Léxico: «estação de isco para roedores»

Vejo-as por aí


      «A Secretaria-Geral da Presidência da República tem feito sucessivos contratos para desratização, desbaratização e desinfestação do Palácio de Belém. O último, que custa cerca de 3642 euros por ano e inclui o Palácio da Cidadela de Cascais, conta 195 estações de isco para roedores, armadilhas para baratas, detetores de traças e de peixinho-de-prata» («Presidência: isco para roedores», Miguel Balança, Correio da Manhã, 30.03.2026, p. 12). 

      Não sabia que era este o nome. Sendo assim, ➜ estação de isco para roedores dispositivo que aloja isco rodenticida em compartimento protegido, permitindo o acesso de roedores e restringindo o de outras espécies.

[Texto 22 729]

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Como se escreve por aí

Impera o desmazelo


      «Antes do lançamento, as dezenas de pessoas tentavam conter as borboletas na barriga. O nervosismo era indisfarçável, o orgulho também. O risco existia, mas era baixo: 0,5% de probabilidades de lançamento. As odds eram boas, mas para quem dedicou muito ao projeto, qualquer meio porcento é muito» («Portugal já lançou seis satélites para o espaço e quer criar o “Waze do mar”», Tomás Anjinho Chagas, Rádio Renascença, 30.03.2026, 12h17). 

      É assim que se escreve, Tomás Anjinho Chagas? Despiorando um pouco, teríamos: «Antes do lançamento, as dezenas de pessoas tentavam conter o nervosismo, que era indisfarçável, tal como o orgulho. O risco existia, mas era baixo: 0,5 % de probabilidade de falha no lançamento. As probabilidades eram favoráveis, mas, para quem dedicou tanto ao projecto, qualquer meio por cento pesa muito.»

[Texto 22 728]

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Etimologia: «lemiste»

Quase uma história


      «Quando se foi embora, esqueceu-se dum colete. Um colete, àquela altura dos tempos, de fino lemiste, largas golas e largo decote, com abotoadura de madrepérola incrustada em prata ou oiro, era uma peça sumptuosa de vestiaria» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 252). 

      Infelizmente, a melhor parte, a mais interessante, da etimologia desta palavra é omitida pelos nossos dicionários. Não sei onde querem que os falantes vão saber. Do castelhano lemiste, «pano preto de lã», do inglês antigo lemster, e este de Lemster, grafia arcaica de Leominster, nome da cidade inglesa, no Herefordshire, onde se fabricava esse tecido.

[Texto 22 727]

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Definição: «K»

O uso estendeu-se


      No Correio da Manhã de sexta-feira, eram dois os casos: a corrida para festejar os vinte anos do El Corte Inglés de Gaia-Porto e, duas páginas mais à frente, a Lisbon EcoMarathon. Em ambos os casos, sempre as distâncias foram indicadas com o uso do K: corrida 10K, caminhada 7K, 42K, 21K, 13K. E não, não me parece que a Porto Editora tenha razão: «coloquial (principalmente falando de dinheiro) mil ⟨Isso vale 3K€⟩». 

      Esse uso há muito que se autonomizou claramente do domínio monetário. O K como símbolo de «mil» vem, em última análise, de «quilo-» (do grego khílioi, «mil»), mas a sua difusão recente deve-se sobretudo aos ambientes digitais: primeiro em métricas de plataformas (subscritores, seguidores, visualizações), depois generalizando-se a outros contextos quantificáveis. Assim, proponho ➜ K informal símbolo usado para representar mil (10³), posposto a numerais para indicar quantidades arredondadas ou de grandeza, em contextos não técnicos, nomeadamente em métricas digitais (subscritores, seguidores, visualizações) e em designações convencionais de distâncias desportivas (10K, 21K, 42K). ⟨O canal já tem 15K subscritores⟩ ⟨Prova de 10K realiza-se ao fim da tarde⟩.

[Texto 22 726]

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Definição: «sobremortalidade»

Também o risco


      «Entendre “Happy Birthday to you” aurait donc bien un avant-goût de “Destination Finale”. Cela gâche un peu la fête? Qu’on se rassure quand même, la surmortalité observée chez celles et ceux qui franchissent un an de plus “reste modeste, bien qu’elle soit statistiquement significative”, relève Christophe Büla, professeur honoraire de l’Université de Lausanne et chef du Service de gériatrie du CHUV entre 2007 et 2023» («C’est lors de notre jour d’anniversaire qu’on risque le plus de mourir», Nicolas Poinsot, 24 heures, 28.03.2026, p. 28). 

      Isto está tudo certo, mas acontece que a definição de «sobremortalidade» nos nossos dicionários não dá conta do recado, já que só se refere a fenómenos colectivos e a picos grandes. Assim, proponho ➜ sobremortalidade DEMOGRAFIA, EPIDEMIOLOGIA excesso de mortes ou aumento do risco de morte, verificado num dado período, situação ou condição específica, em relação ao valor esperado com base em dados de referência, podendo exprimir-se em termos absolutos ou relativos.

[Texto 22 725]

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Definição: «prefeitura»

Nada justifica essa distinção


      «Mas tanto Iwo Jima (também conhecida por Iwoto) como Minamitorishima pertencem à subprefeitura de Ogasawara, composta por cerca de 30 ilhas, que é administrada pelo Governo Metropolitano de Tóquio» («Japão vai instalar mísseis antinavio em ilha do Pacífico», António Saraiva Lima, Público, 30.03.2026, p. 18). 

      Eu é que não percebo porque é que a Porto Editora tem duas acepções, e nem sequer seguidas, de «prefeitura» no sentido de subdivisão administrativa. O leitor sabe? Parabéns, é muito mais esperto do que eu. Tudo podia ser resolvido com uma só acepção — afinal não se trata do mesmo? Ou separamos o que é igual e juntamos o que é diferente? Proponho então ➜ prefeitura ADMINISTRAÇÃO subdivisão administrativa de um território, de nível e competências variáveis conforme o país, geralmente dirigida por um prefeito; pode designar quer a circunscrição em si quer o conjunto dos serviços administrativos que nela funcionam e, por extensão, o edifício onde esses serviços estão instalados; em certos contextos históricos ou específicos, designa também o cargo ou a jurisdição do prefeito.

[Texto 22 724]

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Definição: «peixinho-da-horta»

Isso era dantes


      No sábado, comi peixinhos-da-horta, que estavam óptimos. Eu sei, não têm nada que ver com isso. Mas talvez a Porto Editora tenha porque define assim este acepipe: «CULINÁRIA petisco preparado com feijão-verde envolto em polme e frito em óleo a temperatura elevada». Era assim antigamente, era, agora é mais desta maneira ➜ peixinho-da-horta CULINÁRIA petisco constituído por vagens de feijão-verde envoltas em polme e submetidas a cozedura rápida que lhes confere textura estaladiça, tradicionalmente por fritura em óleo, mas também por outros métodos como forno ou fritadeira de ar.

[Texto 22 723]

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Léxico: «patarrega»

É a terriola, o lugarejo


      «De forma que Sebastião, um dia, depois de haver consultado o seu donguinha, que é o bom diabo familiar de cada um, presentes as duas mulheres e ambas em silêncio segundo a subalternidade que era de lei observarem com os maridos ao tempo e na patarrega, disse para o genro» (O Romance de Camilo, Vol. 1, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 154). Pois é, mas está na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.

[Texto 22 722]

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