Léxico: «naipe»

Esta agora...


      «El origen de la palabra “naipe”, utilizada para designar las cartas de la baraja, se relaciona habitualmente con el término árabe na’ib “representante” o “figura”. De este vocablo habría derivado el italiano naibi y, posteriormente, el español naipe. Desde sus primeras apariciones, el término se empleó para designar la versión islámica o mameluca de la baraja de cuatro palos y sus figuras cortesanas, teniente, virrey y emir, decoradas con motivos geométricos» («Entre naipes y tabernas», Marisa Bueno, La Razón, 24.06.2026, p. 48). 
      E não é que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora omite justamente a acepção etimológica da palavra? Pois é, pois é... Assim, proponho naipe 1. carta de jogar; 2. cada um dos quatro conjuntos em que se divide um baralho de cartas, identificado por um símbolo próprio (copas, ouros, espadas ou paus) e constituído por todas as cartas que apresentam esse símbolo; 3. [por extensão] símbolo gráfico que identifica cada um desses conjuntos. 
      O artigo que cito mostra bem que a origem está toda na cultura islâmica, o que falta na nota etimológica da Porto Editora. Na realidade, vem do castelhano naipe, proveniente do árabe hispânico nā’ib, «representante; delegado», e este do árabe clássico nāʾib, «substituto; representante», termo que aludia às figuras da corte presentes nos primeiros baralhos de cartas.

[Texto 23 335]

Léxico: «hieroglífico»

Um fantasma informado


      «No mac-adam gasto e revolvido, rugosidades de lama cinzenta faziam hieroglyphicos interminaveis, gastos por vezes na profundeza dos sulcos dos carros e no remoinho de pégadas dos vendilhões descalços» («A Ruiva», in Contos, Fialho de Almeida. Porto e Braga: Ernesto Chardron Editor, 1881, p. 63). 

      Porto Editora, isto é Fialho a dizer, de além-túmulo, que hieroglífico não é apenas adjectivo. Ainda que agora desusado, já foi assim, e são vários os dicionários e vocabulários que não o esquecem.

[Texto 23 334]

Léxico: «exossatélite»

Até que enfim uma boa notícia


      «“O exossatélite é claramente massivo o suficiente para ser um planeta, mas não orbita uma estrela [como os planetas], embora orbite um objeto que, por sua vez, orbita uma estrela. O facto de se encontrar no terceiro nível neste sistema [estelar] leva-nos a querer identificá-lo como uma lua, mesmo que não se pareça em nada com as pequenas luas rochosas que vemos no Sistema Solar”, afirmou, citado em comunicado do OES, o autor principal do estudo, Kevin Hoy, da Universidade Diego Portales, no Chile» («Astrofísicos descobrem possível primeira “lua” fora do Sistema Solar», Rádio Renascença, 22.07.2026, 19h37). 

      Tudo visto e ponderado, proponho ➠ exossatélite ASTRONOMIA satélite natural que orbita um corpo celeste não estelar situado fora do Sistema Solar.

[Texto 23 333]

Léxico: «laçadeira»

Não apostes que perdes


      A PFAFF da minha filha avariou-se. Levámo-la à loja e, passados uns dias, quando a trouxe, disse-me que era apenas a laçadeira. Que era o que lhe tinham dito na loja. Para mim, era «lançadeira» — e, em princípio, teria razão se estivesse a falar de uma Singer dos anos 50 ou 60. Numa sofisticada PFAFF dos nossos dias, porém, o termo técnico é outro. Convencido de que a minha filha se enganara, fui consultar os dicionários. Todos registam «lançadeira»; nenhum acolhe «laçadeira», que só está em vocabulários. Mas bastou sair dos dicionários e entrar nos manuais dos fabricantes e da formação profissional para encontrar, repetidamente, laçadeira: laçadeira vertical, laçadeira horizontal, sincronização da laçadeira, lubrificação da laçadeira... O nome, aliás, faz todo o sentido. Enquanto a lançadeira das máquinas antigas herdava o nome da peça do tear que transportava a linha (que por isso é a primeira acepção), a laçadeira das máquinas modernas recebe essa designação porque apanha a laçada formada pela linha da agulha e faz passar essa linha em torno da linha inferior, presa na bobina, entrelaçando ambas as linhas. É desse entrelaçamento das duas linhas que nasce o ponto. Afinal, quem estava enganado era eu. Ou, pelo menos, eu e os dicionários. Porque a técnica já adoptou laçadeira; a lexicografia ainda não. 
      Comecemos por corrigir a definição de ➠ lançadeira 1. peça, geralmente de madeira, que transporta a canela na qual é enrolado o fio da trama, fazendo-a passar entre os fios da urdidura; 2. designação tradicional do mecanismo inferior de certas máquinas de costura, que contém ou transporta a bobina da linha inferior. 
      E registemos ➠ laçadeira mecanismo que, durante a formação do ponto, apanha a laçada formada pela linha da agulha e faz passar essa linha em torno da linha inferior, presa na bobina, entrelaçando ambas as linhas.

