Tradução: «cap»

Chapéu

      «Wash your strawberries, and remove their caps», lia-se no original. E o tradutor verteu assim: «Lave os seus morangos e retire os píncaros e folhas.» Reparem bem: «píncaros e folhas» onde estava somente caps. «Pedúnculo de certos frutos»: regionalismo beirão, regista o Dicionário Houaiss. («Como a cereja e a ginja», acrescenta o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.) Dá jeito, mesmo que as folhas fiquem de fora.
[Texto 986]

Sobre «buzo»

Del portugués, segurísimo que sí

      «Las labores de búsqueda de los desaparecidos del crucero Costa Concordia», lia-se na edição de ontem do El País, «se han vuelto a interrumpir esta mañana por movimientos en el buque. Los buzos ya interrumpieron ayer sus trabajos porque la embarcación oscilaba y era peligroso acceder a los camarotes y salones sumergidos.»
      Segundo alguns autores espanhóis, pode ter vindo de uma variante portuguesa; segundo outros, provém seguramente da língua portuguesa. O DRAE, por exemplo, regista: «Del port. búzio, caracol, y este del lat. bucĭna, cuerno de boyero.» Algumas gramáticas escolares do país vizinho também o incluem, a par, por exemplo, de mejillón, entre os galeguismos e os lusismos. De Bluteau e Morais a todos os dicionários actuais, búzio ainda é «o que mergulha bem, ou o pescador de pérolas, coral e outras coisas que estão no mar». Alguns dicionários continuam a registar a variante buzo para designar o molusco gastrópode.
[Texto 985]

«Palavras plenas/palavras instrumentos»

À volta, à volta

      A pergunta era muito singela: «O que são e como identificar num texto palavras plenas e palavras-instrumento?» A pergunta foi feita ao Ciberdúvidas por Eugénia Oliveira. O consultor Miguel Moiteiro Marques, já nosso conhecido, começa por responder desta forma: «Não tendo encontrado outra referência a palavra plena senão no Dicionário Aulete, suponho que a consulente se referirá à oposição entre palavras lexicais e palavras (ou morfemas) funcionais ou gramaticais (conforme terminologia adotada pelo Dicionário Terminológico.») Depois, porém, tudo se embrulha, e em especial com a referência a Evanildo Bechara.
      A terminologia varia, mas, quanto a essa precisa oposição, o consultor podia ter recorrido a dezenas de obras. Este excerto, de uma obra que nem sequer é sobre linguística ou gramática, parece-me bem esclarecedor: «O programa [informático ALCESTE, de análise quantitativa de dados textuais utilizado em representações sociais] faz uma distinção entre as palavras instrumento (artigos, preposições e conjunções, essenciais para a organização do texto), e as palavras analisáveis (substantivos, verbos, adjetivos, aqueles termos que definem os conteúdos representacionais)» («Representações sociais sobre rejuvenescimento: um enfoque psicossocial», Maria Cristina Triguero Veloz Teixeira, in Maturidade e Velhice, Pesquisas e Intervenções Psicológicas, vol. I. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2006, p. 122).
      De forma isolada, aquelas designações podem remeter para outros conceitos. Palavra plena, por exemplo, que já usei diversas vezes no blogue, como neste exemplo: «Por analogia com pág., forma abreviada de “página” e com págs., plural, obtemos Fig. e Figs., singular e plural, respectivamente. Em ambos os casos, a abreviatura é constituída pelas três primeiras letras da palavra plena, seguidas de ponto de abreviatura» (Dúvidas do Falar Português, vol. 4, Edite Estrela. Lisboa: Editorial Notícias, 1991, p. 144).
[Texto 984]

Sobre «bufete»

Por pouco

      «El bufete del abogado Mario Pascual Vives», lia-se na edição de ontem do El País, «que defiende a Urdangarin, ha declinado confirmar si hoy está previsto algún encuentro entre el letrado y el duque.»
      Nesta acepção, é galicismo que não chegou a este extremo da Península Ibérica. Uf, foi por pouco. Chegámos, todavia, muito perto, pois uma das acepções de «bufete», em português, é secretária antiga; papeleira. Ao que parece — e ao contrário da maioria dos galicismos, que, ou foram adoptados nos séculos XIII e XIV ou no século XVIII e depois –, começou a ser usado em castelhano no século XVI. De mesa de escribir con cajones passou, já se percebe por que processo, a designar o estudio o despacho de un abogado e mesmo a própria clientela del abogado.
[Texto 983]

