«Assumiram as suas posições»

É de admitir

      «As duas equipas separaram-se e assumiram as suas posições» (Uma Aventura dos Sete, Enid Blyton. Tradução de Susana Ferreira e Bárbara Soares. Revisão de Silvina de Sousa. Lisboa: Oficina do Livro, 2011, p. 17).
       Esperava encontrar outra coisa, mas o que está no original é isto: «The two parties separated, and went to each end of Little Thicket.» Assumir é «tomar, atribuir-se, arrogar», lê-se no dicionário de Morais. Nas acepções de supor, pressupor, presumir, assumir é candidato a anglicismo, como escreve, e já aqui o referi, Agenor Soares dos Santos. E, no caso que ora nos ocupa, é português estreme?
[Texto 978]

«Havia» com verbo no pretérito

Preto no branco (e sublinhado)

      «O verbo haver é fonte permanente de erros», escreve Públio Athayde no Manual para Redação Acadêmica. Recomenda depois cuidado com vários casos, entre eles, este, já aqui discutido: «d) usa-se havia em locução verbal com verbo no pretérito imperfeito: Estava no cargo havia três anos; nunca: Estava no cargo há três anos» (Belo Horizonte: Editora Keimelion, 2002, p. 131).
      «A música de Pierre Boulez ocupou a segunda parte do concerto, com uma obra que havia quinze anos que não entrava em programas nacionais. Com a colaboração de uma equipa do IRCAM que se responsabilizou pela electrónica, Peter Rundel deu a escutar ...explosante-fixe... (1991-93) [...]» («Cinzelar, burilar, polir», Diana Ferreira, «P2»/Público, 18.01.2012, p. 8).
[Texto 977]

Como se traduz nos jornais

David Camarão 
e os problemas domésticos

      «Depois de um dia a governar, carregado de problemas domésticos e internacionais, tudo o que David Cameron quer é um jantar tranquilo com a mulher, Samantha, em casa ou num dos seus restaurantes preferidos – o diário britânico The Guardian, que ontem dedicou um pequeno artigo à vida sentimental do primeiro-ministro britânico com base noutro artigo, da Now Magazine, não dizia quais, por razões de segurança» («David Cameron. O que ele faz para namorar», «P2»/Público, 18.01.2012, p. 15).

[Texto 976]

Ortografia: «electrogravitação»

Era fácil verificar

      Num texto de Vera Monteiro, o Público de hoje vem revelar «Tudo o que sempre quis saber sobre as agências secretas». Sobre a Operação Paperclip, lê-se: «Foi o nome de código da operação realizada pelas “secretas” dos Estados Unidos para recrutar cientistas especializados em foguetes, electro-gravitação e armas químicas alemães, que tinham servido a causa de Hitler, após a Segunda Guerra Mundial» («P2»/Público, 18.01.2012, p. 18).
      Se se escreve «electrogalvânico», «electrogénese» e «electrografia», todos exemplos registados na página 367 do Vocabulário da Língua Portuguesa, de F. Rebelo Gonçalves, é claro que tem de se escrever electrogravitação. E é igualmente claro que isto são minudências para eles. E — espantosa coincidência! — para mim também, só que não desprezáveis.
[Texto 975]

«Tratar-se de»

Intratáveis

      «O PÚBLICO contactou José Sócrates, que não se quis pronunciar. Já Luís Miguel Viana afirmou que se tratam de “afirmações mentirosas, caluniosas e difamatórias”, acrescentando: “A confirmarem-se, irei proceder judicialmente”» («José Manuel Fernandes acusa José Sócrates de contratar cobertura noticiosa especial da Lusa», Maria Lopes, Público, 18.01.2012, p. 8).
      Maria, Maria, que desgosto! Então não é «que se trata» que se diz? Nunca leu nada sobre isto? Não lhe ensinaram?
[Texto 974]

Tradução: «now»

Vamos lá ver

      Creio que foi Montexto que certa vez referiu aqui o «agora» mal traduzido. O «agora» que não é «agora» nem «logo». Nas traduções do inglês, vê-se muito. Há, porém, quem perceba que não deverá ser vertido dessa forma. «Now, I’m not saying that I didn’t enjoy ‘sums’ [...]». «Atenção, não estou a dizer que eu não gostasse de fazer “somas” [...].»
[Texto 973]

«Todo o terreno», dAO

«Está? É do ILTEC?»

      «Dentro do jipe todo o terreno encontrado pela polícia cambojana submerso num lago nos arredores de Phnom Penh, a capital do país, estavam cinco corpos em avançado estado de decomposição» («Cinco corpos no jipe de um francês no Camboja», Luís Manuel Cabral, Diário de Notícias, 17.01.2012, p. 25).
      Um engenheiro, em consulta ao Ciberdúvidas, pôs tudo em causa: será «todo-o-terreno» ou «todo-terreno»? Ou será sem hífen? E o plural? E, estocada final, «o termo “jipe” é aceitável?»
      Nem uma palavra sobre o Acordo Ortográfico. O consultor, porém, quis prevenir futuras consultas, e adiantou que deverá escrever-se «todo o terreno», tendo em conta o estipulado no n.º 6 da Base XV do referido acordo: «Nas locuções de qualquer tipo, sejam elas substantivas, adjetivas, pronominais, adverbiais, prepositivas ou conjuncionais, não se emprega em geral o hífen [...].» Como o mundo não é perfeito, é com pesar que acrescenta: «Convém ainda assinalar que a não hifenização da palavra não é consensual, porque o Dicionário Priberam mantém todo-o-terreno, com hífen.» Santo Deus! Pronto, é porque estes senhores entendem que é uma excepção consagrada já pelo uso. É lá com eles. De caminho, notou que o Vocabulário Ortográfico do Português do ILTEC não acolhe a palavra, mas esse é um problema menor.
[Texto 972]

«Espectador/espetador»

Espetanço

      «O responsável pelo pelouro diz-se não só “entusiasmado” com este crescimento no Cabo [sic], como acredita que “os espectadores estão a perceber os esforços” que estão a ser “colocados no trabalho”» («“Espectadores estão a perceber os esforços”», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 17.01.2012, p. 51).
      O Diário de Notícias, que já adoptou a nova ortografia, optou por grafar — não, talvez, por convicção, mas para afastar a chacota — o termo com c. Não se espetaram aqui, espetaram-se ali...
      No dia 5 do corrente, a consultora do Ciberdúvidas Anaísa Gordino decretou: «Assim, quer mantenhamos ou eliminemos o c de uma palavra como espectador, a pronúncia da vogal manter-se-á inalterada, à semelhança de todas as outras palavras que sofrerão a queda das consoantes mudas.»

[Texto 971]

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