[Texto 23 332]

⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: A evolução da terminologia não coincide necessariamente com a evolução tecnológica. Há máquinas antigas com mecanismos hoje designados por laçadeiras e máquinas modernas em que continua a usar-se lançadeira. 


Léxico: «microzima»

Mais babuge


      «Era a febre do sangue infeccionado pelos microzimas do vicio e o desejo da cadella nubente que uma força espicaça de irritantes curiosidades e terrores deliciosos. Aquillo vinha-lhe ás ondas, como a babuge das praias contra fraguedos solitarios» («A Ruiva», in Contos, Fialho de Almeida. Porto e Braga: Ernesto Chardron Editor, 1881, p. 24). 
      Cá está mais uma de que precisamos. (Há uma definição errada (!) num dicionário bilingue, mas vou fingir que nunca a vi.) Assim, proponho ➠ microzima 1. BIOLOGIA (HISTÓRIA) partícula microscópica hipotética que, segundo a teoria de Antoine Béchamp, constituía a unidade elementar da matéria viva; MEDICINA (obsoleto) microrganismo considerado causador ou propagador de doenças infecciosas; germe patogénico.

[Texto 23 331]

Vocabulário, precisa-se

É dos nervos


      «Maria do Rosário Mendes estava em casa, a dormir, quando “por volta da 1h20 da madrugada” sentiu “a casa a abanar”. “Ouviu-se um ronco enorme e tudo a tremer”, conta à Renascença esta professora residente na cidade de Évora. “Estivemos debaixo da ombreira da porta dos quartos durante um bom bocado”, diz a testemunha. Ela, o marido e a filha cumpriram “os procedimentos que a Proteção Civil recomenda”» («Terra tremeu em Évora. “Estivemos debaixo da ombreira da porta dos quartos durante um bom bocado”», Hugo Monteiro, Rádio Renascença, 22.07.2026, 9h45). 
      Para uma professora, não está mal — está péssimo. Que eu saiba, só teremos a ombreira de uma porta por cima de nós se a casa já tiver tombado. Falta de vocabulário, de conhecimento das coisas. As ombreiras, como o nome indicia, ficam de cada lado dos nossos ombros quando passamos por uma porta (ou janela). Por cima fica a verga, ou padieira. Estive a ler o folheto de sensibilização para o risco sísmico da Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil (ANEPC) e o que se lê é «vãos de portas interiores». Vá lá, tiveram tempo para pensar bem.

[Texto 23 330]

Léxico: «mosqueteiro»

Afinal, são mesmo três


      Na verdade, Porto Editora, temos três sentidos diferentes da palavra «mosqueteiro»: o histórico, que é o genérico: soldado armado de mosquete (os mosqueteiros que existiram em vários exércitos europeus entre os séculos XVI e XVII); outro também histórico, mas específico (o mais conhecido e que, contudo, não acolhes), que é o militar da Companhia dos Mosqueteiros da Guarda do Rei de França, criada por Luís XIII, corpo de elite que continuou sob Luís XIV, e que não é apenas uma especialização do primeiro; e o figurado. Assim, proponho ➠ mosqueteiro 1. HISTÓRIA soldado de infantaria armado de mosquete, especialmente entre os séculos XVI e XVII; 2. HISTÓRIA militar da Companhia dos Mosqueteiros da Guarda do Rei de França, criada por Luís XIII e celebrizada pelo romance Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas; 3. figurado defensor; paladino.

[Texto 23 329]


⋅ ── ✩ ── ⋅ 


P. S.: O Dia do Amigo foi na segunda-feira, mas muito a tempo o digo: se chachada é coisa malfeita, a berundanga também é coisa malfeita, ou então um deles não é um trabalho bem-feito. (A propósito, aumenta as acepções de «bem-feito». Sempre me pareceram insuficientes.)


Os Trovantes

Uma pluralização inevitável


      Hoje de manhã, na Antena 1, ao deixar o seu testemunho sobre Luís Represas, por ocasião da sua morte, Ana Sofia Carvalhêda acentuou muito enfaticamente, de modo professoral, o Trovante. Se conhecesse melhor a língua, não o faria. É conhecida a posição do fundador da banda Manuel Faria, que disse que era no singular «porque representa algo maior do que cada elemento e merecedor de respeito». Vale o que vale. Se quisessem mesmo ter mais sorte nessa vontade, que escolhessem o nome O Trovante. Não o fizeram, pelo que têm de se sujeitar à forma como, em português, e habitualmente, nos referimos ao nome de bandas ou grupos musicais — fazendo-o preceder de artigo definido plural, independentemente do traço de número do nome próprio. Logo, os Trovante. Claro que isto levanta questões linguísticas complexas e interessantes, mas não vamos agora tratar delas.

[Texto 23 328]

Arquivo do blogue