Léxico: «acosso»

Copiaram, mas está bem

      «“Nos últimos dias”, explicou o advogado, “a minha cliente foi perseguida sem descanso, dia e noite.” Haverá ainda uma queixa por “acosso”. “Desde há algum tempo, Charlotte Casiraghi está a ser acossada, mas, desta vez, com risco de perigo”, referiu [Alain] Toucas. “A princesa vive um inferno diário.”» («Charlotte. Medo de morrer como Diana», «P2»/Público, 19.01.2012, p. 15).
      É substantivo que não está registado nos dicionários mais consultados em Portugal. Já que perguntam — sim, o Vocabulário da Língua Portuguesa, de F. Rebelo Gonçalves, regista-o na página 23. Acosso, acossamento. No caso, a fonte terá sido a imprensa espanhola, que usa o termo «acoso». No Diário Digital, lê-se, como em toda a imprensa do país vizinho, «Carlota Casiraghi».
[Texto 982]

«Adega» e «trisneto»

Não haja dúvidas

      E por falar em Bic Laranja. Num comentário, assinado por Maria (mas, no cabeçalho, [s. n.]) a um texto sobre a pronúncia «adêga», lê-se: «Ainda bem que trás este tema a debate.» Prosseguiu, escrevendo: «Há uns dez anos, escrevi para um jornal sobre justamente estas aberrações fonéticas indesculpáveis.» O comentário tem data de anteontem, mas podia ter sido escrito antes de 1973: «sintàcticamente», «tònicamente», «òbviamente». Para remate, isto: «No mesmo canal [TVI24], creio que no mesmo dia, uma voz feminina pronunciou também em off: “... TRISNETOS”!!! Lindo, não haja dúvidas.»
      Pois é. «Adêga» não é pronúncia antiga nem aberrante. Vão por essas Beiras e ouçam as pessoas. Falem com a minha sogra ou com a minha mulher. (Não, agora não, é tarde.) Abram aí o Vocabulário da Língua Portuguesa, de F. Rebelo Gonçalves, na página 1030: estão a ver «trisneto» na coluna do meio? Será difícil perceber que, por analogia com «bisneto», se formou «trisneto»? Que tem como variante «tresneto» (registada na página 1025). Três, tris.
[Texto 981]

«Ugh/blharc/uh»

Repulsa

      «— Blharc! — exclamou a Joana. — Está nojenta! Devia mesmo ser de um mendigo. Aposto que até ele a achou velha demais e a deitou fora. Tenho a certeza de que não é uma pista» (Uma Aventura dos Sete, Enid Blyton. Tradução de Susana Ferreira e Bárbara Soares. Revisão de Silvina de Sousa. Lisboa: Oficina do Livro, 2011, p. 45).
      Ouve-se por aí, sem dúvida. Contudo, talvez a interjeição que exprime repugnância mais usada seja... uh! Carla Viana, no Ciberdúvidas, porém, foi de «ugh» que se lembrou numa enumeração de interjeições que exprimem repulsa ou desaprovação. No Assim Mesmo, comentou Bic Laranja: «Ouço pff! ou (p)fu! para repulsa. E hâ!»
[Texto 980]

Das «meias-calças» aos «colãs»

Irreconhecível

      «Os outros passaram os olhos pela fileira de coisas penduradas na corda: havia lenços rasgados, vestidos de criança, colãs, meias...» (Uma Aventura dos Sete, Enid Blyton. Tradução de Susana Ferreira e Bárbara Soares. Revisão de Silvina de Sousa. Lisboa: Oficina do Livro, 2011, p. 70).
      Ainda se vêem poucos colãs por aí... No original, está stockings. Provavelmente, nas primeiras traduções ler-se-ia «meias-calças». Isto fez-me lembrar as medias calzas castelhanas, que vieram a chamar-se apenas «meias», por contraposição com as calzas atacadas ou enteras, uma mariquice com correias ou atacadores que prendiam as calças, justas, ao gibão, ao passo que as medias calzas subiam somente até ao joelho.
[Texto 979]

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