texto 1782]

Sobre «rocket»

Nem pensar

      «Homens encapuzados a disparar rockets de fabrico artesanal. Barricadas com pneus, contentores ou troncos de árvores a arder, agentes da Polícia Nacional e da Guardia Civil armados até aos dentes e a tentarem proteger-se dos projéteis» («‘Rockets’ artesanais e cargas policiais no conflito das Astúrias», P. V., Diário de Notícias, 8.07.2012, p. 7).
      Ia lá sair do bestunto de algum português palavra que traduzisse, melhor ou pior, o conceito expresso por «rocket». Não há nem nunca houve nada de remotamente aparentado. Com quanta mais razão os jornalistas — e não Vieira — diriam «conheci que não sei falar português». «As autoridades», continua o jornalista, «estão atentas, para que o cenário de confronto asturiano não se translade para Madrid.» É claro que o livro de estilo que aconselha a preferir-se «trasladar» e «trasladação» a «transladar» e «transladação» não é o do Diário de Notícias. Fúnebre.
[Texto 1781]

Sobre «marchante»

E o marchand

      Em Espanha, continua a marcha dos mineiros das Astúrias, Leão e Castela sobre Madrid. «Bolhas nos pés: o principal problema dos marchantes», lê-se na edição de hoje do Diário de Notícias. E também há os marchantes das festas populares em Lisboa. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, porém, marchante continua a ser somente «aquele que negoceia em gado para os açougues ou talhos». O mercator pecuarius, como no tempo de Bluteau.

[Texto 1780]

«Palavra compósita»

Acho bem

      «Não tenho a certeza de já ter lido a expressão “palavra compósita”. No caso, para traduzir o inglês “portmanteau word”. Vou pensar nisto.» Escrevi isto hoje de manhã nos 140 caracteres com que o Twitter nos espartilha. Já pensei: parece-me bem. Alguns, a mostrarem-se espertos, já disseram que se pode dar a volta: «palavra-valise».

[Texto 1779]

«Devido a»

Toda a verdade

      «— Devida a — Perguntou-se-me se é portuguêsa a forma devido a. Pelos jornais, revistas e livros modernos são de cotio frases assim redigidas: — não fui devido à chuva, — fiquei devidos aos negócios, — etc.
      Segundo o filólogo Mário Barreto o uso de devido a “é coisa recente”, mas “pode defender-se, considerando esta forma como preposicional.”
       Em português de lei temos as formas — em virtude de,em atenção a,em conseqüência de, por causa de, por obra de, por amor de,graças a, resultante de, — por e outras que tais.
      Mário Barreto, que muito a preceito sabia as coisas da língua, fez uso de devido a, como locução preposicional, nêste passo: — “Posteriormente, devido à relação com cerrar, disse-se e prevaleceu em castelhano cerrojo”. (Através, 127.)
      Sandoval de Figueiredo nos seus Vícios de Linguagem, pág. 155 e 156, diz que é galicismo a expressão devido a. Mas deixa de o ser “quando devido se emprega como particípio passivo: Isto foi devido a, estas coisas são devidas a, etc. — “O gênero masculino... é devido à influência do vinho”. (Mário Barreto: Novíssimos, 37) — “Estas imperfeições eram devidas à criação quase monástica que recebera”. (Rebêlo: H. de Port., I, 5)» (Canhenho de Português, P. José F. Stringari. São Paulo: Editorial Dom Bosco, 1961, p. 30)
[Texto 1778]

O verbo «lapsar» não existe

Só com soluços

      «Importa ainda perceber a razão por que mentiu – uma vez que o verbo lapsar não existe – o então deputado Miguel Relvas ao Parlamento ao comunicar ter o segundo ano de Direito quando, na verdade, apenas tinha concluído — com 10 valores — uma cadeira do primeiro ano» («Doutores há muitos», Nuno Saraiva, Diário de Notícias, 7.07.2012, p. 11).
      Pois não existe, apenas co lapsar (sem reticências, a lembrar a «Oral History (With Hiccups)»), por que a maioria dos tradutores do inglês se pela: «O colapso do Império Romano».

[Texto 1777]

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