Como falam os médicos

Pontos de vista

      Anteontem, o Dr. José Roquette, director clínico do Hospital da Luz, veio novamente falar do estado de saúde de Eusébio: «Eusébio passou muito bem a noite, está muito calmo. Do ponto de vista clínico, laboratorial, imagiológico e radiológico, está melhor.»
[Texto 883]

Ouçam-se

Exercício

      «Devíamos tê-la invejado por ter encontrado alguém sem quem sentia não poder sobreviver para além da porta de embarque, para já não falar da distância, num austero quarto de estudante num subúrbio do Rio» (Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow, Alain de Botton. Tradução de Manuel Cabral e revisão de Tiago Albuquerque Marques. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 46).
      Neste caso, não se trata da tradução em si, mas da absoluta falta de ouvido. Ora leiam em voz alta: «alguém sem quem sentia». Agradável? Harmonioso? Eufónico?
[Texto 882]

Tradução: «wear»

Se tudo correr mal

      «Ambos envergando óculos de sol enormes, tinham chegado à idade adulta no período entre a pneumonia asiática e a gripe dos porcos» (Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow, Alain de Botton. Tradução de Manuel Cabral e revisão de Tiago Albuquerque Marques. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 45).
      Como em inglês é wear, muitos (o erro não é novo para mim) julgam que a melhor tradução é «envergar». Essa acepção, porém, só nos dicionários do futuro, porventura, se poderá encontrar. Se tudo correr mal. Enfim, não é só de melhores dicionários que precisamos.
[Texto 881]

 

Como se escreve nos jornais

Às três pancadas

      «Não pode andar devido a uma recente fractura do fémur e angustia-se constantemente com as muitas dívidas contraídas ao longo dos anos, que nem consegue administrar, porque um tribunal da cidade italiana de Velltri lhe adjudicou um tutor ao vê-la só, sem filhos e nenhum familiar que pudesse tratar dos seus muitos encargos» («Anita Ekberg. Sozinha e com dívidas», «P2»/Público, 24.12.2011, p. 13).
      É assim que foi publicado, por exemplo, no El País, e o jornalista (se foi jornalista) português limitou-se a copiar: «ya que un tribunal de la ciudad italiana de Velltri le adjudicó un tutor al verla sola, sin hijos ni ningún familiar que pueda hacerse cargo de sus necesidades». Se se desse ao trabalho, concluiria que não existe nenhuma cidade com aquele nome, mas sim Velletri, que dista 40 km de Roma. Se tivesse lido a imprensa italiana, veria que o tutor («amministratore di sostegno») foi «nominato dal Tribunale di Velletri», e não adjudicado. (Sim, e o resto da tradução também tem muito que se lhe diga.)

[Texto 880]

«Estacar/estancar»

Aqui não há erro. (Uf!)

      «Um rato selvagem saltou da relva para a pista, onde estancou por um breve momento, encandeado pelos faróis do jipe» (Uma Semana no Aeroporto – Um Diário de Heathrow, Alain de Botton. Tradução de Manuel Cabral e revisão de Tiago Albuquerque Marques. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 110).
      Nesta acepção, estacar e estancar são sinónimos, ao contrário do que se possa pensar. No entanto, não é habitual ver-se, e eu, para evitar equívocos (mas os leitores têm de aprender, sim), não o usaria. Já encadear e encandear não são sinónimos, e é erro que vejo com alguma frequência. Não se confundam cadeias com candeias.
[Texto 879]

«Nigga bitch»

N—A B—H

      «A cantora Rihanna anda zangada. Há dias, escreveu no Twitter que, em Portugal, tinha sido alvo de racismo e agora indignou-se porque a publicação de moda Jackie qualificou o seu estilo de vestir como nigga bitch. Rihanna acusou a redactora-chefe de ser responsável por uma publicação que não defende os direitos humanos, comportando-se de forma desrespeitosa. Esta demitiu-se, dizendo que bitch, na Holanda, se utiliza sem problemas para descrever uma pessoa irritante» («Rihanna em nova polémica», «P2»/Público, 23.12.2011, p. 19).
      E depois? Se lhe chamou nigga bitch, para que é para aqui chamado o particular matiz que bitch tem na Holanda? Irritante, esta Eva Hoeke. Bitch.
[Texto 878]

O «Público» errou

Dados mais finos

      «Na edição do PÚBLICO de dia 8 escrevia-se em título que “Um quinto da população portuguesa não tem qualquer nível de ensino”. Embora o número fornecido pelo INE esteja correcto, devia ter-se referido que neste valor o INE incluiu as crianças sem idade para poderem ter qualquer nível de escolaridade, o que significa que, retirada esta população, o indicador será bastante mais baixo. No entanto, não há neste momento no Censos 2011 dados mais finos que permitam conhecer esta realidade com rigor, algo que só acontecerá com a divulgação dos dados definitivos, em 2012. Pela omissão daquela informação, as nossas desculpas» («O Público errou», Público, 23.12.2011, p. 32).
      Oito dias depois de o provedor do jornal ter referido, citando a carta de um leitor, o caso é que vêm fazer a correcção. Quando se erra e se sabe que se errou, a correcção só perde na demora. No sobe e desce, fica bem lá em baixo.
[Texto 876]

Falsos amigos

Ao lado

      «A 1 de Janeiro, o castelo de Windsor estará convertido num palácio ecológico, sendo capaz de gerar a sua própria electricidade. Ou seja, a rainha Isabel II continua determinada em ter uma monarquia verde. Antes já havia mandado instalar uma planta hidroeléctrica em Balmoral, Escócia» («Isabel II é uma rainha verde», «P2»/Público, 23.12.2011, p. 19). 
      Sim, a rainha «has installed a small hydro-electric plant at Balmoral which is selling electricity to the national grid». Senhor jornalista: em espanhol é que planta também é a «fábrica central de energía, instalación industrial». Mas nós estamos em Portugal, não é?
[Texto 877]

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