«Se não/senão»

Mas escrevam melhor

      «“Esta situação é um autêntico engano e o Governo sabe-o há meses. Todos os matadouros da região de Paris vendem carne halal, sem excepção. Não há se não carne halal”, argumentou Le Pen, no congresso em Lille neste fim-de-semana do seu partido, a Frente Nacional. É um regresso ao território anti-imigração habitual na líder da extrema-direita francesa, a qual ameaçou apresentar queixas legais contra os distribuidores por “enganarem os consumidores”» («Marine Le Pen volta à retórica anti-imigração e anti-islâmica», Público, 20.02.2011, p. 17).
      «Não há senão mato rasteiro, imbondeiros, nuvens, abutres, um horizonte por vezes cor de fogo, talvez revérberos de queimadas» (Jornada de África, Manuel Alegre. Revisão de Susana Baeta. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 3.ª ed., 2007, p. 95).
[Texto 1126]

Isso não é português

Parem!

      «Irão pára de vender petróleo a Paris e Londres» (Público, 20.02.2011, p. 17). Quase copiaram o que diziam os jornais de língua inglesa: «Iran Stops Oil Sales To British, French Companies».

[Texto 1125]

O AOLP90 e os cágados

Assim não convence ninguém

      «Mas faltam ainda muitas assinaturas, por isso este apelo que hoje faço a toda a gente que acha que tirar o acento ao cágado é humilhante para a criatura, que ver Clara a boiar não teria sido certamente a intenção do prémio Nobel autor de Clarabóia, ou que não esteja minimamente de acordo com a transmutação absurda de espectadores em bandarilheiros» («Ilcao.cedilha.net», Manuel Luís de Bragança, Público, 19.02.2012, p. 52).
      Manuel Luís de Bragança, subscritor da iniciativa legislativa de cidadãos pela revogação da entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990, confunde os acordos ortográficos. No texto do acordo de 1986 é que «cágado» perdia o acento. Talvez Manuel Luís de Bragança queira vir aqui explicar porque o fez.

[Texto 1124]

«Dicção» e «dicionário»

O AOLP definitivamente explicado

      Helena Topa, professora do ensino superior, tradutora e revisora de texto, no Público de hoje: «4.º Parece-me que algumas mudanças são empoladas e dramatizadas (e serão assim tantas e com tantos efeitos? Experimentem ler textos de jornal, aqui no PÚBLICO, por exemplo, onde as duas normas convivem, e não vão notar assim tantas diferenças). Aqui d’El-Rei!, como irá um professor explicar ao pobre aluno que ‘Egito’ se escreve sem p e ‘egípcio’ com? Do mesmo modo que terá de explicar, por exemplo, que ‘dicção’ se escreve com c e ‘dicionário’ sem. E outras irregularidades (não só ortográficas) da língua» («Acordo Ortográfico: prós e contras», p. 52).
      Como se fossem situações semelhantes. Desde quando é que o falante comum, e em especial as criancinhas que estão a aprender, pois é neste contexto que a autora usa o argumento, liga «dicção» a «dicionário» como liga «Egipto» a «egípcio»?

[Texto 1123]

O AOLP nos partidos

Ação Socialista

      «Os partidos políticos ainda não são obrigados a aplicar as novas regras e o PCP optou mesmo por só o fazer mais tarde» («Socialistas e PSD já instalaram conversores nas sedes nacionais», Luís Claro, i, 18.02.2012, p. 23).
      E alguma vez vão ser obrigados a fazê-lo? Claro que o ideal é os cidadãos não refilarem. «Faro foi uma das dez autarquias, entre as capitais de distrito, que aderiram. O presidente e ex-governante Macário Correia explica ao i que tem por “bom hábito cumprir as leis e as normas” e por isso cumpre “o acordo desde que entrou em vigor”» («Lisboa e Jardim resistem ao acordo ortográfico. Maioria das câmaras já o aplica», Luís Claro, i, 18.02.2012, p. 22). O maior dilema é no PS: «O PS – que protestou contra a decisão de Vasco Graça Moura de retirar os conversores no Centro Cultural de Belém – foi o partido que mais se aplicou em cumprir à risca as novas regras, mas, durante este processo, foi confrontado com um pequeno imbróglio: o cabeçalho do jornal oficial “Acção Socialista” deve ser alterado ou não? A decisão foi, diz o director do jornal, Marcos Sá, “não fazer [a] alteração, já que é uma marca que está registada”» («Socialistas e PSD já instalaram conversores nas sedes nacionais», Luís Claro, i, 18.02.2012, p. 23). Não me parece um imbróglio.
[Texto 1122]

«Evadir questões»

Eludir, evitar

      «O Presidente tornou-se alvo de chacota geral: foi mesmo criado o verbo wulffen (“wulffar”), que pode ter vários significados: “gritar enraivecido para uma caixa de mensagens de um telemóvel”, “conseguir evadir questões sem chegar necessariamente a mentir”, ou “obter algo sem pagar”» («Presidente alemão demite-se após anúncio de que ia ser investigado», Maria João Guimarães, Público, 18.02.2012, p. 16).
      Serão questões ou perguntas? Evadir ou evitar? E que alcance prático tem tentar traduzir ou adaptar o verbo à língua portuguesa?
[Texto 1121]

«Beto», «betinho»

Tipo social

      «“Os betinhos e as betinhas de Lisboa que integram este Governo talvez ainda não tenham percebido que estão a mexer com coisas muito sérias”, disse Marinho Pinto, em Castro Daire, onde, ontem à tarde, mil pessoas se manifestaram contra o encerramento do tribunal da comarca» (Público, 18.02.2012, p. 6).
      Os Brasileiros não conhecem o termo. E qual é a melhor definição? «Jovem bem-comportado, geralmente um pouco presumido», lê-se no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. «Diz-se de ou jovem que exibe comportamento ou aparência considerado como pertencente a uma classe social elevada», lê-se no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.
[Texto 1120]

«Fizeram rebentar o portão»

Ora vejamos

      «Na Nigéria, homens armados de um grupo islamita atacaram uma cadeia. Mataram um guarda e libertaram 119 prisioneiros. Os assaltantes fizeram rebentar o portão da cadeia com uma bomba. O Governo da Nigéria já ordenou uma investigação ao caso» (Bom Dia Portugal, Carla Trafaria. RTP 1, 17.02.2012, 7h14).
      «Fizeram rebentar»? Se fosse necessário, não teria usado, como é tão vulgar, o verbo «fazer». No caso, há-de querer dizer que os assaltantes contrataram alguém — talvez serralheiros — para rebentar o portão...
Quanto a islamita, está correcto. É a única forma, registada na página 575, que encontramos no Vocabulário da Língua Portuguesa, de F. Rebelo Gonçalves. Saberão isto no Público?
[Texto 1119]

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