Como falam os médicos

‘Tá bem?

      Uma repórter da RTP, Margarida Neves de Sousa, foi assistir a três operações cirúrgicas para remoção de implantes mamários da marca PIP, em Lisboa e em Vila Nova de Gaia. Numa delas, o médico ia dizendo o que estava a fazer, com direito a legendas (pouco fiéis) e tudo: «Vamos fazer uma biopsiazita, ‘tá bem?, porque é mandatório.» A jornalista, contudo, disse o mesmo mas em linguagem de gente: «A notificação ao Infarmed deveria estar a ser feita em tempo real, até porque é obrigatória, tal como a retirada de amostras para análise.»

[Texto 1167]

No rio Minho

Safra da lampreia

      Centenas de pescadores portugueses e galegos do rio Minho estão a ter grandes prejuízos com a falta de chuva. A repórter da Antena 1 Ana Gonçalves foi logo topar com um português atravessado: «E este ano tem-se notado, é muita sequia, não é, e tem-se notado, este ano.» Azar: não falava português nem galego. Sequía: «Non se atopou o termo.»

[Texto 1166]

Como se fala na rádio

Mal, muito mal

      Pedro Lomba escreveu, na sua crónica de hoje no Público, «dicionário Houiass». Uma gralha, de que ninguém está livre. Pior foi à tarde, na Antena 1, um jornalista ter dito que o «Dicionário /Uísse/» ia ser proibido ou algo semelhante (ver texto «Estáquio vs. D’Elboux», aqui).
[Texto 1165]

«Mapa anamórfico»

Mais lacunas

      Hoje de manhã a minha filha perguntou-me se os mapas existem. Tentei aprofundar a dúvida para responder. E agora mesmo, em contrapartida, acabo de conhecer o conceito de mapa anamórfico, ou cartograma. Que, incompreensivelmente, nem todos os dicionários registam.

[Texto 1164]

Isso pergunta-se?

Anda cá que eu já te conto

      E a criatura perguntou-me então, olhos nos olhos, se isso dos audiolivros era ainda literatura. Ah, depende! Acabei de comprar na Boca o audiolivro Memórias de Um Craque, de Fernando Assis Pacheco. Da Boca para o ouvido.

[Texto 1163]

Sobre «fumo»

Já não se vê

      Ontem ouvi na Antena 1 que não sei que jogadores iam usar, num certo jogo, fumo em sinal de luto pela morte do treinador. Há muito que não ouvia a palavra, e há mais ainda que não vejo a «faixa, tarja de tecido preto liso, geralmente baço, que se usa na cobertura da cabeça, na lapela, no braço esquerdo, em sinal de luto» (como o define a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira).
      «Quando apareceu assassinado na Poça das Feiticeiras tinha um fumo preto no chapéu e usava gravata preta» (Eugénia e Silvina, Agustina Bessa-Luís. Lisboa: Guimarães Editores, 1989, p. 134).

[Texto 1162]

Pedro Lomba e o AOLP90

Tem razão

      «Nunca alinhei especialmente nas brigadas pró ou contra a unificação da ortografia. Por falta de competência não iria acrescentar nada ao debate», escreve Pedro Lomba na sua crónica de hoje. Muitos leitores julgarão que isto é modéstia ou falsa modéstia, e bem pode ser, mas o diagnóstico está perfeito, como se comprova pelo que escreveu antes: «Como foi que surgiram entre nós os vocábulos ‘autoclismo’ e ‘retrete’, enquanto os brasileiros escolheram os termos ‘bombeiro’ e ‘privada’? Eu sei que a troika não trata destas coisas. Etimologicamente, aprendo no Houiass [sic], autós significa em grego “por si mesmo” e klusmós “acção de lavar”. Privada entrou mais tarde e sem este amparo clássico. É produto duma outra civilização» («Eterno desacordo», p. 40). Sobre bombeiro/canalizador, descarga/autoclismo, alvitra como o homem da rua: «O que posso dizer é que nenhum acordo de escrita entre Brasil, Portugal e a África lusófona irá erradicar estas diferenças de vocabulário. E muitas outras existem, como toda a gente sabe.» Pois é, mas como se trata de um acordo ortográfico, isso não interessa.

[Texto 1161]

O VOP e o «tato»

Sic, sic, sic

      Só um parágrafo do texto de Francisco Miguel Valada no Público de ontem: «A propósito, se para este desfecho me tivesse alicerçado na plataforma adoptada pelo Governo português, o Vocabulário Ortográfico do Português (VOP), desenvolvido pelo Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC), a “base de legitimação científica” (p. 11) das Autoras, ter-me-ia deparado com mais uma das disparidades entre português europeu e português do Brasil criadas pelo AO90. Contudo, o que se passa é bem mais grave. Diz-nos o VOP do ILTEC que tacto e olfacto apenas se escrevem com cê no Brasil. Isto é francamente estranho. Olfacto e tacto não surgem no Dicionário Houaiss (edição de 2009) e no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (2001), organizado por Malaca Casteleiro, co-autor do AO90, aparece a pronunciação do cê no olfacto do português europeu. As Autoras podem repetir até à exaustão que “a aproximação [?] ortográfica não interfere com (...) a ortoépia” (p. 13), mas, a partir de olfato [sic] AO90, quem tira legitimidade à pronunciação daquele cê? Um vocabulário ortográfico» («Dermatologia e resistência silenciosa», p. 39).

[Texto 1160]

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