Língua quase morta

Mais importante do que o acordo

      André Abrantes Amaral não prevê nem supõe — afirma: «Porque o problema do acordo é precisamente esse: mudar a nossa forma de escrever e, se lermos convenientemente, de falar» («Sopa de letras», André Abrantes Amaral, i, 4.02.2012, p. 12). Por outro lado (que há sempre, parece), o autor não pontua de forma recomendável e mostra ignorar a metalinguagem: «Veja-se a título de exemplo, as palavras como projecto, exacto, acção e directo, que lemos acentuando as vogais que antecedem a consoante muda.» Mal pontuada e francamente desengonçada: «Ora, que mais não é uma língua que muda por decreto, que uma língua morta?»
[Texto 1058]

Objectivos do AOLP90

A língua sem segredos

      «Qual a razão de ser do acordo ortográfico? Dizem os seus defensores que é para facilitar o comércio com o Brasil, ou aproveitar a influência que este vai ter no mundo. Eficiência. A sempre velha eficiência, não ao ponto de eliminar palavras, mas as destruir, eliminando letras. Apagando as suas especificidades. Os seus vários significados que estão na posse de quem gosta da língua e a aprende e a usa em todo o seu potencial. O objectivo do acordo é esse: não tendo a língua segredos, não haja quem os descubra. Todos a falar e a escrever o mesmo» («Sopa de letras», André Abrantes Amaral, i, 4.02.2012, p. 12).
      A língua sem segredos, André Abrantes Amaral? Isso existe? Tudo o que é mais importante da língua está sob a epiderme que é a ortografia.
      Analisemos agora uma frase do texto, esta: «A sempre velha eficiência, não ao ponto de eliminar palavras, mas as destruir, eliminando letras.» Há algum elemento que exija, recomende ou justifique a próclise nesta frase? A próclise também se tem de usar com elementos omitidos? «A sempre velha eficiência, não ao ponto de eliminar palavras, mas [ao ponto de] as destruir, eliminando letras.»

[Texto 1057]

«Absolutamente»

Também vem de trás

      «A legalidade da decisão noticiada ontem pelo “Público” suscita dúvidas, mas a ex-ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, defende que as novas regras se aplicam já ao CCB. “Absolutamente. É uma instituição pública. O ordenamento jurídico estabeleceu o dia 1 de Janeiro como a data de aplicação interna. Tudo o resto que não suceda nesse sentido é uma atitude que está acima da lei”, diz ao i Canavilhas» («Governo dá razão a Graça Moura. CCB pode aplicar acordo só a partir de 2014», Luís Claro, i, 4.02.2012, p. 29).
      Nestas coisas, não há acordo que nos valha: «além de advérbio de modo, esta palavra é empregada no Brasil como advérbio de negação e em Portugal como advérbio de confirmação».

[Texto 1056]

«Trás/traz»

Vem de trás

      «Depois de quatro meses de ausência por motivos financeiros, “The Printed Blog Portugal”, a versão portuguesa da revista norte-americana que trás para o papel textos publicados na blogosfera, está a preparar o seu regresso ainda para este mês» («“The Printed Blog”. Regresso às bancas», i, 4.02.2012, p. 42).
      Gralha? Lapso? Não: confundem verbos com preposições. E é erro — elementar mas crasso — mais comum do que se possa pensar.
[Texto 1055]

Ortografia: «rubrica»

Ainda?

      «O ex-director de informação das rádios do grupo RTP assumiu ontem toda a responsabilidade pela suspensão da rúbrica de opinião “Este Tempo” na Antena 1» («Ex-director de informação da RDP nega “pressões internas e externas”», Márcia Oliveira, i, 4.02.2012, p. 42).
      Cara Márcia Oliveira, escreve mal porque também há-de pronunciar incorrectamente: rubrica, em todas as acepções, é vocábulo paroxítono, e por isso deve pronunciar-se /brí/ e não /rú/.

[Texto 1054]

Graus Celsius

Sempre a desaprender

      «As temperaturas vão hoje continuar a cair em todo o país. A madrugada de amanhã será gelada, com muitos pontos do território continental com os termómetros abaixo de zero. Para o distrito de Bragança, prevêem-se oito graus Celsius negativos (-8.ºC). São esperados ainda -6.ºC em Vila Real, -4.ºC na Guarda, em Braga e em Viseu, -3.ºC em Évora e Portalegre e -2.ºC no Porto e Leiria. No litoral sul, o frio não chegará para congelar. Em Lisboa, a mínima prevista é de 2.ºC» («Massa de ar polar deixa Portugal abaixo de zero», Ricardo Garcia, Público, 3.02.2012, p. 12).
      Ricardo Garcia, então é assim que escreve os graus Celsius? Veja lá isso melhor.
[Texto 1053]

CCB deixa de aplicar AOLP90

Circular interna

      Não foi nenhuma surpresa nem é, salvo melhor opinião, nada que tenha outro valor que não o simbólico, mas, ainda assim, é manchete no Público de hoje: «Vasco Graça Moura dá ordem a serviços do CCB para não aplicarem Acordo Ortográfico». «O recém-empossado presidente do Centro Cultural de Belém (CCB), Vasco Graça Moura, fez distribuir ontem à tarde uma circular interna, na qual dá instruções aos serviços do CCB para não aplicarem o Acordo Ortográfico (AO) e para que os conversores — ferramenta informática que adapta os textos ao AO — sejam desinstalados de todos os computadores da instituição. [...] A questão que agora se coloca é a de saber se esta medida é legal, já que, ainda no Governo de José Sócrates, uma resolução do Conselho de Ministros, datada do dia 25 de Janeiro de 2011, veio ordenar que o AO fosse adoptado por todos os serviços do Estado e entidades tuteladas pelo Governo. [...] O PÚBLICO tentou ainda obter uma reacção de Francisco José Viegas, mas não a conseguiu em tempo útil. Uma fonte da Secretaria de Estado da Cultura (SEC) adiantou, no entanto, que a posição da SEC deverá ser a de que o CCB, sendo uma fundação pública de direito privado, não estará obrigado a adoptar o acordo antes da data prevista para a sua aplicação generalizada, em 2014» («Graça Moura dá ordem aos serviços do CCB para não aplicarem Acordo Ortográfico», Luís Miguel Queirós, Público, 3.02.2012, p. 4). Iniciativa meritória é a tentativa de recuperação dos que se conspurcaram com as novas regras ortográficas: «O documento informa ainda que o CCB irá inscrever no seu plano de actividades para 2012, a “título experimental”, um curso livre de ortografia da língua portuguesa.»

[Texto 1052]

Tradução: «vegetable»

Animal, mineral...

      «A uma revista, o apresentador Jay Leno disse uma vez que não comia vegetais desde 1969 e que a última maçã que comera fora em 1984. Anteontem quebrou o jejum de frutas e vegetais graças à sua convidada de honra, Michelle Obama» («Campanha Michelle consegue pôr Leno a comer vegetais», «P2»/Público, 2.02.2012, p. 15).
      Vegetables, veggies, não é? Vegetais... pois.
[Texto 1051]

Arquivo do blogue